Tuesday, December 27, 2011

Uma hora

Ela quer escrever uma história sem palavras. Quer saber que existe, ver-se ao espelho através de estranhos. Esse mundo eclipsado, de reflexos fugidios e de bebidas brilhantes, escuta a música, as batidas compassadas com o ritmo do seu peito. Imerge num sítio estranho, onde todos são um, onde todos sorriem pela mesma emoção que a música provoca. E a música provoca. A música cresce dentro de si e imobiliza tudo em seu redor. Só ela existe naquele quadrado de pista. Fecha os olhos e deixa que o corpo a leve. Vários olhares são cruzados, olhares que desafiam, que enganam, que mentem, deliciosos. Mentiras que nascem e morrem em minutos. Uma hora. É o que tem para dar. Abraça a mentira, fá-la sua. Mãos que se tocam, sem querer, e porque querem. O seu pensamento está longe. Brincam com o seu cabelo e ela permite. Sussurram-lhe palavras ao ouvido que nem ouve. Lábios que acariciam o seu pescoço. São outros os lábios que sente. Não consegue dominar a angústia da solidão. E liberta sorrisos, oferece beijos, troca carícias. Tudo que a faça pertencer a um sentimento maior. Mas os sentimentos não se forçam, as sensações ganham vida, o calor aproxima e a luz do dia desperta. Ao longe, alguns amigos. Não a julgam, não o podem fazer. Estão lá. Sempre. Observam-na de longe, querendo protege-la de si própria, mas não o fazendo.
Há uma mão que a aproxima pela cintura e lhe segreda coisas que ela não entende. Sente um arrepio. Um cheiro que já conhece, uma carícia ébria, uma voz morna. Conversa antigas que a perturbam. Inquietantes. Sabe que não pode demorar os seus olhos nos que a fitam, pois não lhos saberá mentir. A curiosidade que não era suposto. A vontade do que faz mal.
As portas abrem-se, as luzes erguem-se, a voz cambaleia. Pousa o copo esgotado no balcão atrás de si. Veste o casaco. Respira fundo. E com o copo deixa a hora que já não lhe pertence.

No comments:

Post a Comment