No café do costume, a meio do meu croissant e do café (como é costume) queimado, uma desconhecida sentou-se a meu lado para falar do Óscar.
"Ele tem 91 anos, mas é um cavalheiro, ainda tem cabeça, continua a escrever artigos para o jornal e a mandar piropos às auxiliares mais jovens. A família dele vive aqui perto, mas não o vão visitar, tiraram-lhe o acesso ao dinheiro e à sua própria casa e ele, coitado, só quer uns trocos para poder continuar a fumar os seus cigarros, tal como fez a vida toda."
Lembrei-me dele, um velhote doce, com um figura imponente. Já uma vez me tinha perguntado que marca eu fumava. Contou-me que agora tinha uma máquina de enrolar, mas que não se ajeitava com aquilo.
Fiz-me solidária para com o Óscar, junto daquela senhora que eu não conhecia. Desejei-lhe bom resto de dia e fui à minha vida.
Mais tarde numa loja, na qual não resisti a entrar para experimentar aquelas sandálias, vi que já havia uma mulher com elas nos pés. Sentei-me ao lado dela e percebi que era uma espécie de uma versão de mim daqui a dez anos. Seca no corpo, caracóis claros a cair-lhe pelo queixo, olhos azuis e de gosto claramente igual ao meu. Vi que trazia uma aliança no dedo.
"Tenho sempre este problema, para todos os efeitos calço o 38, mas as sandálias pedem-me sempre um número maior, mas como tenho o pé magro, esse número fica-me sempre a escorregar pelo pé."
Respondi-lhe que tinha o mesmo problema [se é que isto é efectivamente um problema]. Entregou-me as sandálias que eu, repentinamente, deixei de querer. Experimentei já sob o testo da solidariedade e, felizmente, o 38 ficava-me pequeno. Disse-lhe que, assim, desistia dos sapatos e desejei-lhe sorte com o tamanho acima.
Na bomba de gasolina, a funcionária que demorou uns segundos exagerados a atender o meu pedido, justificou-se que estava longe dali [pensei eu, provavelmente a imaginar as férias ao sol], ao que completou que alguém tinha tirado baixa, convenientemente entre um feriado e o fim de semana e que, consequentemente, teve de interromper as férias ad eternum. [good things come to those who wait, pensei] Respondendo-lhe, que desejava que tirasse as férias merecidas, o quanto antes. Sorriu-me.
Depois do almoço, voltei ao café, no qual estava o Óscar, por coincidência. Veio sentar-se a meu lado. Disse-me que eu era uma menina gira e que a minha sorte era ele não ter menos cinquenta anos.
Quase em simultâneo, um telefonema da chefe. Esse sim, a provar-me que good things come to those who wait.
Aprazível narração!
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