Friday, December 28, 2007

Brincadeira de bonecas

Tomar decisões costumava ser mais simples. Adormecer para o lado direito ou para o lado esquerdo de uma cama só minha. Cerrar as cortinas e envolver-me no silêncio da noite ou abrir-me ao ruído da claridade matinal. Optar entre o bolo de chocolate e o pudim de castanhas. Usar pijama ou camisa de noite para dormir. As escolhas só a mim me pertenciam. Costumava seleccionar quem era meu amigo e quem não era. A quem dedicaria eu a minha compreensão. O rapaz calado e discreto por quem me apaixonaria. Aquele que estaria ali, visível a mim e imperceptível a outros olhares. Aquele cujos pensamentos me intrigavam até ao limite da minha especulação. E que delicioso era desconhecer o espírito por detrás daqueles olhos bonitos.

Julgo que até no desgosto de amor conseguia desfrutar uma espécie de prazer. Abatia-me, sofrida, sobre o edredão morno da minha cama de corpo e meio, braços sufocando a almofada contra o rosto salgado em lágrimas, num acto improvisado no esplendor do meu padecimento. Era uma angústia minha e sobre a qual detinha plenos direitos. Era fantástico ser tocada pela magia do amor, ainda que por um amor imaturo, desajeitado e irreflectido. Todos os sinónimos da idade. Mesmo que essa fátua embriaguez me atropelasse como um vagão. Atravessava milhas, à distância de um corredor, onde me quedava no amparo da minha outra metade. Ser acolhida, sem pensar, por um rosto simétrico e seguro, fitar uns olhos desenhados à minha imagem num carinho involuntário situava-me exactamente onde pretendia estar.

Saudades desse carinho, dos seus olhos, meus. Da gargalhada irreprimida. Ver a felicidade genuína, mesmo ali ao lado. E fazer dela, a minha.

Cabelos dourados e cheiro de boneca. Minha amiga irmã. Sinto a tua falta aqui ao meu lado.

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Thursday, December 13, 2007

Segurar o Tempo

Imobilizá-lo naquele preciso minuto com que susteve todos os outros. As memórias, vagas, esbatem-se entre história e desejos. Os nomes dos que conheceu são difusos, parecem já não chamar ninguém. Muitos dos que fundamentavam a sua existência já haviam desaparecido. E ela perguntava-se se já não teria desaparecido também. Já não se reconhecia em nenhum reflexo, a forma do seu rosto tinha já pouco daquilo que a distinguia. Maçãs do rosto salientes, olhos vivos, sorriso alinhado. A pele, antes firme e aveludada, agora desagarra-se do corpo como a vontade de viver. A postura aprumada foi flectida pelos anos. A sua fragilidade tornou-se indissimulável, tendo que conter o constrangimento com que recebe a caridade de um lugar sentado. As pernas já não respondem aos caminhos e os movimentos desenham-se numa (ausência de) velocidade própria.
E a plena consciência de estar perto do fim, que o tempo se esgota para o crédito que lhe foi atribuído, a injustiça de não lhe ser permitido protelar. Imaginar-se confinada sob a terra, atacada pelos seres que lá habitam, ser esquecida pelos poucos que ainda a recordam. Querer mais da vida e não poder. Ter medo. De adormecer para sempre. E ela? E a vida? E o horizonte? E o pôr-do-sol? E as gargalhadas das crianças? E o amor? E o abraço caloroso de que tanto sente falta?
Querer mais e não ter. Apesar da convicção de ser um princípio. De que tudo se repete. De que todos se encontram eventualmente. Mas, e aquela alma? Conseguida a ferro e fogo, dando o peito à vida mesmo quando esta lhe acometia um golpe pungente. E aqueles olhos, que são só seus, que contam apenas as suas crónicas? E as suas preciosas mãos de trabalho? Para onde irá?

Medo do fim. Medo do princípio.

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Sunday, December 2, 2007

Sem quadros pendurados

Não tenciono ser a segunda escolha. O refúgio para as frustrações, o saco de luta livre, esse ilimitado depósito de ressentimentos. Talvez nos devamos separar. Desenvolver vidas independentes. Não te podes recordar do amor (que alegas ter) por mim unicamente quando não estou presente. Não pretendo aguardar, noite após noite, envolta em lençóis vazios. Ser apenas mais um espaço em branco. Nem uma vírgula na tua frase. Não tenho de te recordar que amar é, também, algumas vezes dar, é bem-querer, é sentir a falta quando o outro não está. E tu nem dás pela minha falta.
Esgotei-me de fixar sozinha as paredes descaracterizadas por um sentimento de não pertença teu. De espalhar coisas me que me revejo pela casa que só eu sinto possuir. Cansei-me de me prestar à mortificação de não sentires qualquer aspiração em me ter de branco, só para ti. Sonho de menina. Sonhos dos que, tão subtilmente, me foste desapropriando. Palavras leva-as o vento, já dizia o ditado. Fartei-me da nunca disponibilidade para mim. Chega de ser a compreensiva que ninguém compreende. Chega.

Sunday, November 25, 2007

Era madrugada recente. Havia humidade em jeito de gotas na atmosfera e um manto negro implacável cobrindo a cidade silenciosa. A sua janela, de vidraças translúcidas perscrutando o Universo, anunciavam aqui e ali luzes amarelas e brancas, reclamos luminosos de cafés fechados, de bares abandonados, reflexos nos olhos dos parcos deambulantes. Era um pedaço imóvel de tempo. Ela esperava-o com paciência. Com expectativa. Arrastava-se de uma janela a outra e outra, cobrindo os percursos possíveis de retorno a casa, envolvida por uma coberta que disfarçasse o Inverno que penetrava pelas entradas mal isoladas, que simulasse um aquecimento inexistente. Ele não aparecia. A ausência inexplicada causava-lhe uma enfermidade maior que a própria doença. Recordava-se de lhe ter dito que não se preocupasse, que ficaria bem sozinha, que não se privasse dos planos. E agora estava há tempo demais desamparada. Sem uma palavra do seu amor. Sem um par de braços mornos que a pudesse embalar. As ruas despidas, as luzes pálidas. A casa enorme.
Adormeceu sozinha, à sua beira uma janela que não lhe trazia o amor de volta.

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Sunday, November 18, 2007

frio na alameda

Imóvel, no centro da gigantesca alameda, contemplava-a como um rebento na montanha, observando a sua dimensão que se estendia em ambos os sentidos para além de si. Uma aragem prudente arrefecia-lhe as mãos descobertas e agitava-lhe o cabelo desalinhado. Pontualmente, surgia gente que vagueava desprevenida, franzido a testa ao brilho cinzento próprio do Inverno, encolhida sob os casacos insuficientes, fechando o corpo ao frio que se instalou sem aviso. E ele, agora sentado no seu banco de jardim, plantado num ponto improvável da avenida, entre betão e fumos de escape, observava inexpressivo. O ruído seco das folhas de árvore condenadas, as estátuas solitárias de olhar sofrido e a gente sem tempo para ficar. Sem destino, diluía-se no movimento pardacento e lesto da cidade. A noite abateu-se sobre si sem dar por isso. O fim do dia, a conclusão da luz, final de vida. Amarelo e preto em seu redor. Luz artificial e ausência dela. Semáforos mais distintos. O vermelho a ditar a solidão da ausência de carros. Escolheu um dos sentidos e desapareceu num ponto escuro da grande alameda.

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Thursday, November 15, 2007

Por vezes há palavras que se arremetem com o desígnio de ferir, e por vezes ferem mesmo. Por vezes há desejos que não se reproduzem do outro lado. Por vezes há ímpetos que se afogam na censura e fenecem não divulgados. Por vezes não somos o que somos, somos aquilo que se espera que sejamos. Por vezes não se conseguem interpretar gestos, negamo-nos a evidência. Por vezes somos tudo e por vezes somos nada. Por vezes queremos crescer e voar. Por vezes somos só aquilo que o espelho reflecte, ausente de substância.

Friday, November 9, 2007

O meu nível

de preguiça é tal que me desloco dentro de casa através da cadeira rolante do escritório. I'm hopeless.

Thursday, October 25, 2007

Sleepwalker

Seis horas da manhã. Desperto com uma repentina secura na garganta e um arrepio pelo corpo. Ou talvez com o sentido da responsabilidade, não sei. Nenhuma vontade de me levantar ou de permanecer deitada. O corpo é arrastado até à cozinha onde me dissolvo num copo com água. Há um silêncio avassalador pela casa. Penso que sou a única pessoa na Terra. Os olhos inertes fixam-se no azulejo falhado da parede. As costas curvadas e os braços mal apoiados sobre a mesa da cozinha. Sou incapaz de me mover. Reflicto sobre as actividades planeadas para o dia que ainda não chegou. Não encontro nada. Só o silêncio a ferir os sentidos. Observo as paredes em redor e não reconheço o espaço. Não me recordo do que fiz ontem. Ou no dia anterior. Não sei quem por cá habita. Digo o meu nome em voz alta e não me identifico com ele. Há presenças estranhas por todo o lado. Escuto, à distância, uma voz, que talvez não seja mais que um pensamento, a ordenar-me descanso. Obedeço. Desapareço sob o peso dos cobertores. A meu lado o sentimento de pertença que não encontro em mais nenhum outro lugar.

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Porque é que será

que quando o condutor da viatura à minha frente na estrada faz uma daquelas manobras homicidas, que me faz rever os meus 28 anos de vida em 3 milésimas de segundo, não consigo evitar de, ao ultrapassá-lo, virar o meu pescoço até ao limite da sua elasticidade para ter uma perspectiva indiscreta da sua carantonha? Acho que tenho uma ténue esperança de encontrar um monstro vermelho com chifres na testa e tridente ao lado da caixa de mudanças.

Wednesday, October 24, 2007

Conversas

Em conversa com o meu psiquiatra (gosto desta propriedade que aplicamos aos médicos), e depois de quarenta minutos do meu mais íntimo e angustiado desabafo enquanto ele, disfarçadamente, ia bocejando e consultando o relógio, diz-me:

"Não acha que leva a vida demasiado a sério?"

Duh! Acha mesmo?? Que brilhante conclusão! Já podia ter dito e eu fazia já o switch para o modo levar-a-vida-menos-a-sério. Paga uma pessoa 75€ para ouvir isto!

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Tuesday, October 23, 2007

Greve para todos

Porque é que só os funcionários das empresas exploradoras dos transportes públicos e privados é que tem direito a fazer greve?
Então e os clientes/utilizadores/utentes/pagantes/wathever? Pois fica aqui a minha reivindicação. Meus amigos, hoje sou EU que vou fazer greve. Recuso-me a entrar nos autocarros apinhados da Carris que transbordam gente pelas janelas, dirigidos por pessoas de mal com a vida que se retaliam infringindo regras de trânsito tais como o limite de velocidade nas localidades ou a prioridade de circulação nas rotundas. Nego-me a viajar no Metro e ser agredida de dois em dois minutos com o estridente aviso de fecho de portas, ter de gramar com os sovacos dos outros ao fim do dia ou de me segurar, desprevenidamente, aos varões peganhentos das quinhentas mil mãos suadas que já por lá passaram. Não navegarei na Transtejo colocando a minha vida em risco, e enfrentando a quase impossibilidade de manter a última refeição no estomâgo, enquanto o dito Catamaran aperfeiçoa os seus jumps radicais pelas ondas selvagens do Tejo (acreditem que é verdade!). Não me prestarei a voar em aviões que ninguém sabe quando se vão despenhar deixando-nos sem a mais remota hipótese de salvação e estarmos sujeitos, ainda por cima, a partirmos para o outro mundo com a memória de uma fatia de fiambre verde dentro de um croissant de plástico como última refeição!

Exijo sorrisos smpáticos pela manhã e um "bom resto de dia" à despedida, assim mais ou menos ao jeito da Marta do OK Teleseguro.

Bem... assim terei que andar a pé, não..? hmm.... Anyway, será que vou conseguir chamar a atenção do governo?

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Continuação da espécie

É cada vez mais amiúde que penso em engravidar. Não é que o meu relógio biológico esteja a dar horas e que me babe com cada bebé que me passa à frente (nah, que ideia!), é pura e simplesmente porque acho que está na altura dos meus pais serem avós. Estão naquela fase mais serena da vida em que precisam de um pirralho a berrar e a sujar-lhes a casa para se sentirem realizados.
Mas acabo sempre por chegar à conclusão que ainda é cedo demais, que ainda não estou preparada, que ainda não estabilizei profissionalmente (desisti de o tentar fazer a nível pessoal, vou ser doida até ao resto dos meus dias!), que tenho de mudar de casa.. enfim.

Mas, espera lá! Como é que eu serei capaz de ser mãe e ter a meu total encargo e dependência um novo ser humano quando eu própria ainda me sinto ainda tão criança, tão miúda, preciso de tanto mimo, que ainda rebento em lágrimas quando as coisas não me correm de feição? Por amor de Deus, o meu pai ainda me chama "passarinho" e "bebé" (entre outras coisas pelas quais não vale a pena estar agora aqui a humilhar-me)!

Acho que não há um momento certo, nunca vamos estar preparadas para isto, nós as gajas, claro! É fechar os olhos e atirarmo-nos de cabeça!

Coitados dos meus pais, não têm sorte nenhuma.

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Monday, October 22, 2007

Acordar cedo

Acordar cedo tem o mesmo sabor doce da primeira flor da Primavera. Gosto da luz branca sobre os telhados de lisboa, as cores pálidas reflectidas na expressão fresca dos madrugadores. Gosto do início do dia, testemulhá-lo. Tudo se prepara para acontecer. A cidade começa a mover-se devagarinho. Alguns sons podem distinguir-se muito ao longe, mal se percebem os motores dos automóveis, os passos dos que se apressam para as paragens, o chilrear de um ou outro pássaro que já nem os colocava no turbilhão humano da urbe. Um camião recolhe destroços de garrafas que se acumulam em contentores à porta dos restaurantes. As golas que se erguem quebrando a brisa fria que, sorrateira, surpreende as pessoas. Ouvem-se chávenas tinindo nos pratinhos que as acolhem nos cafés, embebidos em queques e bolos de arroz. Cheira a pão torrado e leite com café. Cheira a croissant e perfumes acabados de serem lançados no pescoço das mulheres, o after-shave alcoólico oleando as faces brilhantes dos homens.
Adoro acordar cedo para o dia que me aguarda lá fora! Adoro o inicío, todos os dias!

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Thursday, October 18, 2007

Mudei de casa

Fiz as trouxas, pu-las às costas e passei uns meses a divagar. A reflectir sobre o destino das coisas. Mudei de casa. Pendurei os quadros, espanhei fotografias, queimei incensos. Sentei-me diante teclas, que pacientemente me aguardavam um assunto, e temi que a voz que haviam silenciado cruelmente não mais se pudesse fazer escutar. Temi já não ser capaz de juntar uma palavra a outra com o mesmo sentido em que as penso. Uma testa franzida tinha-me feito crer que não existe harmonia nas minhas linhas, apenas enfado aos interpretantes. A censura. Mutilação. E essas linhas que antes gritavam até se dispersarem por cada um dos meus poros, calaram-se.
Vou tentar novamente. Devagarinho. Pé ante pé, para não tropeçar.
E desta vez só convido os amigos à minha nova casa.
Bem-vindos.

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