Já devíamos saber mais do que isso. Já lá vai o tempo em que não éramos crescidos e não sabíamos o que vinha a seguir. Jogávamos as cartas todas sem saber em que jogo tínhamos entrado. As várias estratégias de o ganhar. Tínhamos mau perder. Teimávamos em levar adiante o que tínhamos perdido na primeira mão. Não conhecíamos bem o azedo sabor que fica nos lábios depois da derrota.
Ninguém vai ao engano. Sabemos os nomes que gostaríamos de colocar nos sítios onde, em seu lugar, deixámos parágrafos. E mudamos de linha, esgotamos a folha, viramos a página e fechamos o livro.
Tentamos abrir outro. Ler um capítulo sem nos aborrecermos de morte. Levá-lo até ao fim. Tentamos encontrar uma história que nos emocione. Que as personagens se agarrem a nós e não nós as elas, tentando reescrever aquilo que somos, inventando-nos para o que gostaríamos de ser. Somos isto. Os despojos das várias batalhas que perdemos.
E alimentamos uma esperança mórbida de que a próxima vez vá ser diferente.
De peito cheio, de moral a braços, exigimos tudo deste e do outro mundo, já que é para pedir, não sejamos humildes. Sabemos que a vida devolve pouco do que queremos, quase nada do que achamos que nos vem a calhar ou nos assenta bem.
O tempo é uma merda. Fechamos os olhos dois segundos, enquanto estamos a ser maiores, a não virar as costas, a dar a outra face, a levantar a toalha para nos secar as gotas do esforço na testa, a recolher destroços, a colar em puzzle pedacinhos de amor partido até que, de repente, tão instantaneamente, voltamos a abri-los e.. nada ficou igual. Já muitas coisas passaram. E nós, encarreirados nos carris, nem vimos a paisagem mudar à janela. Ficou para trás. Perdemos o tempo. Deitámos fora a oportunidade.
Ganhamos uma capa, desenvolvemos uma espécie de escudo epidérmico e, assim, vamo-nos desviando do que nos faz doer. Um dia, as lágrimas deixam de cair, o sangue de escorrer, a pele de se rasgar, o sorriso de desenhar. E aí, é quando teremos a plena satisfação de ter atingido o último estado de graça assentimental.
Se madurecer é auto-privarmo-nos dessa anima que colora a vida, um bocadinho mais a cada dia, então que venha a próxima, e que eu nela, seja girassol.
No comments:
Post a Comment