Thursday, February 21, 2008

Leónidas

Como falar de uma música feita película que faz parte nós mesmo antes de a conhecermos? Como dissecar um poema feito imagem de cujas cores nos faz sangue, suor e saliva? Como ser indiferente ao gesto paralisado inflamando-nos de paixão pele acima? Como não sermos cegados pela luz ocular, cintilando no breu profundo, que nos segue e desvenda na intimidade de cada pensamento? Como ignorar o efeito da beleza esculpida nos corpos? Como não tremer ao som do grito de guerra, que mais grita amor, paixão, desejo? Honra e respeito nos corpos consumidos e consumados, extintos, lado a lado, verde profundo nos olhos, e olhos não mentem, não mentem, um sobejo de palidez no rosto.

Como regressar à realidade depois deste filme?

Monday, February 18, 2008

Homem Invisível

O homem invisível encosta-se nos antípodas da porta de entrada. Não perturba ninguém. Sente-se um trapo, um saco de pregas e desenhos fincados na expressão que ninguém quer ver. É o espelho da inevitabilidade. Acha que viveu longa e intensamente e que, por isso, deve a sua excedência à morte.

Ele já não sabe bem sorrir, de há tanto tempo lhe faltarem desculpas para o fazer. Olha para si, e depois em redor, e acha-se um borrão de tinta numa página virgem, branca. Não quer estar no caminho, receia que o enviem para o outro mundo se incomodar alguém. Abre passagem até aos fantasmas. Quando alguém lhe ameaça uma cordialidade, ergue, timidamente, os olhos, ilumina-se-lhe o rosto. E depois, quando tudo não passa de um equívoco, porque estava na linha do olhar desse alguém, envergonhado, pende a cabeça para o chão, onde crê estar o seu destino. Esconde a mão, fazendo um exercício de equilíbrio sem rede, porque a mão conta histórias. E, histórias, já ninguém quer ouvir.
O seu destino chega e ele sai. Devagar. Senta-se num banco de jardim a observar as pessoas. E todo o tempo do mundo se rende a seus pés porque, o homem invisível, deve a sua excedência à vida.



Original in Flower On Water em Outubro 18, 2006

Tempo predador

O dia levanta-se e eu, em jeito de preguiça, levanto-me atrás dele para o agarrar. O sino já toca lá fora, diz que já são horas, já são horas e quinze, horas e meia, horas e quarenta e cinco, mais horas do que gostaria e, apressada, vou a correr que já não tenho tempo. O sol elevado estreita-se na parede branca do quarto, nunca chega à janela da cozinha e tenho de tomar o meu café na penumbra que não há tempo de ser diferente. O banho fugido, as roupas de ontem, que outras custam a escolher, o cabelo "as is", a cara mais vincada que ontem, que o tempo passa, corre, e os traços desbotam-se na pele. Desço as escadas e desço as escadas e desço as escadas, que as escadas que me levam da minha casa são infinitas, olhos no chão, às vezes em frente, mas vem alguém e eles tornam-me a cair, que só tenho um propósito, um único propósito, que é mais um dia, e não é esse de olhar em frente. Passo o cartão, abre-me a porta, corro escadas a baixo, cuidado para não escorregar, de dois em dois degraus que o metro já lá está, e as pessoas invadem a sua entrada, travam a minha passagem, colocam-se na minha frente, que elas não me vêem e eu as não vejo, olhos no chão, o apito grita agudo, as portas fecham-me do lado de fora, as pessoas de dentro olham-me pelo vidro e não me vêem, porque os meus olhos estão colados ao chão. Sento-me no banco corrido, o mais longe que puder do que já lá estava, não quero incomodar, não quero que me vejam, olhos no chão, joelhos ao peito, à espera de outra oportunidade.

Original in Flower on Water em 26 de Janeiro de 2007

Saturday, February 16, 2008

sonho


Não te quero esquecer, não quero que desapareças como todos os sonhos, quero guardar-te, fixar-te, que a vida não tem isto, quero puxar-te para este lado, vou imortalizar a tua imagem.

Raiado de sangue, demónio e deus. Foi assim que apareceste.

À minha passagem, o teu rosto encarou-me, os teus olhos seguiram os meus. Olhos negros plantados nessa tua expressão saliente, os ombros varridos pelo negro do teu cabelo. Corpo extenuado da tua missão, sobretudo negro sobre os ossos. Os teus olhos acertaram-me, diziam, eu sei quem tu és (tu sabes quem eu sou), sabes o que eu faço, o que eu fiz (eu sei de onde vens), cumpri-te a minha promessa, salvei o mundo, olha como todos sobreviveram, fui eu (prometi-te), agora estou aqui, chamo-te para mim (tu chamas-me para ti), vem (vou até ti), quero dedicar-me ao teu corpo (deixas?), a cada centímetro da tua pele, quero derreter nos teus lábios (desenho-os nos meus), quero a tua alma (que a reconheço na minha), quero-te chegar tão próximo que sejas eu (eu sou tu), já acabou tudo, agora somos nós (também sentes o peito explodir?), estes olhos são teus (estes que te estremecem o corpo), só tu me fazes olhar assim (perderes a força nas pernas), abraça-me (vou apertar-te nos meus braços), vem (eu já estou em ti).

Fica, olhos negros, fica no meu sonho.

Thursday, February 14, 2008

Tudo no mesmo sítio. As conversas exactamente onde as deixámos. O peito gigante onde cabemos todos. E onde ainda há espaço para mais um. Navego nos teu olhos. Abraço a tua dor e desejo carregá-la contigo.

Imagino um fim de dia acobreado onde me abandono ao aconchego do teu colo, fazes-me festas na cabeça e murmuras uma cantilena com que embalas os teu filhos. E eu estou em casa, o sol a despedir-se no meu rosto e o teu indicador a enrolar uma mecha dos meus cabelos, adormeço sob o afago das tuas mãos cansadas e sonho em branco e dourado. Pergunto-me de onde vem essa força que é tua, é de todos os outros que ta pedem, de onde vem, que vigas te sustentam, que flores te abrem o sorriso.

É Outono e há, por todo o lado, uma quietude conspiradora. A brisa sustem-se à minha passagem, o gato vadio fita-me nos olhos (são os teus?), a folha madura imóvel a meio caminho, os carros dissolvem-se na estrada, só as corres se queimam e secam para me falar. O burburinho de folhas esquecidas entre as ramadas nuas respondendo ao vento brando que se fez convidado, sussuram o teu nome (foi um sonho?), o teu nome, o teu nome, diz-me o silêncio que és tu, o teu nome, no teu colo.
Desperto do meu sono, do meu sonho e tu não estás, mas estás, à minha beira enraizada na terra a fazer os corpos respirar. Vejo-te e sinto-me. Tu, és árvore.