Friday, December 30, 2011

Mojo

Este termo pode significar várias coisas. Auto-estima, auto-confiança, sex appeal, um lugar de treino, de culto, de dedicação absoluta. Provavelmente será um lugar. Um espaço só teu. Onde só vai quem deixares.
Eu, acredito que só o encontrarás dentro de ti. Quando fechas os olhos, escutas aquela música, e sentes como ela te altera e te dá "anima", seja ela qual for. É esse espaço que ninguém pode violar. Aquilo que faz de ti o que tu és e que jamais poderás corromper. Os teus desejos, os teus sonhos, as tuas vontades. Todos teus. O que te faz vibrar, o que te faz rir, o que te faz chorar, aquilo que descarrega adrenalina no teu sangue e o purifica em dois percursos dentro do teu corpo. O brilho nos teus olhos, a paixão que não consegues esconder.
Despe os preconceitos, liberta as amarras que moralizam as tuas escolhas. Só podes fazer uma escolha de cada vez. Não as pressiones. Deixa-las vir até ti. Vive o que te vai na alma. Ouve o que o teu corpo te diz. Sê fiel a ti próprio, não negligencies o que precisas. Só tu o poderás fazer. O espelho não reflecte a imensidão da beleza da tua imagem. E a tua imagem é apenas uma ínfima parte de ti. Acarinha-te, ama-te. Nesse lugar, só teu. Quando o conseguires, tudo vem até ti. E aquele beijo apaixonado, aquele que nunca mais se consome, aquele que nunca mais toca os teus lábios, que acelera o teu coração, que arrepia a tua pele, que inebria os teus sentidos, aquele que, apesar de demorar escassos segundos (os mesmos que um elevador demora a chegar ao seu destino), perpetua-se por uma vida inteira.. esse beijo, será apenas a mais pequena das tuas sensações.

Tuesday, December 27, 2011

Uma hora

Ela quer escrever uma história sem palavras. Quer saber que existe, ver-se ao espelho através de estranhos. Esse mundo eclipsado, de reflexos fugidios e de bebidas brilhantes, escuta a música, as batidas compassadas com o ritmo do seu peito. Imerge num sítio estranho, onde todos são um, onde todos sorriem pela mesma emoção que a música provoca. E a música provoca. A música cresce dentro de si e imobiliza tudo em seu redor. Só ela existe naquele quadrado de pista. Fecha os olhos e deixa que o corpo a leve. Vários olhares são cruzados, olhares que desafiam, que enganam, que mentem, deliciosos. Mentiras que nascem e morrem em minutos. Uma hora. É o que tem para dar. Abraça a mentira, fá-la sua. Mãos que se tocam, sem querer, e porque querem. O seu pensamento está longe. Brincam com o seu cabelo e ela permite. Sussurram-lhe palavras ao ouvido que nem ouve. Lábios que acariciam o seu pescoço. São outros os lábios que sente. Não consegue dominar a angústia da solidão. E liberta sorrisos, oferece beijos, troca carícias. Tudo que a faça pertencer a um sentimento maior. Mas os sentimentos não se forçam, as sensações ganham vida, o calor aproxima e a luz do dia desperta. Ao longe, alguns amigos. Não a julgam, não o podem fazer. Estão lá. Sempre. Observam-na de longe, querendo protege-la de si própria, mas não o fazendo.
Há uma mão que a aproxima pela cintura e lhe segreda coisas que ela não entende. Sente um arrepio. Um cheiro que já conhece, uma carícia ébria, uma voz morna. Conversa antigas que a perturbam. Inquietantes. Sabe que não pode demorar os seus olhos nos que a fitam, pois não lhos saberá mentir. A curiosidade que não era suposto. A vontade do que faz mal.
As portas abrem-se, as luzes erguem-se, a voz cambaleia. Pousa o copo esgotado no balcão atrás de si. Veste o casaco. Respira fundo. E com o copo deixa a hora que já não lhe pertence.

Thursday, September 22, 2011

Tenho 32 anos. As coisas já não são como eram. Já não tenho a frescura dos "intes" na pele. Vou-me esquecendo das coisas. Vou planificando refeições e limpezas.
Já sou mais serena, consigo controlar o que digo e normalmente não o faço sem pensar duas vezes. Já não construo castelos no ar, nem tenho a  infinita angústia da incerteza do que eu "vou ser". Antes tinha as escolhas todas por fazer. Hoje já fiz algumas. Mas ainda não as suficientes.
Já não tenho urgência de sair à noite de casa, com medo de me desencontrar do meu futuro. Hoje, vou deixando nas mãos do destino. Mesmo não acreditando nele. Já não tenho pressa de crescer. Já não me decepciono tanto. Não tenho expectativas tão altas. Os meus sorrisos são menos genuínos, as minhas gargalhadas mais sentidas. Só choro quando dói cá dentro. E dói-me mais, quando sou impotente. Hoje existem mais injustiças, talvez porque estou mais alerta. Sensibilizo-me mais com as coisas pequeninas, já não acredito em mudar os males do mundo. As minhas amizades são mais raras. Mas a liberdade é maior.
Não preciso fechar-me no meu quarto para ter silêncio. Só de abrir a janela e de olhar as pessoas na rua.
Hoje a solidão já não é uma afirmação de força. Apenas a ausência da alternativa. Fui trocando o vocabulário ao passar do tempo. Os medos por receios, a tristeza por depressão, a paixão por entusiasmo, a perda por escolha, e o amor, pelo que vai surgindo.
Mas ainda assim, a saudade, não se transforma. Não dá lugar ao conformismo. A saudade aperta. A saudade insiste. A saudade crava. A saudade lembra. Que quem amou, não pode ser verdadeiramente livre.

Thursday, September 15, 2011

Em círculos

Revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias. Faço exercícios de inversão, de virar à esquerda onde virei à direita, de seguir em frente onde dei um passo atrás. Desenho, nos meus passos, uma recta tentando contrariar os círculos sucessivos me submergiu a rotina. Tantas alternativas que me quedo, num centro de um cruzamento, nó cego, frente as várias imagens de mim. Mas têm a mesma expressão. A mesma insatisfação no peito, a mesma incapacidade de ficar.
E sempre constante, instantâneos recortes de ti, os olhos, e um gesto meu, que me afasta o cabelo dos meus olhos, tentando afastar os teus, olhos por onde esses lábios sorriem e a tua alma respira. Os movimentos soltos das tuas mãos, desenhando explicações no ar, esboços de fumo que sigo atentamente para fugir dos teus olhos. A tua postura, que me defronta e me prende, a voz lá ao longe, murmurando-me cautelas e dores antigas, que faço escorregar por entre a minha razão, ignorá-la, porque amanhã, indo ou ficando, serei apenas eu. A voz. A minha ao longe. A tua, ao meu ouvido. As pernas tremem, esquecem de como se deslocar, uma, diante de outra, diante outra e outra, e estacionam no mesmo sítio, que o corpo não quer partir. E o silêncio, que não se escreve, não se ouve, não se racionaliza. O silêncio por onde emergem perguntas mudas, interrogações sem retorno, às quais lanço, contra uma parede branca, várias combinações de como, porquê, quem e se, que devolvo a mim e desenredo em várias combinações possíveis. E, mais uma vez, revejo repetidamente, na minha cabeça, as memórias.

Thursday, April 14, 2011

disappointement

são pequeninas as coisas que se podem apreciar enquanto se está só..
ontem, ao afastar-me daquela casa, outrora tão familiar, algo maior se entrepunha entre mim e a distância que dela ia deixando para trás. o afastamento. um isolamento tão pesado que já nem me reconheci a percorrer aquela avenida.
não chorei. não mais. aprendi a viver e a sofrer sem a ajuda de ninguém, pois é nesses mínimos instantes de fraqueza, em que cedemos ao apoio de um ombro caloroso, que aprendemos da pior maneira, que só nos temos a nós próprios. dei muito, tanto, lutei sempre, corri para segurar aquilo que eu queria mas... infelizmente, essa urgência, essa inevitabilidade que só quem ama sente... foi só minha.
a casa tinha um cheiro morno, madeiras antigas, o sol nas paredes brancas, os lençóis de lavado, a roupa estendida, a cozinha intocada. pequenos montes de roupa acabados de chegar ou preparados para fazer uma viagem, não consegui perceber. a minha presença diluiu-se entre as quatros paredes, não a sinto em lugar nenhum.
queria ter-me despedido melhor, queria ter vertido uma lágrima, ter dado o último abraço, mas um sentimento mais forte, de que esse último abraço não era desejado, invadiu o meu peito. subitamente senti-me uma estranha em delito, a trespassar uma propriedade alheia. e tal como tantas vezes assisti fazer, virei as costas e fechei a porta atrás de mim.

Friday, February 25, 2011

Tenho dúvidas sobre o que faço. Acerca das motivações que movem o meu passo. Dou por mim enganada comigo mesma, a acreditar que quero qualquer coisa só porque me é impossível consegui-la. Aflige-me a inevitabilidade e a irreversibilidade dos impossíveis, não os aceito de coração livre. Quero esquecer as consequências e não pensar no que pode vir com o dia seguinte. Forço-me à consciência, quando ela teima em se esconder num recanto das minhas responsabilidades. Cativa num oceano de liberdade. A escolha, o deixar qualquer coisa que não conheço por agarrar. O dia a seguir ao outro e a inconsequência do que não consigo atingir. A paz de espírito, a gratificação. O auto-respeito, a auto-estima. O peito apertado com o que ainda não tenho. Com o que ainda não cresce lá dentro.

Quero abraçar o desconhecido sem medos. Quero pensar na vida sem segundas intenções. Preciso dissipar a nébula que lá antevejo, o meu reflexo distorcido num momento que ainda não chegou. Quero ser uma árvore forte e imponente, deixar cair as folhas, quando delas já não precisar. Quero fazer crescer raízes à terra que chamo casa. Amar quem lá eu encontro. Encontrar quem eu vou amar. Amar quem me faça sorrir. Esquecer-me daquilo que nunca terei. Deixar à sorte o meu destino.

Wednesday, January 19, 2011

a outra parte

dia triste, cinzento, deslavado. dia em que a cor se dissolve na chuva. dia de domingo sorumbático, vazio nas ruas, nos raros carros que monotonamente quebram o silêncio do fim de tarde/princípio de noite, nos cafés fechados, no burburinho mudo, na companhia de ninguém. espreitando a rua, nada me faz sair. nem o sol, nem a sua ideia como palimpsesto das nuvens.
tenho saudades.
a solidão, subtil, vai ocupando o seu lugar na casa, instalando-se, aqui e ali, em objectos que jamais poderão ser relocalizados. só na presença deste vazio, frio, escuro, angustiante, poderiam os objectos ganhar importância.
a cama, grande demais, a mesa, obsoleta, a roupa de banho, ímpar, o guarda-vestidos, desequilibrado, o frigorífico, inútil.
as festas, os jantares, as gargalhadas, as provocações, os innuendos, as seduções, os jogos fúteis, tudo isso me aborrece. não é real, não tem significado.
tenho saudades de ser a outra parte de alguém que é a outra parte de mim.