A areia estava tórrida, o mar gelado. Havia menos toalhas estendidas, menos crianças no seus rodopios. Eu tinha areia desocupada à minha volta e isso deixou-me com uma sensação de conforto.
Ele corria a praia de ponta a ponta na pior hora do dia possível, o sol estava a pique e não poupava nada nem ninguém. Podia ver uma gota de suor escorregando pela sua testa. A pele era naturalmente morena, ainda mais curtida pelo trabalho ao sol. Timidamente, perguntava, por quem ia passando, se estavam interessados em pulseiras e fios de missangas, óculos de sol e túnicas coloridas. Ninguém lhe passava cartão. Estranhamente, continuava a sorrir e agradecia a resposta. À segunda vez que o vi, uma hora após a primeira, estacou, virado para o mar. Dirigiu-se para perto de um chapéu de sol onde um avô ralhava com as suas netas. Ali, mesmo sem ser convidado, deixou-se cair sobre os joelhos, sentando-se sobre os próprios calcanhares. Estava exausto. Olhava em redor com os olhos brilhantes, demasiado brilhantes, provavelmente do cansaço, da frustração de não conseguir vender uma agulha, das saudades do seu país, dos olhares incomodados à sua volta. A sua camisa estava abotoada até ao fim, as calças usadas, os ténis gastos. Poisou os seus sacos no chão, tirou o boné e coçou a cabeça. Pensei por momentos que ia desistir. Deixar tudo ali mesmo e fugir para uma vida que ele considerasse mais digna. Da sua mochila retirou uma garrafa de água pequena, deu dois tragos grandes e com o restante refrescou a cabeça. Os seus olhos brilhavam ainda mais. Quase pude jurar que tinha visto lágrimas, mas não tive tempo de confirmar. Rapidamente levantou-se e carregou-se das suas bugigangas, seguido caminho.
Senti o coração apertado. Eu que tinha ido banhar-me no meu momento de lazer. A pensar nas minhas próprias frustrações e dificuldades. Odiei-me nesse instante, por ser tão pequenina e por tomar tanto por adquirido.
Para onde quer que vás, desejo que os ventos da boa sorte te acompanhem sempre.
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