Sunday, November 25, 2007

Era madrugada recente. Havia humidade em jeito de gotas na atmosfera e um manto negro implacável cobrindo a cidade silenciosa. A sua janela, de vidraças translúcidas perscrutando o Universo, anunciavam aqui e ali luzes amarelas e brancas, reclamos luminosos de cafés fechados, de bares abandonados, reflexos nos olhos dos parcos deambulantes. Era um pedaço imóvel de tempo. Ela esperava-o com paciência. Com expectativa. Arrastava-se de uma janela a outra e outra, cobrindo os percursos possíveis de retorno a casa, envolvida por uma coberta que disfarçasse o Inverno que penetrava pelas entradas mal isoladas, que simulasse um aquecimento inexistente. Ele não aparecia. A ausência inexplicada causava-lhe uma enfermidade maior que a própria doença. Recordava-se de lhe ter dito que não se preocupasse, que ficaria bem sozinha, que não se privasse dos planos. E agora estava há tempo demais desamparada. Sem uma palavra do seu amor. Sem um par de braços mornos que a pudesse embalar. As ruas despidas, as luzes pálidas. A casa enorme.
Adormeceu sozinha, à sua beira uma janela que não lhe trazia o amor de volta.

Imagem: www.flickr.com

Sunday, November 18, 2007

frio na alameda

Imóvel, no centro da gigantesca alameda, contemplava-a como um rebento na montanha, observando a sua dimensão que se estendia em ambos os sentidos para além de si. Uma aragem prudente arrefecia-lhe as mãos descobertas e agitava-lhe o cabelo desalinhado. Pontualmente, surgia gente que vagueava desprevenida, franzido a testa ao brilho cinzento próprio do Inverno, encolhida sob os casacos insuficientes, fechando o corpo ao frio que se instalou sem aviso. E ele, agora sentado no seu banco de jardim, plantado num ponto improvável da avenida, entre betão e fumos de escape, observava inexpressivo. O ruído seco das folhas de árvore condenadas, as estátuas solitárias de olhar sofrido e a gente sem tempo para ficar. Sem destino, diluía-se no movimento pardacento e lesto da cidade. A noite abateu-se sobre si sem dar por isso. O fim do dia, a conclusão da luz, final de vida. Amarelo e preto em seu redor. Luz artificial e ausência dela. Semáforos mais distintos. O vermelho a ditar a solidão da ausência de carros. Escolheu um dos sentidos e desapareceu num ponto escuro da grande alameda.

Imagem: www.flickr.com

Thursday, November 15, 2007

Por vezes há palavras que se arremetem com o desígnio de ferir, e por vezes ferem mesmo. Por vezes há desejos que não se reproduzem do outro lado. Por vezes há ímpetos que se afogam na censura e fenecem não divulgados. Por vezes não somos o que somos, somos aquilo que se espera que sejamos. Por vezes não se conseguem interpretar gestos, negamo-nos a evidência. Por vezes somos tudo e por vezes somos nada. Por vezes queremos crescer e voar. Por vezes somos só aquilo que o espelho reflecte, ausente de substância.

Friday, November 9, 2007

O meu nível

de preguiça é tal que me desloco dentro de casa através da cadeira rolante do escritório. I'm hopeless.