Friday, June 29, 2012

Outono em pleno inverno


Não me cabe a mim apontar os erros de investimento emocional. Nem dizer que acho ridículo alguém se deixar perder ao cúmulo por amor. Não sou eu que devo aconselhar alguém a deitar amor fora, porque eu acho isto ou aquilo em relação à medida em que o outro merece ou não ser amado. Do amor só sabe quem o sente. Só posso escutar e ir atrás de alguém que se atira constantemente para o abismo, com a mala pronto socorros atrás, curar feridas e preparar a pele para as próximas.
Ninguém tem nada a dizer, só porque já não aguenta ouvir os mesmos desastres vezes sem fim.
Porque cabe-nos a nós a correr, cabeça contra parede, vezes e vezes, umas atrás das outras, sangrar até ao osso. Até que um dia, chega o dia, em que quando olhamos o amor já lá não está. A pessoa já não nos move, a voz já não nos assombra, a pele já não nos toca, os olhos já não nos emocionam. Há um dia em que, como uma folha que cai seca e murcha de uma árvore no outono, o amor se desconstrói e se transforma numa conexão subtil e transparente. Há um dia em que deixa de nos perturbar. Cessa de existir.
Um dia, o teu dia, vai chegar.

Monday, June 25, 2012

Eu e outro Eu


Não consigo me conter. Não me consigo esconder. Não consigo mentir. Não consigo fingir indiferença, não quero jogar jogos. Quero ser eu, pela primeira vez, e para sempre, deixem-me ser eu. Não consigo mudar para uma versão mais comercial de mim.
O que são os pesadelos? Quem me assombra nos meus sonhos, quem entra no meu quarto escuro, se deita na minha cama, se encosta à minha almofada, afasta os meus cabelos e me impinge medos olhos adentro? Quem se atreve a interromper o meu sono de princesa, quem macula os lençóis de talco, quem me dá suores frios, palpitações, tremores e gritos?
Tens de desligar, elimina os pensamentos, entorpece o cérebro, desactiva as emoções, põe o coração à cabeceira, e deixa-o lá estar enquanto precisares de dormir.
Não sei desligar partes de mim para o que for. Tenho de me ter em pleno, durante as vinte e quatro horas das minhas actividades diárias. A chorar ou a rir, a ficar ou a partir, a beber ou a respirar, faço-o com cada molécula do meu ser.
Prudência ou medo? Prevenção ou indiferença? Ir com tudo, ir com pouco ou não ir de todo?
Tenho de ir, eu só sei ir, nem que seja para o vazio. Tenho de calar as vozes surdas da minha cabeça que me debitam mensagens subliminares ao minuto, não as posso ouvir, que eu já não sei nada, e engano-me mais do que acreditava. Os meus sentidos estão a perder-se de mim, orientam-me para os sítios errados. Enganam-me, mentem-me e eu, sem esse amparo extra-sensorial, não sei o que pensar, não sei sequer sentir.
Quem és tu e o que queres de mim? Se nem tu sabes, não me faças ficar para descobrir. 




Wednesday, June 20, 2012

A liberdade só é completa quando as consequências não nos afectam. A liberdade é um anti-sentimento, é uma espécie de egoísmo sensorial. Ser livre é uma escolha. Em que se decide dar menos importância às coisas que nos podem vir a limitar. É não pensar e não medir palavras, gestos e atitudes. É dar força ao impulso e negar a consciência da moralidade. É mandar à fava quem tenta racionalizar aquilo que nós somos. É podermo-nos rir na cara de quem acha que pode tirar conclusões do nosso momento de espontaneidade. Ser livre é por um basta ao que nos magoa e a tentarmos tirar qualquer lição das coisas más que nos acontecem. Shit happens, everyday. Sou livre porque acredito nisto e aceito a minha impotência sobre o que isso pode trazer. 
Ser livre é, ainda assim, ir à luta. Saber o que quero e ir atrás disso. 
Ser livre é não ter medo. Medo de amar, medo de sofrer, medo de perder, medo de morrer. O medo faz-nos pequenos e dá-nos à derrota. E eu só dou à derrota aquilo que já não quero. 
Até ver, sou livre.




Monday, June 11, 2012

Ou então, não

E aí, caminhamos inevitavelmente para isto.


What goes around comes around

Saber o que (não) se quer. Aparentemente é tudo o que precisamos para continuarmos a fazer conscientemente as nossas escolhas. 
Penso várias vezes na inutilidade das frases feitas que se colam à vida de toda a gente e à vida de ninguém, porque são bonitas, porque se vestem de um conhecimento individual que facilmente passa por sabedoria para as massas, lições de vida. Sou contra isso tudo. 
No fundo também sei que não quero o que quero, quero o que preciso. Embora aquilo que eu preciso não satisfaça a curto prazo. Enfim, talvez me possa poupar de alguns percalços a meio e longo prazos. Mas eu já deixei de fazer planos a essa distância. 
Se houve alguma coisa que aprendi nos últimos tempos foi que nunca serei capaz de tomar uma decisão que vá contra aquilo que sinto, a não ser quando eu me sentir preparada. Quando eu souber, no meu íntimo, que não consigo mais caminhar em determinada direcção, porque o que eu sinto, ou sentia, foi estragado. É a diferença entre estar damaged e estar broken.. Once love is broken, there's no way to fix it.
Enquanto sentir que os meus sentimentos estão damaged, tenho de continuar a (ir)racionalmente seguir o meu instinto. If nothing, to force it to breake.
Quantas vezes voltámos aos mesmos sítios, quantas vezes mudamos e voltamos a ser as mesmas pessoas, quantas vezes deixámos de nos conhecer e voltámos a ser um do outro, quantas vezes passámos pelo processo de nos conhecermos pela primeira vez? Um dia, há-de ser a última. 
Ainda não vai ser hoje.


Saturday, June 9, 2012

Não sei porque continuo a enganar-me a mim própria, a ignorar os meus instintos. Eu sei, eu sinto, as coisas, ainda e sempre. Quando sinto que não devo ir por determinado caminho, quando o meu corpo me diz que não é para ir, é porque não é para ir. E mesmo assim, teimosa, fui. Ainda bem. Só para constatar que não devia ter ido.
A fugir às tentações, literalmente, a escapar, a escapulir-me quando sei que pode acabar mal. Também o sei fazer, quando estar ou não, não me faz diferença. Não. Não quero mais isto, que isto não chega, que eu quero mais.
Deixem-me o corpo, deixem-me a alma, que o que eu quero não me podem dar. Eu quero eu. Quero dar a quem me pode receber. Uma noite, um minuto, não chega.

Friday, June 8, 2012

Good things come to those who wait

No café do costume, a meio do meu croissant e do café (como é costume) queimado, uma desconhecida sentou-se a meu lado para falar do Óscar. 
"Ele tem 91 anos, mas é um cavalheiro, ainda tem cabeça, continua a escrever artigos para o jornal e a mandar piropos às auxiliares mais jovens. A família dele vive aqui perto, mas não o vão visitar, tiraram-lhe o acesso ao dinheiro e à sua própria casa e ele, coitado, só quer uns trocos para poder continuar a fumar os seus cigarros, tal como fez a vida toda."
Lembrei-me dele, um velhote doce, com um figura imponente. Já uma vez me tinha perguntado que marca eu fumava. Contou-me que agora tinha uma máquina de enrolar, mas que não se ajeitava com aquilo.
Fiz-me solidária para com o Óscar, junto daquela senhora que eu não conhecia. Desejei-lhe bom resto de dia e fui à minha vida.

Mais tarde numa loja, na qual não resisti a entrar para experimentar aquelas sandálias, vi que já havia uma mulher com elas nos pés. Sentei-me ao lado dela e percebi que era uma espécie de uma versão de mim daqui a dez anos. Seca no corpo, caracóis claros a cair-lhe pelo queixo, olhos azuis e de gosto claramente igual ao meu. Vi que trazia uma aliança no dedo. 
"Tenho sempre este problema, para todos os efeitos calço o 38, mas as sandálias pedem-me sempre um número maior, mas como tenho o pé magro, esse número fica-me sempre a escorregar pelo pé." 
Respondi-lhe que tinha o mesmo problema [se é que isto é efectivamente um problema]. Entregou-me as sandálias que eu, repentinamente, deixei de querer. Experimentei já sob o testo da solidariedade e, felizmente, o 38 ficava-me pequeno. Disse-lhe que, assim, desistia dos sapatos e desejei-lhe sorte com o tamanho acima.

Na bomba de gasolina, a funcionária que demorou uns segundos exagerados a atender o meu pedido, justificou-se que estava longe dali [pensei eu, provavelmente a imaginar as férias ao sol], ao que completou que alguém tinha tirado baixa, convenientemente entre um feriado e o fim de semana e que, consequentemente, teve de interromper as férias ad eternum. [good things come to those who wait, pensei] Respondendo-lhe, que desejava que tirasse as férias merecidas, o quanto antes. Sorriu-me.

Depois do almoço, voltei ao café, no qual estava o Óscar, por coincidência. Veio sentar-se a meu lado. Disse-me que eu era uma menina gira e que a minha sorte era ele não ter menos cinquenta anos. 
Quase em simultâneo, um telefonema da chefe. Esse sim, a provar-me que good things come to those who wait.


Wednesday, June 6, 2012

Santos e pecadores

Noite de santos. Dia difícil. 
Vamos sair, fazer qualquer coisa, descontrair.
Vamos.
Petisco puxa cerveja, e esta puxa outra. E o conjunto leva-nos aos sítios de sempre. Sem querer, nem saber como, voam à minha frente copos pequeninos encimados por rodelas de laranja polvilhadas de canela. É para ser cá da malta. Vamos embora. Mais um e outro. Mas não me apetece, a cabeça não está ali. Cheiro a sardinha, a bifana, a erva. Muita gente junta-se, repentinamente à minha volta. Danço uma coreografia para acompanhar, dança o corpo, o coração não, a alma muito menos, e acho que toda a gente repara que, assim, não sei dançar. Acompanho. Faço o meu papel. Distribuo sorrisos aos rapazes que se metem comigo. E mando-os à sua vida. O caos, a confusão, a gritaria, a cerveja a inundar as roupas, a sujar os sapatos, os encontrões, as tentativas de engate. E no meio, sem esperar, uma cara conhecida. Que me reconhece. Que conheci, pela primeira vez, há precisamente um ano. Que estaciona a metros de mim, só para que eu perceba que me está a observar da cabeça aos pés. Gelo. Ardo. Paraliso. Não estava preparada para isto. Ainda não. Mexes comigo. Mexes com todo o meu corpo de modo inexplicável e irracional. De todas as formas más. Que não se quer. Aproximas-te. Sinto o teu cheiro. É igual à memória que tinha apagado de ti. Beijas-me o ombro e levas-me pela mão. Esquivo-me pela multidão e fujo. Mais uma vez. Procuras por mim, e eu corro pelas escadas fora à procura de um taxi que me leve ao meu carro, que nem me lembro já onde deixei. Telefonemas aos quais não atendo. Mensagens às quais não consigo ficar indiferente. Quero voltar a ver-te. Sem fugir.
No caminho para casa, a estrada foge-me das mãos. Bebi demais. Traço linhas rectas onde quase posso jurar que estão curvas e nem me preocupo. Abro o vidro da janela. Deixo a brisa entrar e arrastar o meu cabelo. Fecho os olhos. Na rádio os azeitonas prometem-me levar a América. Mudo o posto, farta de músicas lamechas e promessas no ar. Entre zappings e cigarros, encontro outra que não me apetece ouvir, mas que não consigo mudar.


Oiço a letra. Fecho os olhos e respiro a brisa. Recuso-me a acreditar que esta música é para mim. Desligo o rádio. A voz continua na minha cabeça.

Chego a casa e, nem a propósito, outra mensagem, outra cara familiar que me conheceu há um ano. Desta cara, vêm palavras doces, vêm saudades e carinhos. Vou ver-te novamente. Prometo. 

Saturday, June 2, 2012

schhhh

Porquê o silêncio? [perguntam-me]

Porque há um silêncio que se instala quando fecho a porta à frente do carro que me traz a casa, um silêncio durante todo o caminho da boleia, e outro quando me sento no sofá para escrever. 
Porque há um silêncio nos corredores, à despedida das pessoas que não têm mais lugar ali, o silêncio das ficam, prostradas em frente a um computador, fingindo que esse silêncio não perturba a vontade de ali permanecerem. 
Há um silêncio, nas mensagens de mail ou de sms, mesmo quando trazem informações.
Há um silêncio que nos questiona, quando chega à hora de tomar decisões. 
Um silêncio na cama, quando o sono não vem. Nas paredes onde os quadros solitários nos forçam memórias do que já lá não está. Um silêncio à mesa quando não há apetite. Um silêncio no prato que não nos alimenta.
Um silêncio que impossibilita qualquer aproximação a quem mais estimamos. 

Silêncios que podem durar um minuto ou uma vida. Silêncios que, cruéis e prazerosos, nos colam a consciência às mãos e nos obrigam a fazer dela alguma coisa. Silêncios que nos mantêm o foco onde ele é preciso. 
Só o silêncio nos devolve o que é importante. Só ele nos recorda que o ruído de que nos cercamos até de madrugada não nos preenche. O ruído é bom. Mas apenas o silêncio o consegue explicar.

Silêncio não é tristeza, não é solidão. Pelo contrário. É uma estratégia, uma escolha, uma necessidade. Só em silêncio nos conseguimos escutar a nós próprios. Abrandar, reflectir, reorganizar e avançar com toda a força.

Por isso, e por agora, só por uns instantes, baixem as vozes, desliguem a música, que eu preciso do meu minuto de silêncio.