Chego a casa, com mais um dia de trabalho no corpo, mais um dia que era para ter sido meu e já a pensar no que vem a seguir, que também vou deixar cair. Deixo cair o casaco em qualquer canto na expectativa de que ele encontre o seu caminho para o sítio certo, que eu já nem para isso estou. Mergulhar no trabalho, todos os dias, ininterruptamente, e não sentir com isso nenhuma espécie de ressentimento é talvez preocupante. Estou bem [cansada], forte [sem força nas pernas], animada [imune às emoções]. É antes de mais um refúgio de tudo aquilo que está lá fora, e para onde não quero ir. Se me concentrar, se me esforçar muito, se trabalhar bem nesse sentido, vou abolir todas as inconvenientes trapalhadas das coisas da alma e do coração que só servem para plantar sarilhos. Não sei se quero mais disso. Sei, não quero.
Deixo-me levar por coisas pequeninas que me apanham desprevenida e para as quais, portanto, não tenho guarda. Essas que me elevam o espírito e me fazem gente outra vez e somente naqueles instantes. Mas o meu cinismo, esse, não arreda pé. Na última vez fiz questão de disparar para os passarinhos, e apagar as estrelinhas, desligar a música, furar os coraçõezinhos e toda essa palhaçada que apareciam a voar de todos os lados.
Obrigo-me todos os dias a ter os pés na terra. E quando a vontade distrai, a saudade aperta e o desejo tenta, belisco o meu braço, mordo o lábio, puxo os cabelos, prendo-me à cadeira, elimino as comunicações, faço o pino de cabeça e tudo o mais que for preciso para contrariar a minha impulsividade, já não tenho tenho lugar para ela.
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