Friday, August 31, 2012

just another sunny day

A areia estava tórrida, o mar gelado. Havia menos toalhas estendidas, menos crianças no seus rodopios. Eu tinha areia desocupada à minha volta e isso deixou-me com uma sensação de conforto.

Ele corria a praia de ponta a ponta na pior hora do dia possível, o sol estava a pique e não poupava nada nem ninguém. Podia ver uma gota de suor escorregando pela sua testa. A pele era naturalmente morena, ainda mais curtida pelo trabalho ao sol. Timidamente, perguntava, por quem ia passando, se estavam interessados em pulseiras e fios de missangas, óculos de sol e túnicas coloridas. Ninguém lhe passava cartão. Estranhamente, continuava a sorrir e agradecia a resposta. À segunda vez que o vi, uma hora após a primeira, estacou, virado para o mar. Dirigiu-se para perto de um chapéu de sol onde um avô ralhava com as suas netas. Ali, mesmo sem ser convidado, deixou-se cair sobre os joelhos, sentando-se sobre os próprios calcanhares. Estava exausto. Olhava em redor com os olhos brilhantes, demasiado brilhantes, provavelmente do cansaço, da frustração de não conseguir vender uma agulha, das saudades do seu país, dos olhares incomodados à sua volta. A sua camisa estava abotoada até ao fim, as calças usadas, os ténis gastos. Poisou os seus sacos no chão, tirou o boné e coçou a cabeça. Pensei por momentos que ia desistir. Deixar tudo ali mesmo e fugir para uma vida que ele considerasse mais digna. Da sua mochila retirou uma garrafa de água pequena, deu dois tragos grandes e com o restante refrescou a cabeça. Os seus olhos brilhavam ainda mais. Quase pude jurar que tinha visto lágrimas, mas não tive tempo de confirmar. Rapidamente levantou-se e carregou-se das suas bugigangas, seguido caminho. 

Senti o coração apertado. Eu que tinha ido banhar-me no meu momento de lazer. A pensar nas minhas próprias frustrações e dificuldades. Odiei-me nesse instante, por ser tão pequenina e por tomar tanto por adquirido.

Para onde quer que vás, desejo que os ventos da boa sorte te acompanhem sempre.

Wednesday, August 29, 2012

Sweet candy

Tinha feito uma pergunta. Uma só. Uma questão simples, concisa e objectiva. A resposta, pensei, é só de quem a recebe. Uma pergunta inocente. Talvez nem tanto. A pergunta. A que revelará todos os segredos,  a que abrirá todas as portas. De quem queira deixar um estranho entrar.
Quem és tu?
Falou-me na profissão. No que faz. Da sua rotina do dia, dos trâmites das suas noites.
Insisti.
Quem és tu? [Não perguntei o que fazes]
Exemplificou-me os seus gostos. Suplicou-me que, a partir deles, tirasse as minhas conclusões. Na lista entravam caminhadas na praia, de noite ou de manhã, romances históricos, filmes de ficção científica, cozinha mexicana, sempre mas sempre muito picante, a cor vermelha, cerveja gelada e gins tónicos, a brisa do outono, o avançado da noite, combinações tardias e em cima do joelho, e de andar sem sapatos.
Não me satisfez. Seria assim tão difícil responder a uma pergunta?
Quem és tu? [O que gostas é uma coisa, o que tu és, é outra. Podemos todos gostar do mesmo, ou não partilhar nenhuma preferência. Nada disso nos diz quem  nós somos.]
Chegou então a vez da família. Descreveu-me os laços existentes e os já quebrados. A falta de comunicação, as discussões, as reconciliações, as partilhas, as saudades dos que já partiram. 
Mas eu queria ir mais longe e, caramba, a resposta estava ali tão perto. 
Quem és tu? [Ajuda-me. Estamos quase lá.]
O cansaço, o constrangimento, talvez a falta de amor próprio ou de auto-observação, impediu a continuação do seu esforço. 
Diz-me tu. [Eu? Como?] Acompanha-me todos os dias, observa-me de longe, de perto, como quiseres, mas olha para mim. No final de cada dia perdi-te-ei um adjectivo. Os que me puderes dar. [Sorri. Corei. Baixei os olhos e prendi o cabelo atrás da orelha. Já a caminho de casa ocorreu-me "És um doce"].


Monday, August 27, 2012

the art of war

Sim, dá vontade de gritar, sim dá vontade de, por uma vez que seja, dizer o que penso, sem pudores, sem medos, sem entraves. Dá vontade de ser acutilante, de usar as palavras do meu dicionário que almofadei por educação. Sinto-me a sair do salto, a estalar o verniz, a rodar a saia, a arreganhar os dentes, a mostrar as unhas, a soltar as amarras, a deixar a fera fugir e fazer estragos. Alguém, que não eu, que recolha os destroços. 

Mas não o faço.

Levanto a cabeça. Rasgo um sorriso condescendente. Foco-me nos olhos. Intimido e incomodo. Lamento. Vejo os lábios mexerem, balbuciam palavras sem nexo. Percebo o movimento em meu redor, é apenas uma encenação em câmara lenta. O meu corpo está lá, presente. Os meus pensamentos voam longe, noutra direcção, são livres. São impagáveis. Eu não estou cá. Isto é uma coisa, eu sou outra. Não me podem alcançar, não deixo. Eu sou eu, e a mim, não me podem ter. 

A minha casa é o mundo, a espontaneidade, o meu amante. 
"A vitória dos outros reside nos nossos medos."

Eu não tenho medo. Rasguei-o e deitei-o fora. Agora jogamos assim. Morte súbita. 
Are you sure you can handle me?

Sunday, August 26, 2012

wild horses

Cavalos a vapor, que deslizam e voam muito por cima das nossas cabeças. Há um frio no estômago, o frio da imponderabilidade, da fragilidade de se estar desagarrado do que quer que seja que nos prende à terra, com o vento no rosto, fechamos os olhos e perdemos o chão, nada que nos salve, nem nós, muito menos nós. Há um imenso céu rosa e cor de vinho, cheira a algodão doce, esticamos os braços, queremos provar aquelas nuvens que estão mesmo ali e tão longe...
Há uma música que não se ouve, por debaixo do ruído do motor, mas não entendemos a letra, melhor assim. 
Há uma emoção suicida que nos faz querer mais. Um toque na perna. Ligeiro. Que diz, sem qualquer palavra - não tenhas medo, confia em mim - confio, não sei porquê - estás segura - estou, conheço-te, mas não te conheço de todo  -  não te deixo cair - eu sei, os cavaleiros não deixam as princesas cair.


Monday, August 6, 2012

We know better

Já devíamos saber mais do que isso. Já lá vai o tempo em que não éramos crescidos e não sabíamos o que vinha a seguir. Jogávamos as cartas todas sem saber em que jogo tínhamos entrado. As várias estratégias de o ganhar. Tínhamos mau perder. Teimávamos em levar adiante o que tínhamos perdido na primeira mão. Não conhecíamos bem o azedo sabor que fica nos lábios depois da derrota. 

Ninguém vai ao engano. Sabemos os nomes que gostaríamos de colocar nos sítios onde, em seu lugar, deixámos parágrafos. E mudamos de linha, esgotamos a folha, viramos a página e fechamos o livro. 
Tentamos abrir outro. Ler um capítulo sem nos aborrecermos de morte. Levá-lo até ao fim. Tentamos encontrar uma história que nos emocione. Que as personagens se agarrem a nós e não nós as elas, tentando reescrever aquilo que somos, inventando-nos para o que gostaríamos de ser. Somos isto. Os despojos das várias batalhas que perdemos. 

E  alimentamos uma esperança mórbida de que a próxima vez vá ser diferente. 

De peito cheio, de moral a braços, exigimos tudo deste e do outro mundo, já que é para pedir, não sejamos humildes. Sabemos que a vida devolve pouco do que queremos, quase nada do que achamos que nos vem a calhar ou nos assenta bem. 
O tempo é uma merda. Fechamos os olhos dois segundos, enquanto estamos a ser maiores, a não virar as costas, a dar a outra face, a levantar a toalha para nos secar as gotas do esforço na testa, a recolher destroços, a colar em puzzle pedacinhos de amor partido até que, de repente, tão instantaneamente, voltamos a abri-los e.. nada ficou igual. Já muitas coisas passaram. E nós, encarreirados nos carris, nem vimos a paisagem mudar à janela. Ficou para trás. Perdemos o tempo. Deitámos fora a oportunidade.

Ganhamos uma capa, desenvolvemos uma espécie de escudo epidérmico e, assim, vamo-nos desviando do que nos faz doer. Um dia, as lágrimas deixam de cair, o sangue de escorrer, a pele de se rasgar, o sorriso de desenhar. E aí, é quando teremos a plena satisfação de ter atingido o último estado de graça assentimental. 
Se madurecer é auto-privarmo-nos dessa anima que colora a vida, um bocadinho mais a cada dia, então que venha a próxima, e que eu nela, seja girassol.


Saturday, August 4, 2012

És o meu porto seguro, o meu porto abrigo, porto de embarque, porto de atracagem, minha vista para o mar. És a minha nesga de azul no céu nublado, a chuva fresca de verão. 
És os meus olhos quando não quero ver, a voz que se destaca da multidão. A minha flor do deserto. És o mel que envolve a gota de limão. O sal que tempera a minha comida, o sabor que dá gosto à vida. És o luar na noite escura, o remo em mar alto. 
O agridoce que me confunde. O silêncio que me faz pensar. A mão que me acalma. És o amor que não tem forma nem objectivos. És a certeza do que existe e não se vê.
És bocado de mim. Coisa que não se separa. 
És tu para sempre.