Friday, December 28, 2012

Ode to my skin

E, para já, uma pergunta. Como sobrevivíamos antes, como testemunhávamos a clamada felicidade?

Hoje já não é possível. Tudo está mais à mão. Tudo, aparentemente, tão perto.
Um toque virtual de emoção. É tudo quanto basta para nos altear o espírito. Um carinho à distância, uma intenção electrónica de beijo, uma imagem numa praça pública, um comentário para mostrarmos que seguimos atentos àquela e a outras vidas. Procuramos ali respostas a perguntas que nunca saíram da algibeira, mas ainda sim, colhemos conclusões. E os afectos vão-nos deslizando pela pele, essa casca impermeável, vão-nos atingindo mesmo mesmo mesmo ao lado. Não queremos, não podemos, não há tempo, não há pachorra. Ninguém tem compromisso de sobra.
Um alerta num telemóvel que anuncia uma cifra de alguma coisa que só entendemos à superfície, agradecemos e respondemos na mesma letra sem significado. Porque tudo pode ser um pronúncio de um dia que virá a seguir ao outro, e depois a outro, onde aí sim, pode ser juntada uma voz, um rosto. Um carinho real. E nesta viagem entramos e cedemos porque, caso contrário, ficaríamos à deriva na maré. "A ver a vida passar". 
Dispam-nos a pele, apaguem-nos a cor, extraiam-nos a língua, capturem-nos o cheiro, desliguem todos os sons, transformá-mo-los obsoletos. 
Não se queixem da solidão, trouxe-mo-la a nós.
Desde que tenhamos os nossos gadgets estaremos juntos no deserto.
Parece que afinal nós não fazemos falta porque a nossa vida acontece-se a si própria. E o nosso único poder vai sendo moderar a forma como ela aparece aos outros. 


Foi isto que imaginámos para nós?

Sunday, December 23, 2012

Chego a casa, com mais um dia de trabalho no corpo, mais um dia que era para ter sido meu e já a pensar no que vem a seguir, que também vou deixar cair. Deixo cair o casaco em qualquer canto na expectativa de que ele encontre o seu caminho para o sítio certo, que eu já nem para isso estou. Mergulhar no trabalho, todos os dias, ininterruptamente, e não sentir com isso nenhuma espécie de ressentimento é talvez preocupante. Estou bem [cansada], forte [sem força nas pernas], animada [imune às emoções]. É antes de mais um refúgio de tudo aquilo que está lá fora, e para onde não quero ir. Se me concentrar, se me esforçar muito, se trabalhar bem nesse sentido, vou abolir todas as inconvenientes trapalhadas das coisas da alma e do coração que só servem para plantar sarilhos. Não sei se quero mais disso. Sei, não quero. 
Deixo-me levar por coisas pequeninas que me apanham desprevenida e para as quais, portanto, não tenho guarda. Essas que me elevam o espírito e me fazem gente outra vez e somente naqueles instantes. Mas o meu cinismo, esse, não arreda pé. Na última vez fiz questão de disparar para os passarinhos, e apagar as estrelinhas, desligar a música, furar os coraçõezinhos e toda essa palhaçada que apareciam a voar de todos os lados. 
Obrigo-me todos os dias a ter os pés na terra. E quando a vontade distrai, a saudade aperta e o desejo tenta, belisco o meu braço, mordo o lábio, puxo os cabelos, prendo-me à cadeira, elimino as comunicações, faço o pino de cabeça e tudo o mais que for preciso para contrariar a minha impulsividade, já não tenho tenho  lugar para ela. 

Thursday, December 13, 2012

One day

Ali e agora tudo parece muito (demasiado) próximo. Ela espreita sem qualquer direito por entre janelas entreabertas a vidas privadas. Não pode ser. Agora é real. 
E retrai-se num instinto reptiliano. 
Há que encontrar realidades que não ofendam, carinhos que não machuquem, acções que não destruam. Não há direito. Tudo o que vem depois disso é que terá de estar errado.
Tem de correr espontâneo o livre arbítrio do desejo, ele não pode ser feio ou inoportuno. Têm de se inventar racionalidades e pragmatismos que, no dia a dia, os proíbam de viajar em conjecturas.
Apenas querem ser amados. Querem ser acarinhados e admirados, compreendidos e observados como realmente são, belos, puros, livres. Querem essa beleza por outros olhos. 
Se o amor os cega para o mundo, então porquê é que um dia, um dia tão vulgar como outro qualquer, lhes clareia a visão para tudo o que os rodeia? E o que distingue  aquilo que querem, daquilo sem a qual não podem passar? Para ela, só pode ser a última. Mas a última não cabe neste mundo de obrigações, deveres, regras e horários, porque as coisas têm de dar jeito, ser práticas e ficar em caminho. Tão inconveniente é a paixão que a agendam para um dia mais livre.

Um dia essa paixão chega e eles estão preparados.

Um dia, não terão escolha. 

Sunday, December 9, 2012

uncalled for dream

Eu descalça, pés despidos sobre a areia gelada da praia. O meu casaco e o dele. A minha barriga gigante. Os movimentos impossíveis ao compasso do peso que o bebé interpunha entre cada passo e o seguinte que dava. Mão entrelaçada na dele. As ondas a rebentar logo ali e o som a chegar-nos tão atrasado. A mão firme e morna do pai sobre a minha barriga. Agachado à minha frente, sorria - o seu sorriso tímido e ligeiramente nervoso - e conversava com ele como se pudesse ver o seu rosto a sorrir-lhe. A cada quarto de hora perguntava-me se nós estávamos bem, aconchegando o casaco dele melhor sobre os meus ombros - mal me mexia com esse e o outro peso – massajando-me as costas e pescoço. E eu imensa (mente feliz), imaginava-o segurando-o nos seus braços. Emocionado, tonto, fora de si - já sabia que ia ser eu a má da fita, a impor regras e a ditar castigos, não me importava, deixá-lo-ia ser o herói, o amigo baril, aquele que contaria uma ou duas histórias para ensinar uma lição - olhar-me-ia sempre, e depois daquele tempo todo, com admiração e orgulho. Sei que o pai o iria adormecer nos seus braços apesar da minha insistência para ele aprender a fazê-lo sozinho. Sei que lhe daria doces às minhas escondidas quando ele não terminasse o jantar. Sei que ficariam os dois de castigo, porque o mais velho não deixaria o retrato de si passar por isso sozinho. Sei que iríamos divergir na alimentação e nas horas de deitar. E que em lugar das músicas infantis que eu escolhesse, iria acalmá-lo com as clássicas baladas dos anos 90. Sei que iria estimular as aventuras ao miúdo, mesmo que eu ficasse para morrer. E que era ele que iria ficar calmo nas quedas e incidentes, quando as minhas mãos não parassem de tremer. 

Mas sei que não iria resistir ao sorriso - tímido - do pai, ao seu aconchego. Que iria estar segura de acertarmos nas decisões mais importantes, nos valores de fundo. No respeito e no amor. Nas coisinhas pequeninas que nos teriam feito apaixonar um pelo outro. 


O subconsciente prega-nos partidas injustas. E apesar de tudo isto ser um panorama remoto, e às vezes um nadinha improvável, não estou preparada para ser menos do que isto. Gosto de me convencer, ingenuamente, que um dia me vou chegar a cansar de ter um projecto que realmente importe. 

Um dia, talvez (e apesar do que me possam dizer), vou ser a última e a primeira mulher, respectivamente, na vida de alguém.

Tuesday, December 4, 2012

Vamos assumir que as coisas são mesmo assim. Que devemos desistir. Que temos de desconstruir, tijolo a tijolo, a casa que já tinha alguma dimensão. Vamos deitar isto fora. Vamos matar as pessoas. Vou acreditar nas palavras que não se podem desdizer. Que não tenho o que é preciso para ser a última.

Lamento. As coisas boas - tão boas - não sobrevivem a isto. As palavras fazem mossa. Hoje é o dia em que eu decido não me por a jeito para estas amolgadelas. Fiz o luto.

E fecho a porta.