Thursday, October 25, 2007

Sleepwalker

Seis horas da manhã. Desperto com uma repentina secura na garganta e um arrepio pelo corpo. Ou talvez com o sentido da responsabilidade, não sei. Nenhuma vontade de me levantar ou de permanecer deitada. O corpo é arrastado até à cozinha onde me dissolvo num copo com água. Há um silêncio avassalador pela casa. Penso que sou a única pessoa na Terra. Os olhos inertes fixam-se no azulejo falhado da parede. As costas curvadas e os braços mal apoiados sobre a mesa da cozinha. Sou incapaz de me mover. Reflicto sobre as actividades planeadas para o dia que ainda não chegou. Não encontro nada. Só o silêncio a ferir os sentidos. Observo as paredes em redor e não reconheço o espaço. Não me recordo do que fiz ontem. Ou no dia anterior. Não sei quem por cá habita. Digo o meu nome em voz alta e não me identifico com ele. Há presenças estranhas por todo o lado. Escuto, à distância, uma voz, que talvez não seja mais que um pensamento, a ordenar-me descanso. Obedeço. Desapareço sob o peso dos cobertores. A meu lado o sentimento de pertença que não encontro em mais nenhum outro lugar.

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Porque é que será

que quando o condutor da viatura à minha frente na estrada faz uma daquelas manobras homicidas, que me faz rever os meus 28 anos de vida em 3 milésimas de segundo, não consigo evitar de, ao ultrapassá-lo, virar o meu pescoço até ao limite da sua elasticidade para ter uma perspectiva indiscreta da sua carantonha? Acho que tenho uma ténue esperança de encontrar um monstro vermelho com chifres na testa e tridente ao lado da caixa de mudanças.

Wednesday, October 24, 2007

Conversas

Em conversa com o meu psiquiatra (gosto desta propriedade que aplicamos aos médicos), e depois de quarenta minutos do meu mais íntimo e angustiado desabafo enquanto ele, disfarçadamente, ia bocejando e consultando o relógio, diz-me:

"Não acha que leva a vida demasiado a sério?"

Duh! Acha mesmo?? Que brilhante conclusão! Já podia ter dito e eu fazia já o switch para o modo levar-a-vida-menos-a-sério. Paga uma pessoa 75€ para ouvir isto!

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Tuesday, October 23, 2007

Greve para todos

Porque é que só os funcionários das empresas exploradoras dos transportes públicos e privados é que tem direito a fazer greve?
Então e os clientes/utilizadores/utentes/pagantes/wathever? Pois fica aqui a minha reivindicação. Meus amigos, hoje sou EU que vou fazer greve. Recuso-me a entrar nos autocarros apinhados da Carris que transbordam gente pelas janelas, dirigidos por pessoas de mal com a vida que se retaliam infringindo regras de trânsito tais como o limite de velocidade nas localidades ou a prioridade de circulação nas rotundas. Nego-me a viajar no Metro e ser agredida de dois em dois minutos com o estridente aviso de fecho de portas, ter de gramar com os sovacos dos outros ao fim do dia ou de me segurar, desprevenidamente, aos varões peganhentos das quinhentas mil mãos suadas que já por lá passaram. Não navegarei na Transtejo colocando a minha vida em risco, e enfrentando a quase impossibilidade de manter a última refeição no estomâgo, enquanto o dito Catamaran aperfeiçoa os seus jumps radicais pelas ondas selvagens do Tejo (acreditem que é verdade!). Não me prestarei a voar em aviões que ninguém sabe quando se vão despenhar deixando-nos sem a mais remota hipótese de salvação e estarmos sujeitos, ainda por cima, a partirmos para o outro mundo com a memória de uma fatia de fiambre verde dentro de um croissant de plástico como última refeição!

Exijo sorrisos smpáticos pela manhã e um "bom resto de dia" à despedida, assim mais ou menos ao jeito da Marta do OK Teleseguro.

Bem... assim terei que andar a pé, não..? hmm.... Anyway, será que vou conseguir chamar a atenção do governo?

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Continuação da espécie

É cada vez mais amiúde que penso em engravidar. Não é que o meu relógio biológico esteja a dar horas e que me babe com cada bebé que me passa à frente (nah, que ideia!), é pura e simplesmente porque acho que está na altura dos meus pais serem avós. Estão naquela fase mais serena da vida em que precisam de um pirralho a berrar e a sujar-lhes a casa para se sentirem realizados.
Mas acabo sempre por chegar à conclusão que ainda é cedo demais, que ainda não estou preparada, que ainda não estabilizei profissionalmente (desisti de o tentar fazer a nível pessoal, vou ser doida até ao resto dos meus dias!), que tenho de mudar de casa.. enfim.

Mas, espera lá! Como é que eu serei capaz de ser mãe e ter a meu total encargo e dependência um novo ser humano quando eu própria ainda me sinto ainda tão criança, tão miúda, preciso de tanto mimo, que ainda rebento em lágrimas quando as coisas não me correm de feição? Por amor de Deus, o meu pai ainda me chama "passarinho" e "bebé" (entre outras coisas pelas quais não vale a pena estar agora aqui a humilhar-me)!

Acho que não há um momento certo, nunca vamos estar preparadas para isto, nós as gajas, claro! É fechar os olhos e atirarmo-nos de cabeça!

Coitados dos meus pais, não têm sorte nenhuma.

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Monday, October 22, 2007

Acordar cedo

Acordar cedo tem o mesmo sabor doce da primeira flor da Primavera. Gosto da luz branca sobre os telhados de lisboa, as cores pálidas reflectidas na expressão fresca dos madrugadores. Gosto do início do dia, testemulhá-lo. Tudo se prepara para acontecer. A cidade começa a mover-se devagarinho. Alguns sons podem distinguir-se muito ao longe, mal se percebem os motores dos automóveis, os passos dos que se apressam para as paragens, o chilrear de um ou outro pássaro que já nem os colocava no turbilhão humano da urbe. Um camião recolhe destroços de garrafas que se acumulam em contentores à porta dos restaurantes. As golas que se erguem quebrando a brisa fria que, sorrateira, surpreende as pessoas. Ouvem-se chávenas tinindo nos pratinhos que as acolhem nos cafés, embebidos em queques e bolos de arroz. Cheira a pão torrado e leite com café. Cheira a croissant e perfumes acabados de serem lançados no pescoço das mulheres, o after-shave alcoólico oleando as faces brilhantes dos homens.
Adoro acordar cedo para o dia que me aguarda lá fora! Adoro o inicío, todos os dias!

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Thursday, October 18, 2007

Mudei de casa

Fiz as trouxas, pu-las às costas e passei uns meses a divagar. A reflectir sobre o destino das coisas. Mudei de casa. Pendurei os quadros, espanhei fotografias, queimei incensos. Sentei-me diante teclas, que pacientemente me aguardavam um assunto, e temi que a voz que haviam silenciado cruelmente não mais se pudesse fazer escutar. Temi já não ser capaz de juntar uma palavra a outra com o mesmo sentido em que as penso. Uma testa franzida tinha-me feito crer que não existe harmonia nas minhas linhas, apenas enfado aos interpretantes. A censura. Mutilação. E essas linhas que antes gritavam até se dispersarem por cada um dos meus poros, calaram-se.
Vou tentar novamente. Devagarinho. Pé ante pé, para não tropeçar.
E desta vez só convido os amigos à minha nova casa.
Bem-vindos.

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