Saturday, February 27, 2010

Coisas Antigas II

Queria amar como tu, minha querida. Vejo o teu amor crescer, um dia depois do outro. Uma nova janela, uma nova paixão, a tua entrega, o teu carinho. Todos se apaixonam por ti. Pelo teu
incomensurável amor. A transformação onde tocas, por onde o teu sopro alcança.

Tens olhos de mãe, és mãe, de quatro, de todos. Sossegar no teu colo é perder as inquietações mundanas. És maior, és tão grande, tão forte, tão segura de ti. Eu, miúda à tua frente, encolho-me e olho para cima, com vontade de chorar, só porque percebeste a minha angústia. E os teus enormes olhos redondos, magnânimos, aproximam-se e investigam a origem da minha tristeza e reclamam a minha força interior. Será que a tenho?

Eu pequenina, sem certezas, cabeça no ar, sem saber para onde caminhar, inerte e fugaz como uma manhã de inverno que procura a luz do sol. Onde andas?

És grande, és linda, morna e serena como o espelho do mar, como o pôr do sol vagaroso em dia de verão. És a personificação do amor.
Sinto-me correr para ti cada vez que deploro, cada vez que me magoo, que me assoma o rompante de desistir de tudo e insultar-me com as piores cruezas que me sobrevierem. Quantas vezes quero ser outra pessoa, não pensar, não sentir, não optar. Não precisar ser gente.
Queria amar como tu amas. Olhas uma alma cheia de luz e dizes-lhe, só com o teu sentimento, que a vais acompanhar, ajudar, amparar e amar até ganhar asas. E rendem-se a ti.
Queria ser assim. Apaixonar-me pelas pessoas da minha vida. Pelas pessoas da minha não vida. Pelas pessoas de outra vida.
Queria amar o meu amor. Os amores da minha raça, as pessoas queridas em meu redor. Sou pequenina e verde, criança que ainda não cresceu. Sinto inveja, rancor, ciúme. Lamento.
A todos.

Coisas Antigas I

És tão linda que nem pareces real. Tens música nos movimentos e mel na voz. Dá vontade de te escutar, olhando-te, os sorrisos como vírgulas nas frases sem os quais não conseguias falar. És tão ponderada, não deixas nenhuma contigência ao acaso, consideras todas as possibilidades. Os teus conselhos, tal chave na fechadura, abrem portas, assentam em perfeita harmonia nas indecisões.
Sabes tanto, ou então, queres sabê-lo. Fazer-te feliz é encontrar, cara a cara, a própria felicidade. Tudo pelo som de uma gargalhada tua. Se conhecesses o efeito da coreografia dos teus movimentos, perpetuarias cada gesto teu. E o teu perfume, de rosas e morangos, inunda a sala não deixando espaço ao que não é belo.
E eu, diante ti, tão vulgar, tão cheia de imperfeições, de silêncios nas palavras, que as mal consigo balbuciar contigo. Eu, de mãos secas, unhas descuidadas, cabelos desgrenhados, olhar cabisbaixo, como me posso dirigir a ti? Seria quase pecado macular a tua perfeição com a minha rude presença. Gostava de crescer e poder, um dia, ser bela como tu. Plena de amor. Carícias como consentimento. Beleza genuína com vida própria. Irreproduzivel e rebelde, como o vento. Impossivel de capturar. Todos os dias nascem flores. Que águas te regaram, questiono-me, que sentimentos te cultivaram?

Tuesday, February 16, 2010


Não sei o que fazer dela. Rodeia-me, como um suspiro que não fala, um toque gelado, desapiedado. Ela observa-nos, como que a dizer que da sua vontade depende a minha última paixão, os olhos que pela última vez verão o meu sorriso, a quem dar o último abraço, que último nome chamar, que venha dar-me a mão, o último amparo. De quem me conseguirei despedir. Pedir perdão à vida que não gerei, por minha culpa, a continuidade de que não tive tempo, a batalha desleal, inútil travar. Guardar o último fôlego.

Pedir perdão a quem fica. Recusar as lágrimas. Devolver o amor, como uma compra enganada, um investimento perdido. Abençoar-te e desejar que a vida continue, para além de mim.

Imaginar que te lembrarás. Os meus olhos, os meus gestos, que se possam desenhar na tua memória, nas histórias que irás contar.

Continua a olhar para as estrelas sem mim, talvez me encontres.