Era madrugada recente. Havia humidade em jeito de gotas na atmosfera e um manto negro implacável cobrindo a cidade silenciosa. A sua janela, de vidraças translúcidas perscrutando o Universo, anunciavam aqui e ali luzes amarelas e brancas, reclamos luminosos de cafés fechados, de bares abandonados, reflexos nos olhos dos parcos deambulantes. Era um pedaço imóvel de tempo. Ela esperava-o com paciência. Com expectativa. Arrastava-se de uma janela a outra e outra, cobrindo os percursos possíveis de retorno a casa, envolvida por uma coberta que disfarçasse o Inverno que penetrava pelas entradas mal isoladas, que simulasse um aquecimento inexistente. Ele não aparecia. A ausência inexplicada causava-lhe uma enfermidade maior que a própria doença. Recordava-se de lhe ter dito que não se preocupasse, que ficaria bem sozinha, que não se privasse dos planos. E agora estava há tempo demais desamparada. Sem uma palavra do seu amor. Sem um par de braços mornos que a pudesse embalar. As ruas despidas, as luzes pálidas. A casa enorme.Adormeceu sozinha, à sua beira uma janela que não lhe trazia o amor de volta.
Imagem: www.flickr.com
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