Thursday, December 3, 2009

Perder

Mas não, entendes, meu amor? Foram as tuas investidas contra mim que me fizeram reagir, foram os olhos, de mau jeito e arrojo, imersos nas madeixas, foi o meu nome pela tua voz – não conhecia o meu nome – foi a subtileza da descontracção nos passos, foi a minha representação na tua existência – frágil – foi a espera, a espera, a espera do que não vem, a noção que não desaba, o toque que não se acerca, a palavra que não é vertida, o peito quieto, a posição distante, o amparo que se evita.


Sim, perdi. Amanhã, não estou.

Sunday, November 15, 2009

Refugiada

Fujo, corro, sempre para o mesmo sítio. A porta entreaberta para me acolher. Fecho os olhos e inspiro tudo o que o aroma tem para me dar. Cheiro doce familiar, o cheiro do seu cabelo. Um ligeiro arrepio na pele. Ele embrulhado, no sofá, olhos brilhantes, cabelo desalinhado fora e dentro da gola, olhos escondidos por entre melenas onduladas.

Descalço-me, sento-me no sofá ao lado, depois deito-me, aconchego-me nas almofadas, escondo-me sob cobertores. Dele, só a voz que me inquire, o que tenho, o que tenho, o que me faz triste, o que preciso para sorrir, o que quero, o que me poderá ele dar. A voz dele, ora perto ora longe, uma ameaça de proximidade desconcertante.

Ele não sabe como cada seu gesto é um desafio ébrio de beleza, que surpreende e tenta, misturado nos seus olhos de menino pequeno.

O que tenho, como estou, mas não falo, não quero, ali o meu mundo paralisa, é uma outra história, não é real, o que lá acontece não sou eu, não é ele, é mentira, é sonho. Posso aproximar-me, descansar no seu ombro, inspirar o seu cabelo. Posso respirar perto dos seus ouvidos, juntar os lábios à pele morna do seu pescoço, experimentar o que isso faz sentir, desordenar o ritmo das duas respirações, dos batimentos cardíacos, cheirar o seu cabelo, embriagar-me no seu cheiro, na sua voz, na pele, derreter-me no desejo.

Nada é real.

A noite termina, a vida retoma, um cigarro, mais um cigarro e outro. A encharpe que se enrola no meu pescoço, os óculos que sobem à minha visão. Os sapatos para repisar o caminho de volta ao mundo.

Quero um abraço, um beijo, um sussurro reconfortante. Não os tenho.

Fecho a porta atrás de mim, abro outra à minha frente.

Sunday, February 1, 2009

Mudei-me

Agora aqui

Escrever-te cartas

Vou escrever-te cartas. Até não ter mais palavras. Até os dedos me secarem, até os lábios desistirem. Vou inventar linhas em papel branco e fingir que elas não contornarão o que eu quero dizer. Vou abrir palavras enquanto não tiver voz. Vou escrever-te aquilo que não sei dizer. Vou perguntar-te como estás, o que passou, como mudou. Vou coser os desejos antigos para que não se rasguem com o tempo. Vou-te pedir que não penses que já não sou eu. Vou despir a tua pele branca de sobre a minha. Vou tirar o peito do sítio certo e esperar que cure. Vou fazer gelo para não doer. Vou cobrir o espelho para não te ver. Vou despendurar-te das minhas paredes. Vou parar de dançar os teus gestos. Apagar os teus cigarros. Vou abrir as janelas e secar a tua nuvem branca. Vou fazer a cama. Vou-te arrefecer o teu calor dos meus lençóis. Arrancar o teu sabor do meu corpo. Vou escrever-te cartas. Para que um dia as leias. Para que tenhas saudades.