O homem invisível encosta-se nos antípodas da porta de entrada. Não perturba ninguém. Sente-se um trapo, um saco de pregas e desenhos fincados na expressão que ninguém quer ver. É o espelho da inevitabilidade. Acha que viveu longa e intensamente e que, por isso, deve a sua excedência à morte. Ele já não sabe bem sorrir, de há tanto tempo lhe faltarem desculpas para o fazer. Olha para si, e depois em redor, e acha-se um borrão de tinta numa página virgem, branca. Não quer estar no caminho, receia que o enviem para o outro mundo se incomodar alguém. Abre passagem até aos fantasmas. Quando alguém lhe ameaça uma cordialidade, ergue, timidamente, os olhos, ilumina-se-lhe o rosto. E depois, quando tudo não passa de um equívoco, porque estava na linha do olhar desse alguém, envergonhado, pende a cabeça para o chão, onde crê estar o seu destino. Esconde a mão, fazendo um exercício de equilíbrio sem rede, porque a mão conta histórias. E, histórias, já ninguém quer ouvir.
O seu destino chega e ele sai. Devagar. Senta-se num banco de jardim a observar as pessoas. E todo o tempo do mundo se rende a seus pés porque, o homem invisível, deve a sua excedência à vida.
Original in Flower On Water em Outubro 18, 2006
É tão duro ser-se invisível... e não é preciso chegar-se a velho ou a mendigo...
ReplyDeleteTexto fantástico... e seja porque motivo for, acho que todos nós já nos sentimos invisíveis...
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