Posto isto, tiro o tempo só para mim. Ninguém me chama, ninguém me reconhece, ninguém me procura, ninguém me quer.
Abro a porta do canto, faço-me entrar no quarto estranho, fecho-a atrás de mim. Costas com porta, cabeça pendida, a certificar-me de que não se volta a abrir. Arranco as botas pesadas do dia para onde não as possa ver, para não me recordarem os passos que dei. Sucessivos avanços e recuos, no caminho até ao duche. Permaneço em frente à cortina. Não sei explicar esta preguiça em entrar. Não quero roubar à pele o sal que o ar marinho lhe deu, o sal que as lágrimas esqueceram no meu rosto. Não quero empalidecer a cor que fui ganhando com o tempo. E deixo-me vencer. Largo as roupas que, supostamente, dirão qualquer coisa a meu respeito. Venço-me à violência com que a água desaba sobre mim, imóvel, inconsciente. O corpo cede à temperatura morna que não aquece, conforta. Lentamente, sinto os músculos desistirem da força que a minha alma lhes pede, dia após dia. Mas a água traz a serenidade que deixa escapar as memórias. Seco-me, sem vontade. O espelho chama-me à atenção. Tenho medo de o ouvir. Fala-me nas linhas que se juntaram aos meus olhos, e na outra a lembrar sorrisos antigos. Sem fazer nenhum esforço, sei precisar o episódio em que mas desenharam. É somente mais uma história para não contar, só mais um adeus.
Puxo um cigarro que me ajude a pensar. E não. Não encontro um sentido em tudo isto.
Friday, April 23, 2010
Tuesday, April 20, 2010
Morte
Hoje é um dia triste. Hoje é um dia cinzento e está sol lá fora, azul lá em cima, brilho na imensidão de mar à minha frente. E ainda assim cinzento, à minha volta, cinzento cá dentro.
Eu pressentia essa dama escura a pairar sobre a minha exiguidade cá em baixo, a espalhar o pó da inevitabilidade nos meus olhos. E eu escondi-me na improbabilidade, empurrei com a barriga o problema para longe de mim, como se dar amor fosse uma tarefa com prazo. Mas não sou eu que marco o prazo, o prazo marca-me a mim, e concretiza-o sem aviso.
E agora perdi essa velhinha que me ensopava o pão no leite com café, que me levava em mão com ela ao peixe e me oferecia salames de chocolate e Sumol de laranja. Perdi-a sem lutar por ela. Fechei os olhos, ela fechou os olhos, recolhi a mão, ela estendeu-me a mão, calei o amor, ela afagava o meu cabelo. E agora, não há retorno.
Eu pressentia essa dama escura a pairar sobre a minha exiguidade cá em baixo, a espalhar o pó da inevitabilidade nos meus olhos. E eu escondi-me na improbabilidade, empurrei com a barriga o problema para longe de mim, como se dar amor fosse uma tarefa com prazo. Mas não sou eu que marco o prazo, o prazo marca-me a mim, e concretiza-o sem aviso.
E agora perdi essa velhinha que me ensopava o pão no leite com café, que me levava em mão com ela ao peixe e me oferecia salames de chocolate e Sumol de laranja. Perdi-a sem lutar por ela. Fechei os olhos, ela fechou os olhos, recolhi a mão, ela estendeu-me a mão, calei o amor, ela afagava o meu cabelo. E agora, não há retorno.
Tuesday, April 6, 2010
Cadeirão Negro II
E dou por mim aqui sentada, despida da postura de senhora-menina que imponho aos outros, emoções à vista de todos, sem gota de estrutura para esconder uma única lágrima, em frente a um estranho. No sofá, ajeito as almofadas para que se façam às minhas costas doridas, tentando disfarçar o mau jeito, as mãos nervosas, enrolo uma perna na outra para não ocupar espaço, sinto o rubor subir ao rosto, o meu olhar esquivo por não conseguir enfrentar o dele…
O estranho inquire-me, sabendo de antemão as respostas, as verdadeiras e as que pronuncio. Olha-me e invade os meus pensamentos como quem desaperta um botão, como se os trouxesse estampados no casaco.
Muitas coisas ainda tenho para dizer, não sei como, mas sei que a seu tempo ele mas fará purgá-las, como se purga o veneno de um sangue doente. E eu estou doente da alma porque não sei amar assim-assim, e ridicularizo-me com esta constatação.
E agora esta música que me interrompe e me atrapalha a reflexão. Faz-me lembrar porque já não me consigo entregar. Porque há um espaço, físico ou metafísico, onde duas pessoas pertencem e se unem numa terceira. Fora dos limites desse espaço, o mundo é pequeno e insignificante, frívolo.
E seguindo o mesmo raciocínio, volto ao estranho. Ao estranho que já me conhece, que já sabe quem eu sou e ao que venho. E porque é a esse lugar que se desejo voltar, nem sei especular porquê. Porque ele olha-me e vê onde não estou, porque aproxima o seu cadeirão do meu, querendo observar-me melhor, querendo escutar as minhas palavras, dar-me existência, significado. Porque todos os seus gestos são genuínos e isso sensibiliza-me até às lágrimas. Porque ver a transparência húmida nos seus olhos pela dor agarrada às minhas memórias, me impele para o seu colo. Desejo que os outros dias corram para que eu possa retornar àquele cadeirão onde eu sou gigante e pequena. Quero que o tempo se dilua na distância entre um dia e o outro, só para escutar aquelas palavras, cadenciadas e serenas, concretizadas num movimento de mãos, aguçadas pela expressão semicerrada de quem foca um objecto longínquo. Essa voz que não julga, uma voz que cola uma palavra à outra e a última ao meu ouvido, como se a sussurrasses tão perto de mim que pudesses escutar o meu coração bater nervoso. Desfias a minha última memória da anterior e chegas ao princípio sem que eu dê conta.
Vou esgotar este pensamento num papel de vento.
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