Eu descalça, pés despidos sobre a areia gelada da praia. O meu casaco e o dele. A minha barriga gigante. Os movimentos impossíveis ao compasso do peso que o bebé interpunha entre cada passo e o seguinte que dava. Mão entrelaçada na dele. As ondas a rebentar logo ali e o som a chegar-nos tão atrasado. A mão firme e morna do pai sobre a minha barriga. Agachado à minha frente, sorria - o seu sorriso tímido e ligeiramente nervoso - e conversava com ele como se pudesse ver o seu rosto a sorrir-lhe. A cada quarto de hora perguntava-me se nós estávamos bem, aconchegando o casaco dele melhor sobre os meus ombros - mal me mexia com esse e o outro peso – massajando-me as costas e pescoço. E eu imensa (mente feliz), imaginava-o segurando-o nos seus braços. Emocionado, tonto, fora de si - já sabia que ia ser eu a má da fita, a impor regras e a ditar castigos, não me importava, deixá-lo-ia ser o herói, o amigo baril, aquele que contaria uma ou duas histórias para ensinar uma lição - olhar-me-ia sempre, e depois daquele tempo todo, com admiração e orgulho. Sei que o pai o iria adormecer nos seus braços apesar da minha insistência para ele aprender a fazê-lo sozinho. Sei que lhe daria doces às minhas escondidas quando ele não terminasse o jantar. Sei que ficariam os dois de castigo, porque o mais velho não deixaria o retrato de si passar por isso sozinho. Sei que iríamos divergir na alimentação e nas horas de deitar. E que em lugar das músicas infantis que eu escolhesse, iria acalmá-lo com as clássicas baladas dos anos 90. Sei que iria estimular as aventuras ao miúdo, mesmo que eu ficasse para morrer. E que era ele que iria ficar calmo nas quedas e incidentes, quando as minhas mãos não parassem de tremer.
Mas sei que não iria resistir ao sorriso - tímido - do pai, ao seu aconchego. Que iria estar segura de acertarmos nas decisões mais importantes, nos valores de fundo. No respeito e no amor. Nas coisinhas pequeninas que nos teriam feito apaixonar um pelo outro.
O subconsciente prega-nos partidas injustas. E apesar de tudo isto ser um panorama remoto, e às vezes um nadinha improvável, não estou preparada para ser menos do que isto. Gosto de me convencer, ingenuamente, que um dia me vou chegar a cansar de ter um projecto que realmente importe.
Um dia, talvez (e apesar do que me possam dizer), vou ser a última e a primeira mulher, respectivamente, na vida de alguém.
Um doce de um texto acompanhado ao som de uma música fenomenal. Sabes, faz como eu, mesmo que demore, acredita sempre, pois a partilha que tão bem escreves é o elevar a vida do Homem aos píncaros.
ReplyDelete:) obrigada, nem imaginas o importante que é ouvir essas coisas :)
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