Monday, March 8, 2010

Tenho saudades tuas, foi isto que vim aqui fazer. Tenho saudades de ti, tenho saudades de mim, quando contigo. Faltam-me os disparates, as loucuras, conversas tolas, sinonimizar cada palavra até à exaustão, até deixar de fazer sentido, gargalhadas solitárias ao monitor, credo, esta palavra existe, coisas que não me lembrava, coisas que tu ias buscar para me animar, horas ao telefone sobre atender o telefone, conversas infinitas sobre absolutamente nada, cigarros e cigarros que não me deixavas fumar, chás que, no final, deixaste de preparar-me, deitar-me no sofá do qual não me deixavas mover, as botas para longe, o cobertor, eu gelada, que me arremessavas como um menino endiabrado, as séries, o riso, a leve narração da pedagogia, aprende isto, tens de ouvir aquilo, bebe esta letra, o que guardar, a música ensina a vida. Os meus cigarros, deixei-os na tua mesa, deitaste-los fora? A minha pulseira, encontraste-a? Os meus lugares, aquele sofá, aquela cadeira na cozinha, o canto esquerdo da vidraça da varanda, a minha serenidade, o meu respeito. O meu chá, a minha conversa, os meus, teus, olhos, quero-os para mim, o meu nome pela tua voz, quero o meu nome, a música que sopra o meu nome, uma coisa minha em ti, nas tuas palavras, a confessar que eu existo, que me conheces, que sou qualquer coisa o teu corpo emite, que o teu cérebro familiariza, remoto nome trocado.. onde me guardaste?

Tenho coisas para te contar, tenho histórias, amarguras, aventuras que te levariam às lágrimas, perguntas para te fazer, conselhos para te pedir, opiniões que só tu acertas, as críticas que me conhecem, quero o que foi, quero o que era, falta-me esse bocado, faltam-me as borboletas no estômago, irritar-me no teu, mau, feitio, o mau humor, os esquemas, as cenas. Preciso chorar, fazes-me chorar também, preciso esquecer-me de mim, rir-me de mim, amar-me, odiar-me, falta-me a subtileza de te olhar.

Faltas-me tu. Faltas-me tu. Faltas-me tu.

Tuesday, March 2, 2010

Ela acerca dele

E ele, desencorajando e provocando-a, não sou melhor que o mais que tens, sou imperfeito e falível.

Ela, suspirando, raiva, angústia, cansaço, cobrindo os olhos com duas palmas, alisando os caracóis sobre a nuca, inquieta, irritada, olhando o tecto, depois a varanda, despeitada, e depois o tecto, contestando com a cabeça, e depois virando o seu corpo para ele, e finalmente fitando-lhe os olhos furiosamente.

Ela gosta de como ele trata bem um estranho na rua, lhe cede um cigarro (o seu último), um sorriso e agradece, um aperto de mão e um, amigo até à próxima, encarnando o pobre diabo, gosta de como lhe beija a testa por não saber bem onde lhe pode (de como ela quer) tocar, os pulos de alegria, criança, numa surpresa inesperada, na determinação com que quer (e acredita) ajudar o mundo, de como sofre com a descensão de quem lhe fez (muito) mal, da forma como se apaixona (não por ela) pelas pessoas, no bom que vê nelas, no amor que lhe dá e que obriga a ser retribuído a outros, gosta que ele ache graça em apertá-la, os músculos ligeiros sob a roupa larga demais, diz-lhe ele, gosta que a eduque com música, com as palavras, com os sabores e o que deve guardar deles. Gostava que gostasse dela.

Gosta, mas não assim, confessa ele. Chora, mas só por dentro, veste o casaco, pensando, a lua cheia já não me trará a este lugar.