Thursday, October 21, 2010

Há dias que sabe bem

Há dias que sabe bem acordar pela fresquinha e ir olhar o mar enquanto o sol se levanta, há dias que sabe bem pôr a música bem alto e dançar sozinha pela casa, há dias que sabe bem fotografar o rosto de um estranho, há dias que sabe bem ir até uma montanha e gritar, só gritar a plenos pulmões, há dias que sabe bem sair de casa sem me olhar no espelho, há dias que sabe bem não partilhar a sobremesa que é maior do que a vontade de a comer, há dias em que sabe bem não ter uma única conversa de adultos, há dias que sabe bem ler as cartas do passado, há dias em que sabe bem mudar toda a casa, há dias que sabe bem viajar de mochila às costas, há dias em que sabe bem correr até perder o fôlego, há dias que sabe bem chorar num ombro amigo, há dias que só sabem bem se forem passados na cama, há dias que sabe bem nem tirar o pijama, há dias que sabe bem mergulhar no mar numa noite quente, há dias que sabe bem cheirar o pescoço de quem se gosta, há dias que sabe bem ser irresponsável, há dias que sabe bem desligar o telefone, há dias que sabe bem ver filmes românticos debaixo do cobertor do sofá, há dias que sabe bem surpreender alguém com um "quero-te tanto", há dias em que sabe bem fazer um corte radical no cabelo, há dias que sabe bem ter uma aventura no deserto, há dias em que sabe bem passear descalça na rua.
Há dias assim. E depois, há os outros.

Menina

Menina pequenina e tímida, atrás das saias da mãe, a esconder o sujo das meias, e a vergonha do tropeção que as marcou, o rubor do rosto quando alguém repara. Menina, insegura e solitária, dona de si, dos seus silêncios, dos seus momentos, do seu tempo à sua música, do seu vinho à janela nas luzes de Lisboa à noite. Menina com medo do silêncio, sem memória desses instantes bons, de estar consigo mesma, do vento nos cabelos, de pensar alto, de andar descalça, despida, pela casa, da liberdade cativa de estar só. A menina de quem alguém se lembrou, desaparecida, por onde anda, escondida dentro de si, discreta, para que ninguém a chame, para que ninguém a lembre. Menina, pequenina, estás longe, ausente. Estás mesmo aqui ao lado.


Wednesday, October 13, 2010

Desencontros

Ela acolhia, no seu colo, a tristeza dele, que lhe fazia pesar a cabeça e baixar os braços. Passava as mãos pelo seu cabelo, confortava-o, que era preciso paciência e que o amor é mesmo assim. Ele lamentava com toda a convicção que a única mulher que podia amar não o queria, mas vai esperar por ela, que passe o momento, que amorne a paixão própria da idade.
E ela, enquanto alisava a sua pele com os dedos, e desenhava círculos nas maçãs do seu rosto divagava, a que saberiam os seus lábios? Imaginava-se enrolada nos seus braços, segura pelo seu peito.
Evitava o seu olhar dele, irredutível, não sabia como não ficar sem ar, como não paralisar àquele confronto de espelho de água, não devia ser permitido olhar assim. Não devia haver uma voz tão grave e serena que lhe estremecesse as pernas. E o seu cheiro, embriagava, as moléculas do seu aroma quente, de doce e álcool, magnetizavam a sua pele à dele.
Fugir, disfarçar, que ele não me quer assim, ele não me conhece assim. Queria dizer-lhe outra coisa, gosto de ti, eu estou aqui e vou cuidar de ti, tratar-te como um rei, quero-te muito, vou perder a cabeça e dizer que te amo, que o amor não conhece vergonha, mas vou dizer-te baixinho ao ouvido, não contes a ninguém, vou olhar-te, assim de longe, horas e horas e horas, a minha vida e a próxima.
Mas não, ele não sabe nem vai saber, ele não a vê e não a ouve.
O amor só existe a dois, diz-lhe ele, o amor reside apenas nela, não há mais ninguém - e qualquer coisa se parte enquanto o escuta - não vai haver mais ninguém - e o peito gela e os olhos vacilam, dá-lhe um abraço, festas no cabelo ondulado, beijo no rosto, inspira bem forte, coragem dentro do estômago, aproxima os lábios do seu ouvido, e sussurra-lhe bem de perto, e bem baixinho - paciência, querido, ela um dia será tua.