O dia levanta-se e eu, em jeito de preguiça, levanto-me atrás dele para o agarrar. O sino já toca lá fora, diz que já são horas, já são horas e quinze, horas e meia, horas e quarenta e cinco, mais horas do que gostaria e, apressada, vou a correr que já não tenho tempo. O sol elevado estreita-se na parede branca do quarto, nunca chega à janela da cozinha e tenho de tomar o meu café na penumbra que não há tempo de ser diferente. O banho fugido, as roupas de ontem, que outras custam a escolher, o cabelo "as is", a cara mais vincada que ontem, que o tempo passa, corre, e os traços desbotam-se na pele. Desço as escadas e desço as escadas e desço as escadas, que as escadas que me levam da minha casa são infinitas, olhos no chão, às vezes em frente, mas vem alguém e eles tornam-me a cair, que só tenho um propósito, um único propósito, que é mais um dia, e não é esse de olhar em frente. Passo o cartão, abre-me a porta, corro escadas a baixo, cuidado para não escorregar, de dois em dois degraus que o metro já lá está, e as pessoas invadem a sua entrada, travam a minha passagem, colocam-se na minha frente, que elas não me vêem e eu as não vejo, olhos no chão, o apito grita agudo, as portas fecham-me do lado de fora, as pessoas de dentro olham-me pelo vidro e não me vêem, porque os meus olhos estão colados ao chão. Sento-me no banco corrido, o mais longe que puder do que já lá estava, não quero incomodar, não quero que me vejam, olhos no chão, joelhos ao peito, à espera de outra oportunidade.Original in Flower on Water em 26 de Janeiro de 2007
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