Wednesday, June 6, 2012

Santos e pecadores

Noite de santos. Dia difícil. 
Vamos sair, fazer qualquer coisa, descontrair.
Vamos.
Petisco puxa cerveja, e esta puxa outra. E o conjunto leva-nos aos sítios de sempre. Sem querer, nem saber como, voam à minha frente copos pequeninos encimados por rodelas de laranja polvilhadas de canela. É para ser cá da malta. Vamos embora. Mais um e outro. Mas não me apetece, a cabeça não está ali. Cheiro a sardinha, a bifana, a erva. Muita gente junta-se, repentinamente à minha volta. Danço uma coreografia para acompanhar, dança o corpo, o coração não, a alma muito menos, e acho que toda a gente repara que, assim, não sei dançar. Acompanho. Faço o meu papel. Distribuo sorrisos aos rapazes que se metem comigo. E mando-os à sua vida. O caos, a confusão, a gritaria, a cerveja a inundar as roupas, a sujar os sapatos, os encontrões, as tentativas de engate. E no meio, sem esperar, uma cara conhecida. Que me reconhece. Que conheci, pela primeira vez, há precisamente um ano. Que estaciona a metros de mim, só para que eu perceba que me está a observar da cabeça aos pés. Gelo. Ardo. Paraliso. Não estava preparada para isto. Ainda não. Mexes comigo. Mexes com todo o meu corpo de modo inexplicável e irracional. De todas as formas más. Que não se quer. Aproximas-te. Sinto o teu cheiro. É igual à memória que tinha apagado de ti. Beijas-me o ombro e levas-me pela mão. Esquivo-me pela multidão e fujo. Mais uma vez. Procuras por mim, e eu corro pelas escadas fora à procura de um taxi que me leve ao meu carro, que nem me lembro já onde deixei. Telefonemas aos quais não atendo. Mensagens às quais não consigo ficar indiferente. Quero voltar a ver-te. Sem fugir.
No caminho para casa, a estrada foge-me das mãos. Bebi demais. Traço linhas rectas onde quase posso jurar que estão curvas e nem me preocupo. Abro o vidro da janela. Deixo a brisa entrar e arrastar o meu cabelo. Fecho os olhos. Na rádio os azeitonas prometem-me levar a América. Mudo o posto, farta de músicas lamechas e promessas no ar. Entre zappings e cigarros, encontro outra que não me apetece ouvir, mas que não consigo mudar.


Oiço a letra. Fecho os olhos e respiro a brisa. Recuso-me a acreditar que esta música é para mim. Desligo o rádio. A voz continua na minha cabeça.

Chego a casa e, nem a propósito, outra mensagem, outra cara familiar que me conheceu há um ano. Desta cara, vêm palavras doces, vêm saudades e carinhos. Vou ver-te novamente. Prometo. 

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