Wednesday, January 19, 2011

a outra parte

dia triste, cinzento, deslavado. dia em que a cor se dissolve na chuva. dia de domingo sorumbático, vazio nas ruas, nos raros carros que monotonamente quebram o silêncio do fim de tarde/princípio de noite, nos cafés fechados, no burburinho mudo, na companhia de ninguém. espreitando a rua, nada me faz sair. nem o sol, nem a sua ideia como palimpsesto das nuvens.
tenho saudades.
a solidão, subtil, vai ocupando o seu lugar na casa, instalando-se, aqui e ali, em objectos que jamais poderão ser relocalizados. só na presença deste vazio, frio, escuro, angustiante, poderiam os objectos ganhar importância.
a cama, grande demais, a mesa, obsoleta, a roupa de banho, ímpar, o guarda-vestidos, desequilibrado, o frigorífico, inútil.
as festas, os jantares, as gargalhadas, as provocações, os innuendos, as seduções, os jogos fúteis, tudo isso me aborrece. não é real, não tem significado.
tenho saudades de ser a outra parte de alguém que é a outra parte de mim.

No comments:

Post a Comment