E, para já, uma pergunta. Como sobrevivíamos antes, como testemunhávamos a clamada felicidade?
Hoje já não é possível. Tudo está mais à mão. Tudo, aparentemente, tão perto.
Um toque virtual de emoção. É tudo quanto basta para nos altear o espírito. Um carinho à distância, uma intenção electrónica de beijo, uma imagem numa praça pública, um comentário para mostrarmos que seguimos atentos àquela e a outras vidas. Procuramos ali respostas a perguntas que nunca saíram da algibeira, mas ainda sim, colhemos conclusões. E os afectos vão-nos deslizando pela pele, essa casca impermeável, vão-nos atingindo mesmo mesmo mesmo ao lado. Não queremos, não podemos, não há tempo, não há pachorra. Ninguém tem compromisso de sobra.
Um alerta num telemóvel que anuncia uma cifra de alguma coisa que só entendemos à superfície, agradecemos e respondemos na mesma letra sem significado. Porque tudo pode ser um pronúncio de um dia que virá a seguir ao outro, e depois a outro, onde aí sim, pode ser juntada uma voz, um rosto. Um carinho real. E nesta viagem entramos e cedemos porque, caso contrário, ficaríamos à deriva na maré. "A ver a vida passar".
Dispam-nos a pele, apaguem-nos a cor, extraiam-nos a língua, capturem-nos o cheiro, desliguem todos os sons, transformá-mo-los obsoletos.
Não se queixem da solidão, trouxe-mo-la a nós.
Desde que tenhamos os nossos gadgets estaremos juntos no deserto.
Parece que afinal nós não fazemos falta porque a nossa vida acontece-se a si própria. E o nosso único poder vai sendo moderar a forma como ela aparece aos outros.
Foi isto que imaginámos para nós?
Gostei muito deste texto e aquilo que nele invocas.
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