Friday, April 23, 2010

Posto isto, tiro o tempo só para mim. Ninguém me chama, ninguém me reconhece, ninguém me procura, ninguém me quer.


Abro a porta do canto, faço-me entrar no quarto estranho, fecho-a atrás de mim. Costas com porta, cabeça pendida, a certificar-me de que não se volta a abrir. Arranco as botas pesadas do dia para onde não as possa ver, para não me recordarem os passos que dei. Sucessivos avanços e recuos, no caminho até ao duche. Permaneço em frente à cortina. Não sei explicar esta preguiça em entrar. Não quero roubar à pele o sal que o ar marinho lhe deu, o sal que as lágrimas esqueceram no meu rosto. Não quero empalidecer a cor que fui ganhando com o tempo. E deixo-me vencer. Largo as roupas que, supostamente, dirão qualquer coisa a meu respeito. Venço-me à violência com que a água desaba sobre mim, imóvel, inconsciente. O corpo cede à temperatura morna que não aquece, conforta. Lentamente, sinto os músculos desistirem da força que a minha alma lhes pede, dia após dia. Mas a água traz a serenidade que deixa escapar as memórias. Seco-me, sem vontade. O espelho chama-me à atenção. Tenho medo de o ouvir. Fala-me nas linhas que se juntaram aos meus olhos, e na outra a lembrar sorrisos antigos. Sem fazer nenhum esforço, sei precisar o episódio em que mas desenharam. É somente mais uma história para não contar, só mais um adeus.

Puxo um cigarro que me ajude a pensar. E não. Não encontro um sentido em tudo isto.

No comments:

Post a Comment