É sempre o teu dia. Só porque ele é teu, só teu e de mais ninguém. Podes enchê-lo da forma que quiseres, tocar a melodia mais alegre, beber o álcool que se for multiplicando no teu copo. Podes encher a cabeça de futilidades ou de trabalho, cansar o corpo até doer, mas nada disso acalmará o vazio.
É porque nesse dia acordas com lágrimas a escorrer-te pela face. Porque passou mais um tanto tempo desde a última vez que fizeste as mesmas contas, e não foste mais feliz.
Porque sustens a respiração entre uma data e outra e, certo de que esse dia não o será sem aquele aviso sonoro que te diz que essa pessoa, a pessoa, te celebra o dia, seja perto ou longe, agora ou noutra vida, e quando o aviso chega, doeu mais do que o contrário. Nada mudou mas tudo está diferente. Nem sequer é o mesmo rosto ao espelho, porque essas feições te foram roubadas. Arranjarás outras, claro, outra forma de sorrir e de chorar, outra cor no brilho dos olhos. Mas o que passou, morreu. E nada te dá um conforto, nem mesmo a resignação de que não podia ter sido de outra forma. Especialmente no teu dia.
Odeias que a sorte, e o azar, e todas as merdas do destino, não tenham respeito pelo teu dia e que deixem que coisas más te aconteçam. Porque te avisaram que a vida não é cor de rosa, mas pode ter outras cores, mas tu não queres outras cores e acabas por deitar isso ao lixo. Não queres perder tempo com o que já viste, vezes sem conta, repetir-se. Não és tu e não é a outra pessoa. É o que é. E o que é, dá-te o murro no estômago sempre, mas sempre, que estás distraído, encantado com qualquer banalidade do universo que, apesar de ser para ti estarrecedor, não é mais do que uma mão cheia de leis da física.
E irrita-te que toda a gente se lembre de ti, e te prometa mil esplanadas à beira-mar com cafés e conversas pelo meio para recuperar o tempo perdido. O tempo não se perde, não se ganha e muito menos se recupera. Como tudo o resto, o tempo subtilmente passa.
Espera que sim. Mas aceita, dentro de ti, de peito aberto, que a única voz que existe independente de ti ou do acaso, te dirá sempre que não. Ainda que seja no teu dia.
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