Revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias. Faço exercícios de inversão, de virar à esquerda onde virei à direita, de seguir em frente onde dei um passo atrás. Desenho, nos meus passos, uma recta tentando contrariar os círculos sucessivos me submergiu a rotina. Tantas alternativas que me quedo, num centro de um cruzamento, nó cego, frente as várias imagens de mim. Mas têm a mesma expressão. A mesma insatisfação no peito, a mesma incapacidade de ficar.
E sempre constante, instantâneos recortes de ti, os olhos, e um gesto meu, que me afasta o cabelo dos meus olhos, tentando afastar os teus, olhos por onde esses lábios sorriem e a tua alma respira. Os movimentos soltos das tuas mãos, desenhando explicações no ar, esboços de fumo que sigo atentamente para fugir dos teus olhos. A tua postura, que me defronta e me prende, a voz lá ao longe, murmurando-me cautelas e dores antigas, que faço escorregar por entre a minha razão, ignorá-la, porque amanhã, indo ou ficando, serei apenas eu. A voz. A minha ao longe. A tua, ao meu ouvido. As pernas tremem, esquecem de como se deslocar, uma, diante de outra, diante outra e outra, e estacionam no mesmo sítio, que o corpo não quer partir. E o silêncio, que não se escreve, não se ouve, não se racionaliza. O silêncio por onde emergem perguntas mudas, interrogações sem retorno, às quais lanço, contra uma parede branca, várias combinações de como, porquê, quem e se, que devolvo a mim e desenredo em várias combinações possíveis. E, mais uma vez, revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias.

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