Qual o problema de ter mau feitio? Há alguma coisa de errado em sentir ciúmes, em ter medo de perder, em entrar em desespero com a incerteza, de não querer a rotina tépida de não sentir nada, de questionar os silêncios, de querer mais, de ter raiva do que não é entendido, de rasgar fotografias por despeito, de partir a loiça para ser ouvido, de sucumbir impulsivamente à paixão, de não pensar no amanhã? Porque não havemos de discutir, de gritar, de berrar, de bracejar, de chorar, de bater as portas, de dar murros na mesa, se for devido à impossibilidade de conter a doença que é o amor, e dentro dos limites aceitáveis do respeito?
Fazer as pazes, terminar em bem, é talvez a única sensação igualável ao primeiro beijo.
Faz mais falta amar à grande, com excessos e exageros, sem comedidas, sem pudores, tem de se amar com propriedade e egoísmo, não há virtude em deixar alguém por amá-la em demasia ou porque é melhor assim. Nunca nada pode ser melhor do que deixar para trás o amor. Isso não só é aberrante, como também abjecto. Não acredito nessa palhaçada diplomática de quem finge gostar de alguém.
Não há essas contas no amor. O amor é uma presença física, é a terceira pessoa entre o casal, é o dia a dia, é os pormenores, as coisinhas, as músicas e filmes que escrevem uma história, é os lugares e as rotinas daquele contexto, é o deus e o diabo, é os puxões de orelhas, os beijos apaixonados, os apelidos constrangedores, as manias e as particulares de cada um e às quais se dá liberdade para crescer, é uma merdinha tão insignificante e tão irritante como a maneira como, na altura certa, nos põe na ordem sem refilarmos. Sim, faz-nos engolir orgulhos e essas inutilidades temperamentais com que justificamos o prazer de bater a cabeça nas paredes.
O amor tem vida e carácter próprios e nunca, por nenhum momento, dá períodos de férias ou "tempos".
O amor pode ser cortado à faca da luz irradiada por quem ama, pode ser colhido de olhos melosos, está na voz e na pele e não pode ser guardado numa gaveta, à espera de melhores oportunidades. Não há (segundas) oportunidades no amor, as consequências de ingenuamente de acreditar nisso são desastrosas. Acaba-se com a magia que há em alguém, apaga-se-lhe o brilho, eliminam-se-lhe as estrelas e o luar. Nada volta a ser igual. Tão triste.
Matou-se o momento, e pelo caminho, morreu essa energia que, no cúmulo de toda a improbabilidade do universo, une duas pessoas ao acaso.
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