Tenho 32 anos. As coisas já não são como eram. Já não tenho a frescura dos "intes" na pele. Vou-me esquecendo das coisas. Vou planificando refeições e limpezas.
Já sou mais serena, consigo controlar o que digo e normalmente não o faço sem pensar duas vezes. Já não construo castelos no ar, nem tenho a infinita angústia da incerteza do que eu "vou ser". Antes tinha as escolhas todas por fazer. Hoje já fiz algumas. Mas ainda não as suficientes.
Já não tenho urgência de sair à noite de casa, com medo de me desencontrar do meu futuro. Hoje, vou deixando nas mãos do destino. Mesmo não acreditando nele. Já não tenho pressa de crescer. Já não me decepciono tanto. Não tenho expectativas tão altas. Os meus sorrisos são menos genuínos, as minhas gargalhadas mais sentidas. Só choro quando dói cá dentro. E dói-me mais, quando sou impotente. Hoje existem mais injustiças, talvez porque estou mais alerta. Sensibilizo-me mais com as coisas pequeninas, já não acredito em mudar os males do mundo. As minhas amizades são mais raras. Mas a liberdade é maior.
Não preciso fechar-me no meu quarto para ter silêncio. Só de abrir a janela e de olhar as pessoas na rua.
Hoje a solidão já não é uma afirmação de força. Apenas a ausência da alternativa. Fui trocando o vocabulário ao passar do tempo. Os medos por receios, a tristeza por depressão, a paixão por entusiasmo, a perda por escolha, e o amor, pelo que vai surgindo.
Mas ainda assim, a saudade, não se transforma. Não dá lugar ao conformismo. A saudade aperta. A saudade insiste. A saudade crava. A saudade lembra. Que quem amou, não pode ser verdadeiramente livre.
Thursday, September 22, 2011
Thursday, September 15, 2011
Em círculos
Revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias. Faço exercícios de inversão, de virar à esquerda onde virei à direita, de seguir em frente onde dei um passo atrás. Desenho, nos meus passos, uma recta tentando contrariar os círculos sucessivos me submergiu a rotina. Tantas alternativas que me quedo, num centro de um cruzamento, nó cego, frente as várias imagens de mim. Mas têm a mesma expressão. A mesma insatisfação no peito, a mesma incapacidade de ficar.
E sempre constante, instantâneos recortes de ti, os olhos, e um gesto meu, que me afasta o cabelo dos meus olhos, tentando afastar os teus, olhos por onde esses lábios sorriem e a tua alma respira. Os movimentos soltos das tuas mãos, desenhando explicações no ar, esboços de fumo que sigo atentamente para fugir dos teus olhos. A tua postura, que me defronta e me prende, a voz lá ao longe, murmurando-me cautelas e dores antigas, que faço escorregar por entre a minha razão, ignorá-la, porque amanhã, indo ou ficando, serei apenas eu. A voz. A minha ao longe. A tua, ao meu ouvido. As pernas tremem, esquecem de como se deslocar, uma, diante de outra, diante outra e outra, e estacionam no mesmo sítio, que o corpo não quer partir. E o silêncio, que não se escreve, não se ouve, não se racionaliza. O silêncio por onde emergem perguntas mudas, interrogações sem retorno, às quais lanço, contra uma parede branca, várias combinações de como, porquê, quem e se, que devolvo a mim e desenredo em várias combinações possíveis. E, mais uma vez, revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias.
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