Tuesday, April 6, 2010

Cadeirão Negro II

E dou por mim aqui sentada, despida da postura de senhora-menina que imponho aos outros, emoções à vista de todos, sem gota de estrutura para esconder uma única lágrima, em frente a um estranho. No sofá, ajeito as almofadas para que se façam às minhas costas doridas, tentando disfarçar o mau jeito, as mãos nervosas, enrolo uma perna na outra para não ocupar espaço, sinto o rubor subir ao rosto, o meu olhar esquivo por não conseguir enfrentar o dele…
O estranho inquire-me, sabendo de antemão as respostas, as verdadeiras e as que pronuncio. Olha-me e invade os meus pensamentos como quem desaperta um botão, como se os trouxesse estampados no casaco.
Muitas coisas ainda tenho para dizer, não sei como, mas sei que a seu tempo ele mas fará purgá-las, como se purga o veneno de um sangue doente. E eu estou doente da alma porque não sei amar assim-assim, e ridicularizo-me com esta constatação.
E agora esta música que me interrompe e me atrapalha a reflexão. Faz-me lembrar porque já não me consigo entregar. Porque há um espaço, físico ou metafísico, onde duas pessoas pertencem e se unem numa terceira. Fora dos limites desse espaço, o mundo é pequeno e insignificante, frívolo.
E seguindo o mesmo raciocínio, volto ao estranho. Ao estranho que já me conhece, que já sabe quem eu sou e ao que venho. E porque é a esse lugar que se desejo voltar, nem sei especular porquê. Porque ele olha-me e vê onde não estou, porque aproxima o seu cadeirão do meu, querendo observar-me melhor, querendo escutar as minhas palavras, dar-me existência, significado. Porque todos os seus gestos são genuínos e isso sensibiliza-me até às lágrimas. Porque ver a transparência húmida nos seus olhos pela dor agarrada às minhas memórias, me impele para o seu colo. Desejo que os outros dias corram para que eu possa retornar àquele cadeirão onde eu sou gigante e pequena. Quero que o tempo se dilua na distância entre um dia e o outro, só para escutar aquelas palavras, cadenciadas e serenas, concretizadas num movimento de mãos, aguçadas pela expressão semicerrada de quem foca um objecto longínquo. Essa voz que não julga, uma voz que cola uma palavra à outra e a última ao meu ouvido, como se a sussurrasses tão perto de mim que pudesses escutar o meu coração bater nervoso. Desfias a minha última memória da anterior e chegas ao princípio sem que eu dê conta.
Vou esgotar este pensamento num papel de vento.

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