Tomar decisões costumava ser mais simples. Adormecer para o lado direito ou para o lado esquerdo de uma cama só minha. Cerrar as cortinas e envolver-me no silêncio da noite ou abrir-me ao ruído da claridade matinal. Optar entre o bolo de chocolate e o pudim de castanhas. Usar pijama ou camisa de noite para dormir. As escolhas só a mim me pertenciam. Costumava seleccionar quem era meu amigo e quem não era. A quem dedicaria eu a minha compreensão. O rapaz calado e discreto por quem me apaixonaria. Aquele que estaria ali, visível a mim e imperceptível a outros olhares. Aquele cujos pensamentos me intrigavam até ao limite da minha especulação. E que delicioso era desconhecer o espírito por detrás daqueles olhos bonitos.
Julgo que até no desgosto de amor conseguia desfrutar uma espécie de prazer. Abatia-me, sofrida, sobre o edredão morno da minha cama de corpo e meio, braços sufocando a almofada contra o rosto salgado em lágrimas, num acto improvisado no esplendor do meu padecimento. Era uma angústia minha e sobre a qual detinha plenos direitos. Era fantástico ser tocada pela magia do amor, ainda que por um amor imaturo, desajeitado e irreflectido. Todos os sinónimos da idade. Mesmo que essa fátua embriaguez me atropelasse como um vagão. Atravessava milhas, à distância de um corredor, onde me quedava no amparo da minha outra metade. Ser acolhida, sem pensar, por um rosto simétrico e seguro, fitar uns olhos desenhados à minha imagem num carinho involuntário situava-me exactamente onde pretendia estar.
Saudades desse carinho, dos seus olhos, meus. Da gargalhada irreprimida. Ver a felicidade genuína, mesmo ali ao lado. E fazer dela, a minha.
Cabelos dourados e cheiro de boneca. Minha amiga irmã. Sinto a tua falta aqui ao meu lado.
Imagem: www.flickr.com
Lindo! Profundo!
ReplyDeleteEscreves muito bem.
ReplyDelete