Thursday, March 29, 2012

O silêncio das salas vazias, ao avançado da hora para estar neste sítio, deixa-me escutar a chuva bater compassadamente nas vidraças gigantes à minha volta. Há um estranho conforto neste ritmo, neste cheiro a outono fora do tempo, as saudades de um clima diferente, com a calma própria que tem. As luzes desfocadas do outro lado da janela permitem-me imaginar coisas que não estão lá, permitem-me ter todo o dia à minha frente, quando ainda não deixei o último para trás.
Não pensar, não "estar doente dos olhos", usar todos os sentidos para percepcionar o fantástico universo que uma explosão nos ofereceu.
 Volta e meia, um carro interrompe a música que já quase me embala, e imagino para onde ele irá, porque não estará no repouso como devia ser.
Os olhos começam a pesar e o corpo combate essa falência, não há nada que me vença, se eu não quiser.
Sou mais forte do que seria de esperar.

Monday, March 19, 2012

Mudanças

Aparentemente já não vou mudar de casa. Pelo menos não fisicamente.
Mas porque coisas há que têm de mudar, vou fechar este livro.
Preciso de começar numa página em branco.
Obrigada pela companhia, enquanto durou.

Primavera


Saí do carro, ainda em andamento. Algumas nódoas negras, nada que não se desfaça com o tempo. 
E agora?
Agora é tempo de parar para respirar. Agora sou eu que preciso de respirar. Sou eu que preciso ver todas as cores que tem o mundo, porque optei demasiado tempo pelo cinzento. Preciso eu agora de arrumar a minha cabeça. Já consegui enterrar as coisas que definitivamente não quero para mim. Arquivá-las. Agora estou em paz comigo mesma. Mudei o modo de pensar. Desconstruí o que se foi construindo, com base na minha imaginação. Esgotou-se a sede, extinguiu-se o fogo com a falta de oxigénio. Cada processo tem o seu tempo. 
E onde está o meu processo? O meu começa agora. Completo. Sem reservas. Nada ficou por dizer ou fazer.
Agora o tempo é meu.
Vou agarrá-lo só para mim. Retirar as amarras que me prendiam, que me impediam de ver as flores e sentir os cheiros da primavera. Ela está a começar, e com ela, um novo ciclo.
Consegui retirar o peso que me estava a fazer deixar de acreditar em mim. Mas acredito em mim e no que eu sou e dou. Sou bem mais do que tenho sido. E disso, eu não abdico.
Que venha a primavera em pleno, estou pronta a recebê-la, de braços abertos.

Sunday, March 18, 2012

Estrada cortada

Quase sem querer, sem intenção ou disposição, os assuntos foram sendo folheados, como páginas de um livro empoeirado que já ninguém pretendia abrir. Os temas foram-se sobrepondo, circundando os que não se queriam tocar, generalizando todas as frases até elas convergirem para o que os dois tanto se esforçaram por evitar. Confesso que tenho os meus métodos. 
Sorrisos honestos, olhares incontornáveis, cumplicidades construídas, emoções que se partilharam em forma de palavras, quando chegou a altura de fluirem. E tão bom, tão real, tão sinceras, tão doces, tão íntimas, as conversas que não são conversas, que são murmúrios, pensamentos em voz alta, receios, dúvidas, ambivalências entre a razão e a emoção, guerras onde não existem vitórias possíveis, coisas que se puseram cá para fora sem crivos, ouvindo, recebendo, abrindo o peito, escolhendo os termos com cautela, para não haver balas perdidas. 
E vi-te como pensei não voltar a ver-te, eras tu, estavas lá, eram os teus olhos, a tua voz, as covinhas do sorriso no rosto, os teus gestos, com todas as cores que tens, corpo e alma, sem ter que ir a outro lado, cabeça num único lugar, ali comigo, dando-te as is, completo, desconstruindo-te, dando-me as ferramentas para eu te dissecar, percebeste e deixaste-me fazê-lo, eu precisava conhecer esse bocado teu que enclausuraste e do qual deitaste fora a chave. Entendo agora, e dói-me o peito ao imaginá-lo, a decepção, o gelo que foi teres-te enganado, teres sentido que jogaste amor fora. E agora não o podes ir buscar. Ou não queres. Porque dói, e ninguém quer doer ou fazer doer.
Gostava que tivesses uma pequena ideia do quanto essa partilha me emocionou. Amei-te nesses minutos, horas, dias, anos que essa conversa durou. Porque vi tudo. Claramente à minha frente.  
Obrigada por isso. 
Não vou largar o travão. Ninguém está preparado. A sentença foi ditada. 
Saio na próxima paragem.

Friday, March 16, 2012

Novas oportunidades

Amanhã será o dia. Em que te vou conhecer de novo, pela primeira vez. Será o dia em que me decido apaixonar, ainda que só por uns instantes. E saberás à partida, que enquanto me tiveres, será de corpo e alma. 
Arrumei-te numa caixa do sotão. Desculpa-me por isso. Mas vou resgatar-te de lá. Vou ceder à tua insistência. Preciso ver-te novamente, preciso das sensações que o teu olhar me trás. Preciso de me esquecer de mim, em ti.
Vamos por a conversa de anos no dia de hoje.Vamo-nos (re)conhecer do princípio, começar por onde se deve fazê-lo. Preciso de ouvir a tua voz e o meu nome nela. Preciso do sorriso dos teus olhos, vê-los brilhar só  porque fitam os meus. Preciso dessa tua clareza de pensamentos, da tua cabeça limpa e resolvida. Adoro o teu sentido prático das coisas. Sem complicações. Sem conjecturas ou suposições.
Vou deixar-te enrolar os teus dedos nos meus caracóis do cabelo, como gostas. Vou deixar-te caminhar pelos contornos do meu corpo. As minhas pernas vão-me faltar quando o fizeres. Porque estarás inteiro comigo. Preciso que o mundo se extinga lá fora, só tu vais importar aqui. Vou relaxar os teus ombros, e saborear o teu pescoço. Apagar outros cheiros com o teu. A música pode terminar que nenhum dos dois vai perceber. A chuva pode dissolver a rua, porque lá fora não vai existir nada. Nada mais vai importar. O dia a seguir não existe. Ninguém vai estar cá. Porque amanhã será o dia é teu. E se o dia seguinte, continuar a ser o mesmo dia, não vou fugir. 
Vou deixar que seja este dia até o que vem a seguir o permitir. 

Thursday, March 15, 2012

Vou roubar a tua camisola. Vou tirar-ta, devagarinho. Chegar os meus lábios ao teu ouvido, para que não te retraias. Ainda estou aqui. Vou servir um vinho, acender as velas, abrandar a música. Limitar a luz ao indispensável. Vou desviar os objectos do caminho. Preparar um espaço próprio. Vou roubar essa camisola do teu corpo. Quero vesti-la, senti-la sobre o meu. A desenhar os contornos da minha pele nua. Deixar que o teu cheiro se envolva no meu e que se transforme em algo único. Porque adultera o teu cheiro os meus sentidos. Porque o sinto nas minhas mãos, no meu cabelo, na minha roupa, a qualquer hora do dia. Quero esse cheiro que é teu. Quero fazê-lo meu. Esse cheiro que te denuncia quando chegas, aquele que fica quando vais.


Quero o sabor que os meus lábios me pedem e contra o qual a minha razão combate. Vou deixar a razão. Vou largar esta cautela que não sou eu, nem o que faço. Não quero pensar, obriga-me a deixar de fazê-lo.  Faz-me sentir. Consome-me em ti. Rouba-me, captura-me, levanta-me do chão. Faz-me voar. Sem decoros. Sem considerações, sem conjecturas. Mostra-me um sítio teu. Guia o meu caminho. Ilumina o meu sorriso, incendeia os teus olhos com os meus. Despe a minha pele. Rasga-a. Chega onde queres chegar. Respira o meu oxigénio, bebe a minha água, e mata a minha sede da tua boca. Não quero essa delicadeza que me ofende. Agarra-me com duas mãos, com dois braços, com todo o teu corpo.


Se for menos do que isto, devolvo-te a tua camisola.
Ridículo é chegar à mesma conclusão vezes seguidas sem ter feito nada de diferente no processo. Shame on me.

Qual o objectivo de me preocupar com pessoas para as quais eu sou indiferente? Se eu deixar de aparecer, ninguém procura saber de mim.
A única conclusão que chego é que são todos egoístas. Culpa minha que procurei sempre dar oportunidades e ponderar as minhas decisões no valor que atribuía às pessoas. Estar lá incondicionalmente para o que vier.  Disponível para entender, ouvir, aceitar, perdoar, sorrir, abraçar. Disponível para amar, tudo e todos como tenho o péssimo hábito de fazer. "Oh minha querida, não vês que ninguém te reconhece? Que estás nesse processo sozinha? Valoriza-te!"
Obrigada, F. Tens toda a razão.


Chega! Não estou para ninguém. Hoje não amo ninguém.
Vou abrir o meu peito para outros lados.

De repente, sai-se de si e olha-se de fora e o que se vê é ridículo. Fazendo uma perspectiva histórica dos eventos, percebo que sou mais mulher do que pensava. Dou a outra face, mantenho-me lá, preocupada, a querer cuidar, a amparar quedas, a ouvir, a dar conselhos. Disponível para amar.
Qual o sentido disso, nestas circunstâncias?
E por alma de quem é que me aconselharam a fugir e, ainda assim, eu fiquei?

Não. Eu sou mais eu. Sou maior. Eu não sou isto, não sou assim. Chega de dúvidas, incertezas, inconstâncias. Não aceito estar na calha para o que vale e não vale a pena, para o que se sente ou não se sente, para o que se quer ou não se quer. Mas quem é que raio deu o direito de me colocar nessa posição?

Se a dúvida sequer existe, é porque a resposta é óbvia.

A nossa grande diferença é que, seja onde for que eu escolha estar amanhã, hoje vou estar aqui. E se amanhã, continuar a ser hoje, não há razão para abdicar das emoções que este dia traz. Pelo menos, era o que eu pensava ontem.


Chega.
I'm done. 

Vou abrir o coração para outros lados.


Wednesday, March 14, 2012

Perdoa-me. Mas não posso ficar aqui. Não sempre. Não da forma volátil que tu achas que és. Mais uma vez digo, sou capaz de o ser ainda mais do que tu. Com uma grande diferença. Seja onde for que eu escolha estar amanhã, hoje vou estar aqui. E se amanhã, continuar a ser hoje, não há razão para abdicar das emoções que este dia traz.

Idiota. Não sabes a sorte que tiveste. O que eu te ofereci. Alguns gostariam de estar no teu lugar, outros têm ciúmes, apesar de não o assumirem. Dei-te tudo, agarrado a nada. Imbecil. Deitaste fora. Sem sequer usufruir.

Eu sei que sou exigente. E a inércia para mim é um balde de água fria, faz-me virar a cabeça para outro lado, baixar os braços, acreditar que não vale a pena, que não estou a ter aquilo que pensava. E eu corro sempre atrás daquilo que eu quero sentir. Se não me fazes sentir, eu nem sequer começo a andar. Se desistes, eu nem sequer perco um minuto da minha vida a considerá-lo. Está na hora de crescer. Está na hora de agarrar aquilo que se quer, sob a pena de não se ter nada, porque nunca se tentou. Medo de perder. De magoar, de ser magoado. Claro. Mas se isso significa não levantar um cabelo para o ganhar, então decididamente não és tu.
Por alma de quem é que me aconselharam a fugir e, ainda assim, eu fiquei?
Lamento. Mas não és tu.

Monday, March 5, 2012

I'm done

I don't think I trust you anymore.

The way you keep on looking at the door.

I know it's getting harder to resist.
(...)
Do you still need, what you thought you left behind.
Is it all my fault, that we're right back here again.
Can you still see, what you thought you learned to hide.
Will you close your eyes, when it's smarter to pretend.


It's time for me to fly away.

Saturday, March 3, 2012

Fazer as malas

Travel light, dizem. Tenho muita bagagem e transporto-a sempre comigo, para onde quer que vá.
Agora está na altura de decidir. Ir, não ir. Porque ficar. Porque partir. E a última opção parece-me cada vez mais lógica, mais racional. Mudar o paradigma. Acabar de vez com os problemas que fui acumulando. O que empacotar e o que deixar para trás. Levar o mínimo possível, reservar espaço para o que adquirir lá, e preciso de muito espaço. Posso levar algumas imagens, alguns cheiros que me façam regressar ao meu porto seguro quando não o fazer se tornar difícil. E dizer, até um dia. Até ao dia em que sejamos estranhos.

Friday, March 2, 2012

Chega. 
A minha vida vai mudar. Vou deixar tudo para trás. Não vale a pena lutar por tudo, quando tudo não luta por mim.
Hoje sou eu que digo adeus.

Elogios e reencontros

Ontem disseram-me que eu era uma “miúda toda gira e cheia de estilo”. Já há algum tempo que não me dava esse valor. Tinha-me esquecido.
Mas o que interessa é que voltámos a falar. Porque deixámos de o fazer mesmo? A vida tem destas tolices, deixamos que as coisinhas do dia a dia se metam no caminho. E sabe tão bem falar contigo, tens uma perspectiva absurda do mundo e radical da política. Mas que é deliciosa. Adoro ouvir-te, deixas-me sempre com um sorriso nos lábios. Às vezes tenho de libertar gargalhadas ao ler-te, porque as tuas ironias são um doce.
Gosto da forma como me vejo através dos teus olhos. Já passaram anos, vidas, e ainda me sentes de uma maneira única. Sabes quando estou bem e quando não estou bem de todo. Reconheces o meu cheiro, quando eu passo, seja qual for o perfume que estou a usar.
Mas o que queria mesmo dizer era, não vou deixar que nos voltemos a perder.