Quase sem querer, sem intenção ou disposição, os assuntos foram sendo folheados, como páginas de um livro empoeirado que já ninguém pretendia abrir. Os temas foram-se sobrepondo, circundando os que não se queriam tocar, generalizando todas as frases até elas convergirem para o que os dois tanto se esforçaram por evitar. Confesso que tenho os meus métodos.
Sorrisos honestos, olhares incontornáveis, cumplicidades construídas, emoções que se partilharam em forma de palavras, quando chegou a altura de fluirem. E tão bom, tão real, tão sinceras, tão doces, tão íntimas, as conversas que não são conversas, que são murmúrios, pensamentos em voz alta, receios, dúvidas, ambivalências entre a razão e a emoção, guerras onde não existem vitórias possíveis, coisas que se puseram cá para fora sem crivos, ouvindo, recebendo, abrindo o peito, escolhendo os termos com cautela, para não haver balas perdidas.
E vi-te como pensei não voltar a ver-te, eras tu, estavas lá, eram os teus olhos, a tua voz, as covinhas do sorriso no rosto, os teus gestos, com todas as cores que tens, corpo e alma, sem ter que ir a outro lado, cabeça num único lugar, ali comigo, dando-te as is, completo, desconstruindo-te, dando-me as ferramentas para eu te dissecar, percebeste e deixaste-me fazê-lo, eu precisava conhecer esse bocado teu que enclausuraste e do qual deitaste fora a chave. Entendo agora, e dói-me o peito ao imaginá-lo, a decepção, o gelo que foi teres-te enganado, teres sentido que jogaste amor fora. E agora não o podes ir buscar. Ou não queres. Porque dói, e ninguém quer doer ou fazer doer.
Gostava que tivesses uma pequena ideia do quanto essa partilha me emocionou. Amei-te nesses minutos, horas, dias, anos que essa conversa durou. Porque vi tudo. Claramente à minha frente.
Gostava que tivesses uma pequena ideia do quanto essa partilha me emocionou. Amei-te nesses minutos, horas, dias, anos que essa conversa durou. Porque vi tudo. Claramente à minha frente.
Obrigada por isso.
Não vou largar o travão. Ninguém está preparado. A sentença foi ditada.
Saio na próxima paragem.
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