Sunday, November 15, 2009

Refugiada

Fujo, corro, sempre para o mesmo sítio. A porta entreaberta para me acolher. Fecho os olhos e inspiro tudo o que o aroma tem para me dar. Cheiro doce familiar, o cheiro do seu cabelo. Um ligeiro arrepio na pele. Ele embrulhado, no sofá, olhos brilhantes, cabelo desalinhado fora e dentro da gola, olhos escondidos por entre melenas onduladas.

Descalço-me, sento-me no sofá ao lado, depois deito-me, aconchego-me nas almofadas, escondo-me sob cobertores. Dele, só a voz que me inquire, o que tenho, o que tenho, o que me faz triste, o que preciso para sorrir, o que quero, o que me poderá ele dar. A voz dele, ora perto ora longe, uma ameaça de proximidade desconcertante.

Ele não sabe como cada seu gesto é um desafio ébrio de beleza, que surpreende e tenta, misturado nos seus olhos de menino pequeno.

O que tenho, como estou, mas não falo, não quero, ali o meu mundo paralisa, é uma outra história, não é real, o que lá acontece não sou eu, não é ele, é mentira, é sonho. Posso aproximar-me, descansar no seu ombro, inspirar o seu cabelo. Posso respirar perto dos seus ouvidos, juntar os lábios à pele morna do seu pescoço, experimentar o que isso faz sentir, desordenar o ritmo das duas respirações, dos batimentos cardíacos, cheirar o seu cabelo, embriagar-me no seu cheiro, na sua voz, na pele, derreter-me no desejo.

Nada é real.

A noite termina, a vida retoma, um cigarro, mais um cigarro e outro. A encharpe que se enrola no meu pescoço, os óculos que sobem à minha visão. Os sapatos para repisar o caminho de volta ao mundo.

Quero um abraço, um beijo, um sussurro reconfortante. Não os tenho.

Fecho a porta atrás de mim, abro outra à minha frente.

No comments:

Post a Comment