Tenho esta to do list na cabeça, toda itemizada, por grau de importância e ordem de prioridade, mentalmente fixada numa parede branca. Revisito-a, amiúde, actualizando as coisinhas pequeninas que vão forçando o seu espaço nesta esfera redonda que vai sendo a minha atenção. E é preciso ter cuidado, porque a atenção facilmente resvala para dedicação e é aí que está o caldo entornado. Já estando.
E vou observando, sem mãos, sem olhos, os achincalhanços que esta minha lista vai sofrendo, trezentos e xis graus em dez minutos, que nem contra um brisa matreira, fazendo a minha frágil lista girar em cambalhotas a fugir às minhas mãos, eu consigo agir.
E a importância vai perdendo pontos para a circunstância e a prioridade para a obrigação. Sem eu dar por ela, estou imersa na banalidade do dia a dia, a ocupar o cérebro com coisas que não interessam nem às formigas.
Volto à parede branca, rasuro ponto a ponto o que já não se pode escrever, e havendo ainda uma reticência e meia que fosse lá esquecida, trato de enganar o texto e, a suor e lágrimas, pingo para lá um ponto.
À merda, com a decepção da vida adulta e a expectativa de lhe poder organizar um plano.
E porque um senhor disse um dia que não podemos fazer sempre as mesmas coisas e esperar dali um resultado diferente. E não é por ignorar o inevitável que ele se vai transformar em algo maravilhoso. Odeio perguntas, daquelas que me obrigam a falar, detesto confrontos, daqueles que me forçam a pensar.. e toda a gente sabe que de grandes raciocínios nunca sai nada de positivo. Sim, é doloroso tentar fazer contas que, apesar de levarem sempre com um expoente megalómano, resultam sempre numa desapontante subtracção. E se me obrigam a pensar, não posso ser inerte ou inconsequente. Tenho de agir sobre um assunto, agir contra o meu instinto, contra o meu afecto, renegar a minha emoção, tenho de fazer qualquer coisa em favor do amor-próprio, que os amigos não perdoam essas merdas.
E faz doer esse corolário mal testado sobre o qual afinal fixamos fundações e nos atiramos para a frente.
E faço para mim uma pergunta surda, à qual nem me dou ao trabalho de responder.. Diz uma voz baixinho, está na hora.
Odeio não poder confiar em mim para tomar decisões. E o meu erro foi acreditar que podia.
Nem sempre. Mas às vezes. Às vezes sinto que sou feita de papel, descobri. Sou de algodão e de penas, cosida a linhas brancas de alinhavos. Sou uma massa de bolo caseiro que se desmonta se se abrir a porta do forno cedo demais. Um castelo de areia ao sabor da maré. Sou um sapato de cristal. Mas não posso. Não devo.
Há que ir à guerra. E vou. Há que afiar as armas e não mostrar os dentes. E eu faço-o. Temos de olhar para cima. E eu olho. Há que ser confiante, segura. E eu sou. Há que erguer um muro de betão ao meu redor e não deixar ninguém entrar. E não deixo. Há que corresponder às expectativas que vão criando a meu respeito. E eu tento. Há que esconder a parte fraca, que ninguém tem paciência para gente frágil, nem eu.
Mas às vezes, e só às vezes, tenho vontade de chorar e deixar as armaduras do lado de fora da porta, sem ter medo de aborrecer ninguém. Às vezes..
Talvez um dia, o faça sem medos. Talvez um dia, alguém não me julgue por isso e, ainda que o faça, eu venha a não me importar.
Entretanto, o tempo passa. E as lágrimas vão secando. Sem mesmo chegarem a escorrer.
É porque falta sempre qualquer coisa. Porque nunca está tudo no sítio certo, o sítio que eu gostava que existisse, o sítio perfeito que tenho para mim. Porque as palavras são sempre curtas, acabam cedo demais, perdem-se antes das reticências, presas entre uma vírgula e outra que, como quem não quer a coisa, mudam o assunto. E porque não consigo chegar lá. Às vezes acho que "estou além". Mas o além, é só o que não se vê atrás de uma árvore, ou depois de uma curva.
Isto é bom, é uma almofada à qual o meu ombro já se moldou. É o sal à medida certa do meu arroz. E é só assim, não se pode perder em exageros.
E não há mal nenhum em chorar, todos sabemos, mas sempre são lágrimas que se evitam e músculos que se habituaram a contê-las. Não são necessárias explicações.
O meu oxigénio tem local e hora marcados. Passo dias com a respiração sustida até que me sinta viva novamente. E isso dura apenas algumas horas.
É um estranho modo de vida. Mas é o meu. É o que tenho. É o que há.
Ao menos tenho esta intermitência que me faz apreciar o resto.
Qual o problema de ter mau feitio? Há alguma coisa de errado em sentir ciúmes, em ter medo de perder, em entrar em desespero com a incerteza, de não querer a rotina tépida de não sentir nada, de questionar os silêncios, de querer mais, de ter raiva do que não é entendido, de rasgar fotografias por despeito, de partir a loiça para ser ouvido, de sucumbir impulsivamente à paixão, de não pensar no amanhã? Porque não havemos de discutir, de gritar, de berrar, de bracejar, de chorar, de bater as portas, de dar murros na mesa, se for devido à impossibilidade de conter a doença que é o amor, e dentro dos limites aceitáveis do respeito?
Fazer as pazes, terminar em bem, é talvez a única sensação igualável ao primeiro beijo.
Faz mais falta amar à grande, com excessos e exageros, sem comedidas, sem pudores, tem de se amar com propriedade e egoísmo, não há virtude em deixar alguém por amá-la em demasia ou porque é melhor assim. Nunca nada pode ser melhor do que deixar para trás o amor. Isso não só é aberrante, como também abjecto. Não acredito nessa palhaçada diplomática de quem finge gostar de alguém.
Não há essas contas no amor. O amor é uma presença física, é a terceira pessoa entre o casal, é o dia a dia, é os pormenores, as coisinhas, as músicas e filmes que escrevem uma história, é os lugares e as rotinas daquele contexto, é o deus e o diabo, é os puxões de orelhas, os beijos apaixonados, os apelidos constrangedores, as manias e as particulares de cada um e às quais se dá liberdade para crescer, é uma merdinha tão insignificante e tão irritante como a maneira como, na altura certa, nos põe na ordem sem refilarmos. Sim, faz-nos engolir orgulhos e essas inutilidades temperamentais com que justificamos o prazer de bater a cabeça nas paredes.
O amor tem vida e carácter próprios e nunca, por nenhum momento, dá períodos de férias ou "tempos".
O amor pode ser cortado à faca da luz irradiada por quem ama, pode ser colhido de olhos melosos, está na voz e na pele e não pode ser guardado numa gaveta, à espera de melhores oportunidades. Não há (segundas) oportunidades no amor, as consequências de ingenuamente de acreditar nisso são desastrosas. Acaba-se com a magia que há em alguém, apaga-se-lhe o brilho, eliminam-se-lhe as estrelas e o luar. Nada volta a ser igual. Tão triste.
Matou-se o momento, e pelo caminho, morreu essa energia que, no cúmulo de toda a improbabilidade do universo, une duas pessoas ao acaso.
Qual o problema de ter mau feitio? Há alguma coisa de errado em sentir ciúmes, em ter medo de perder, em entrar em desespero pela incerteza, de não
E desperto em sobressalto no meu novo ano com apenas uma palavra na cabeça. Apenas uma e apenas essa. Só neste inicio de ciclo estaquei no caminho com ela à minha frente.
Procuro-lhe significados diferentes daquele que faz sentido para mim. Tento-lhe descobrir uma ideia menos fria, menos definitiva, menos dormente, menos distante. Busco uma raiz distinta daquela que eu não quero ver e que me recuso a aceitar.
Mas a palavra é só isso mesmo. Não há sinónimos mais confortantes. Não há lugar a interpretações subliminares. O peito quer encher-se mas está vazio.
Há que ceder às evidências e receber sem contestação que uma decisão racional só o pode ser para uma parte. Nada ficou igual.
Não sei o que o novo ano trará para mim, mas já sei o que não vai trazer.