Saturday, July 28, 2012

Não sei como deitar amor ao lixo. Mudar a tecla de atalho para esse número de telemóvel, esse email predefinido, essa referência imediata à única pessoa a quem efectivamente eu pertenço. Essa coisa de, independentemente tudo o resto, sermos só um do outro. De nos conhecermos melhor que ninguém. Os defeitos que aceitámos incondicionalmente. Os conselhos que mais ninguém acerta. Merda para os laços que não se vêem e que não se cortam à faca. Merda para os afectos irracionais, irresolúveis. 
Merda para as feridas que não se fecham com pontos e não saram com álcool. Merda para a farmácia que ainda não inventou fármacos para estas patologias.
Nem imagino quando isto vai deixar de doer. Provavelmente apenas quando deixar de sentir o corpo e a alma numa espécie de meta existência. 
Nestas alturas gostava de ser um número, pertencer a uma ciência exacta como a matemática, poder encaixar numa equação que alguém resolvesse e designasse de teorema para futuros problemas idênticos. 
Ser pessoa, dói.

Monday, July 23, 2012

De que é que se tem medo, quando se perde tudo. Tudo o que achávamos, ingenuamente, que nos definia, que nos fortalecia, que nos suportava e que nos justificava? De que se chora quando se perde um dia, o dia, nosso dia, e com ele amigos, pessoas, carinhos, considerações, preocupações, sentimentos?
Não se chora mais, não se sente mais. Muda-se. Esquece-se, apaga-se a linha de texto que nos doeu e elimina-se o autor, que já chega de darmos tudo.
Chorar, mais não. Não tenho medo, não tenho dor, não tenho espanto.


Se já não tenho nada, agora sim, posso ter tudo.

Monday, July 9, 2012

Há um barulho que não se ouve. Há um ruído mudo que confunde esse sentido da audição, quando nem reparamos o que se passa em nosso redor. Há uma tristeza no peito de uma mulher que perde um filho, no homem que se divorcia da mulher daquela que, independentemente do papel rubricado, será sempre sua, daquela da que já não consegue dissociar das suas frustrações. 
Há um burburinho das águas que rebentam em rochas lisas e que se propaga por uma floresta adentro, coisas que estão lá, estarão sempre lá, e não as escutamos. Os pássaros que nos acordam de manhã, empoleirados em árvores que roçam folhas umas nas outras, a indicar-nos se está ou não vento, a dar-nos sinais, sinais que preferimos não reconhecer.
Há um barulho surdo e mudo que se vê. Há um coração que bate mais forte no peito da mulher que sente um cheiro, aquele cheiro que, passe as estações do ano que passarem, será sempre o cheiro que a sua pele vai reconhecer. Esse barulho não se ouve. Vê-se, nas suas pupilas que dilatam, nos poros que eriçam em arrepio, uma vertigem que quase faz cair, quase faz cair, e quase se pode ver, um espectro de si, planando sobre o solo morto. 
Há saudades que não têm som, que não têm cor, que não tem sabor. A angústia do querer ver, querer estar, querer tocar e não poder, porque não se pode, não se pode, não se pede. 


Os sentidos também se deitam fora?

Tuesday, July 3, 2012

Votos

Escrever votos é desejar que o minuto, a hora, o dia em que os desejamos se perpetue naquele sentimento que preenche e transborda o nosso ser. É saber, que ali, somos de alguém e alguém é de nó,s e torcermos os dedos, e o corpo todo, para que a vida, a vida que pode ser tão estúpida, não altere essa verdade. É jurarmos, para nós os dois, que ainda que nos tirem o tapete, que ainda que nos troquem as voltas, que ainda que nos façam doer, que ainda que venha um vento de inverno invadir-nos a noite de verão prenunciando um fim, o amor é nosso, e esse ninguém nos pode tirar. 
Que venha a vida, o mundo, o tempo, que venha a pobreza, a insatisfação, a monotonia e a dúvida, o aqui e o agora, serão sempre teus.
Estes são os meus votos.

Monday, July 2, 2012


Podemos fazer tudo para eliminar memórias. Rasgar fotografias, rifar objectos partilhados, devolver empréstimos, despachar partilhas, mudar a orientação da mobília, despendurar quadros, doar roupas perdidas no armário à caridade, evitar sítios, mudar o número de telefone, trocar a fechadura da porta. Tudo. Só há uma coisa que não se apaga, que não se esquece, que não se modifica.

O cheiro das pessoas fica sempre entranhado em alguma parte de nós.