Tinha feito uma pergunta. Uma só. Uma questão simples, concisa e objectiva. A resposta, pensei, é só de quem a recebe. Uma pergunta inocente. Talvez nem tanto. A pergunta. A que revelará todos os segredos, a que abrirá todas as portas. De quem queira deixar um estranho entrar.
Quem és tu?
Falou-me na profissão. No que faz. Da sua rotina do dia, dos trâmites das suas noites.
Insisti.
Quem és tu? [Não perguntei o que fazes]
Exemplificou-me os seus gostos. Suplicou-me que, a partir deles, tirasse as minhas conclusões. Na lista entravam caminhadas na praia, de noite ou de manhã, romances históricos, filmes de ficção científica, cozinha mexicana, sempre mas sempre muito picante, a cor vermelha, cerveja gelada e gins tónicos, a brisa do outono, o avançado da noite, combinações tardias e em cima do joelho, e de andar sem sapatos.
Não me satisfez. Seria assim tão difícil responder a uma pergunta?
Quem és tu? [O que gostas é uma coisa, o que tu és, é outra. Podemos todos gostar do mesmo, ou não partilhar nenhuma preferência. Nada disso nos diz quem nós somos.]
Chegou então a vez da família. Descreveu-me os laços existentes e os já quebrados. A falta de comunicação, as discussões, as reconciliações, as partilhas, as saudades dos que já partiram.
Mas eu queria ir mais longe e, caramba, a resposta estava ali tão perto.
Quem és tu? [Ajuda-me. Estamos quase lá.]
O cansaço, o constrangimento, talvez a falta de amor próprio ou de auto-observação, impediu a continuação do seu esforço.
Diz-me tu. [Eu? Como?] Acompanha-me todos os dias, observa-me de longe, de perto, como quiseres, mas olha para mim. No final de cada dia perdi-te-ei um adjectivo. Os que me puderes dar. [Sorri. Corei. Baixei os olhos e prendi o cabelo atrás da orelha. Já a caminho de casa ocorreu-me "És um doce"].
"Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
ReplyDeleteOu se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?
Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?
As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga
De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga
Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?
Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?"
Jorge Palma
A ouvir...
Perfeito! Obrigada por partilhares.
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