Thursday, September 20, 2012

Road to nowhere

Oiço-te enquanto os meus olhos tentam fugir dos teus, procuro um poiso inofensivo onde os esconder, para que eles não me acusem. Ao longe, as palavras em perfeito antagonismo do que eu quero ouvir, palavras (que quero vazias, descabidas) caem em mim como calhaus, como um chuva de sapos, como um balde de água gelada, como um estalo na cara, um puxão de cabelos, um tropeção escadas abaixo, um monumental equívoco, como quiseres. E antes fosse um pontapé no estômago. Antes qualquer hematoma que eu pudesse evitar fazendo gelo. Insistindo. Mas não. Estás convicto e irredutível. Fechaste o peito e repeliste tudo o que ameaça abri-lo. O rosto muda, um sorriso que se alinha em recta, um olhar que se semicerra, glaciar, os gestos indiferentes, um discurso formal, uma postura indiferente. Não me consigo aproximar. Não deixas, não queres. 

Não posso fazer nada, não há sentido para isso. Quem te estragou? Quem foi que deixou esse dorido com gosto amargo na boca? Soubesse eu, dava-lhe uma lição, para aprender a não interferir na felicidade dos outros. Diz-me onde dói, que eu dou um beijo que faz passar. Prometo. 

Não posso fazer nada. Não posso ser mais do que eu. 

E assim sendo, tiro-te o chapéu e desejo-te sorte para o caminho.

Sunday, September 9, 2012

the weather is changing

Bem que senti o tempo a mudar, as nuvens altas a formarem-se, a ganharem peso e consistência, a descerem, a escurecerem, um vento, totalmente fora do contexto, a levantar-se. 
Do nada, um lembrete [malandro, sacana, vil] a indicar-me um aniversário. De uma pessoa que já não está cá. Da minha pessoa preferida. Daquela que me levaram sem pedir licença. Tento, todos os dias, não pensar nele. Na imensidão que ele era e que ainda acredito que seja, onde quer que ele esteja. 

Amigos convidam-me para sair, para a folia, para os copos, mensagens secas a criticarem-me a recusa. 
Festejar o quê? Não iria suportar os sorrisos, as gargalhadas, o mundo a continuar a girar quando.. quando.. ele não está já nele.. Odeio todos os que se atrevem a sorrir nesse dia. 

Tenho saudades tuas, meu querido. Puta da vida, da doença, da injustiça, odeio um Deus que o permite. Uma pergunta que jamais terá resposta (porquê? porquê? porquê?), nem esse conforto a religião nos concede. 

Ao deixar a minha mãe em casa, reparo nos seus olhos brilhantes. Quer que a leve comigo para casa - não quero morrer sozinha, juras que não deixas a mãe morrer sozinha? - e eu não tenho resposta, não tenho coração para isto. Partiu-se nesse instante. Ela nunca me negaria este pedido. Largava tudo e vinha a correr em meu auxílio. A culpa de não lhe poder atender a este favor, vai morar sempre comigo, essa sim. 

Não entendo esta história irónica que todos os dias me troca as voltas.


Saturday, September 1, 2012

hands tied

Mesmo nos dias de sol há tempestades. Há raios e coriscos que não vêm só do céu, mas de absolutamente todas as direcções. O que fazer? Fugir? Abrigarmo-nos o melhor que pudermos e esperar que passe?
Não há previsão possível. A mais ligeira brisa de verão pode desencadear a pior das tormentas. Tão impotente. Tão irrelevante. Tão inútil a minha raiva, as minhas lágrimas, o meu desespero. Nem tenho a quem odiar, não tenho um botão que desligue tudo o que me faz sentir medo. E o meu pior medo é tudo o que não tem a ver comigo. É uma batalha condenada, mas apenas sei que a não posso perder, não posso baixar os braços, não consigo viver com o peso do "e se" na minha consciência.
E tomo como refúgio os meus filmes, as suas histórias patéticas que alguém inventou para me fazer rir ou chorar. E tornei-me tão fácil no riso, dou-o sem pedido ao desbarato. Já as lágrimas, nem por dinheiro. Deixo-as cair só quando me atinge uma emoção tão violenta que todo o meu corpo se revolta e manifesta. E o meu corpo está ainda a milhas do meu controlo. Ainda.
É escusado. Não posso salvar ninguém que não quer ser salvo. Nem a mim mesma. 
A puta da ironia. 
Se eu soubesse que ser crescida era assim, teria ficado para sempre no país das maravilhas. 


Friday, August 31, 2012

just another sunny day

A areia estava tórrida, o mar gelado. Havia menos toalhas estendidas, menos crianças no seus rodopios. Eu tinha areia desocupada à minha volta e isso deixou-me com uma sensação de conforto.

Ele corria a praia de ponta a ponta na pior hora do dia possível, o sol estava a pique e não poupava nada nem ninguém. Podia ver uma gota de suor escorregando pela sua testa. A pele era naturalmente morena, ainda mais curtida pelo trabalho ao sol. Timidamente, perguntava, por quem ia passando, se estavam interessados em pulseiras e fios de missangas, óculos de sol e túnicas coloridas. Ninguém lhe passava cartão. Estranhamente, continuava a sorrir e agradecia a resposta. À segunda vez que o vi, uma hora após a primeira, estacou, virado para o mar. Dirigiu-se para perto de um chapéu de sol onde um avô ralhava com as suas netas. Ali, mesmo sem ser convidado, deixou-se cair sobre os joelhos, sentando-se sobre os próprios calcanhares. Estava exausto. Olhava em redor com os olhos brilhantes, demasiado brilhantes, provavelmente do cansaço, da frustração de não conseguir vender uma agulha, das saudades do seu país, dos olhares incomodados à sua volta. A sua camisa estava abotoada até ao fim, as calças usadas, os ténis gastos. Poisou os seus sacos no chão, tirou o boné e coçou a cabeça. Pensei por momentos que ia desistir. Deixar tudo ali mesmo e fugir para uma vida que ele considerasse mais digna. Da sua mochila retirou uma garrafa de água pequena, deu dois tragos grandes e com o restante refrescou a cabeça. Os seus olhos brilhavam ainda mais. Quase pude jurar que tinha visto lágrimas, mas não tive tempo de confirmar. Rapidamente levantou-se e carregou-se das suas bugigangas, seguido caminho. 

Senti o coração apertado. Eu que tinha ido banhar-me no meu momento de lazer. A pensar nas minhas próprias frustrações e dificuldades. Odiei-me nesse instante, por ser tão pequenina e por tomar tanto por adquirido.

Para onde quer que vás, desejo que os ventos da boa sorte te acompanhem sempre.

Wednesday, August 29, 2012

Sweet candy

Tinha feito uma pergunta. Uma só. Uma questão simples, concisa e objectiva. A resposta, pensei, é só de quem a recebe. Uma pergunta inocente. Talvez nem tanto. A pergunta. A que revelará todos os segredos,  a que abrirá todas as portas. De quem queira deixar um estranho entrar.
Quem és tu?
Falou-me na profissão. No que faz. Da sua rotina do dia, dos trâmites das suas noites.
Insisti.
Quem és tu? [Não perguntei o que fazes]
Exemplificou-me os seus gostos. Suplicou-me que, a partir deles, tirasse as minhas conclusões. Na lista entravam caminhadas na praia, de noite ou de manhã, romances históricos, filmes de ficção científica, cozinha mexicana, sempre mas sempre muito picante, a cor vermelha, cerveja gelada e gins tónicos, a brisa do outono, o avançado da noite, combinações tardias e em cima do joelho, e de andar sem sapatos.
Não me satisfez. Seria assim tão difícil responder a uma pergunta?
Quem és tu? [O que gostas é uma coisa, o que tu és, é outra. Podemos todos gostar do mesmo, ou não partilhar nenhuma preferência. Nada disso nos diz quem  nós somos.]
Chegou então a vez da família. Descreveu-me os laços existentes e os já quebrados. A falta de comunicação, as discussões, as reconciliações, as partilhas, as saudades dos que já partiram. 
Mas eu queria ir mais longe e, caramba, a resposta estava ali tão perto. 
Quem és tu? [Ajuda-me. Estamos quase lá.]
O cansaço, o constrangimento, talvez a falta de amor próprio ou de auto-observação, impediu a continuação do seu esforço. 
Diz-me tu. [Eu? Como?] Acompanha-me todos os dias, observa-me de longe, de perto, como quiseres, mas olha para mim. No final de cada dia perdi-te-ei um adjectivo. Os que me puderes dar. [Sorri. Corei. Baixei os olhos e prendi o cabelo atrás da orelha. Já a caminho de casa ocorreu-me "És um doce"].


Monday, August 27, 2012

the art of war

Sim, dá vontade de gritar, sim dá vontade de, por uma vez que seja, dizer o que penso, sem pudores, sem medos, sem entraves. Dá vontade de ser acutilante, de usar as palavras do meu dicionário que almofadei por educação. Sinto-me a sair do salto, a estalar o verniz, a rodar a saia, a arreganhar os dentes, a mostrar as unhas, a soltar as amarras, a deixar a fera fugir e fazer estragos. Alguém, que não eu, que recolha os destroços. 

Mas não o faço.

Levanto a cabeça. Rasgo um sorriso condescendente. Foco-me nos olhos. Intimido e incomodo. Lamento. Vejo os lábios mexerem, balbuciam palavras sem nexo. Percebo o movimento em meu redor, é apenas uma encenação em câmara lenta. O meu corpo está lá, presente. Os meus pensamentos voam longe, noutra direcção, são livres. São impagáveis. Eu não estou cá. Isto é uma coisa, eu sou outra. Não me podem alcançar, não deixo. Eu sou eu, e a mim, não me podem ter. 

A minha casa é o mundo, a espontaneidade, o meu amante. 
"A vitória dos outros reside nos nossos medos."

Eu não tenho medo. Rasguei-o e deitei-o fora. Agora jogamos assim. Morte súbita. 
Are you sure you can handle me?