Wednesday, December 8, 2010

um beijo e até amanhã

Perdeste um dia, e mais outro. Perdeste um convite, um segundo e um terceiro. Uma oportunidade, um momento. 
Talvez o último? Quem pode dizer que não o será? 
Adiaste o amor. Mas o meu apenas. A importância que vem atrás. A saudade que se apaga. A solidão que ganha espaço. A individualidade que se instala e que expulsa de lá o resto.
Sim, fui eu quem quis. Mas apenas para me certificar que era isto que deixarias acontecer. Afinal aquela vida era o que a rotina dela fazia. 
Afinal, não tens sempre razão.
Amanhã? Depois. Na próxima semana, no ano que vem?
Acho que vai ser tarde. Tu e eu seremos outros.


Thursday, October 21, 2010

Há dias que sabe bem

Há dias que sabe bem acordar pela fresquinha e ir olhar o mar enquanto o sol se levanta, há dias que sabe bem pôr a música bem alto e dançar sozinha pela casa, há dias que sabe bem fotografar o rosto de um estranho, há dias que sabe bem ir até uma montanha e gritar, só gritar a plenos pulmões, há dias que sabe bem sair de casa sem me olhar no espelho, há dias que sabe bem não partilhar a sobremesa que é maior do que a vontade de a comer, há dias em que sabe bem não ter uma única conversa de adultos, há dias que sabe bem ler as cartas do passado, há dias em que sabe bem mudar toda a casa, há dias que sabe bem viajar de mochila às costas, há dias em que sabe bem correr até perder o fôlego, há dias que sabe bem chorar num ombro amigo, há dias que só sabem bem se forem passados na cama, há dias que sabe bem nem tirar o pijama, há dias que sabe bem mergulhar no mar numa noite quente, há dias que sabe bem cheirar o pescoço de quem se gosta, há dias que sabe bem ser irresponsável, há dias que sabe bem desligar o telefone, há dias que sabe bem ver filmes românticos debaixo do cobertor do sofá, há dias que sabe bem surpreender alguém com um "quero-te tanto", há dias em que sabe bem fazer um corte radical no cabelo, há dias que sabe bem ter uma aventura no deserto, há dias em que sabe bem passear descalça na rua.
Há dias assim. E depois, há os outros.

Menina

Menina pequenina e tímida, atrás das saias da mãe, a esconder o sujo das meias, e a vergonha do tropeção que as marcou, o rubor do rosto quando alguém repara. Menina, insegura e solitária, dona de si, dos seus silêncios, dos seus momentos, do seu tempo à sua música, do seu vinho à janela nas luzes de Lisboa à noite. Menina com medo do silêncio, sem memória desses instantes bons, de estar consigo mesma, do vento nos cabelos, de pensar alto, de andar descalça, despida, pela casa, da liberdade cativa de estar só. A menina de quem alguém se lembrou, desaparecida, por onde anda, escondida dentro de si, discreta, para que ninguém a chame, para que ninguém a lembre. Menina, pequenina, estás longe, ausente. Estás mesmo aqui ao lado.


Wednesday, October 13, 2010

Desencontros

Ela acolhia, no seu colo, a tristeza dele, que lhe fazia pesar a cabeça e baixar os braços. Passava as mãos pelo seu cabelo, confortava-o, que era preciso paciência e que o amor é mesmo assim. Ele lamentava com toda a convicção que a única mulher que podia amar não o queria, mas vai esperar por ela, que passe o momento, que amorne a paixão própria da idade.
E ela, enquanto alisava a sua pele com os dedos, e desenhava círculos nas maçãs do seu rosto divagava, a que saberiam os seus lábios? Imaginava-se enrolada nos seus braços, segura pelo seu peito.
Evitava o seu olhar dele, irredutível, não sabia como não ficar sem ar, como não paralisar àquele confronto de espelho de água, não devia ser permitido olhar assim. Não devia haver uma voz tão grave e serena que lhe estremecesse as pernas. E o seu cheiro, embriagava, as moléculas do seu aroma quente, de doce e álcool, magnetizavam a sua pele à dele.
Fugir, disfarçar, que ele não me quer assim, ele não me conhece assim. Queria dizer-lhe outra coisa, gosto de ti, eu estou aqui e vou cuidar de ti, tratar-te como um rei, quero-te muito, vou perder a cabeça e dizer que te amo, que o amor não conhece vergonha, mas vou dizer-te baixinho ao ouvido, não contes a ninguém, vou olhar-te, assim de longe, horas e horas e horas, a minha vida e a próxima.
Mas não, ele não sabe nem vai saber, ele não a vê e não a ouve.
O amor só existe a dois, diz-lhe ele, o amor reside apenas nela, não há mais ninguém - e qualquer coisa se parte enquanto o escuta - não vai haver mais ninguém - e o peito gela e os olhos vacilam, dá-lhe um abraço, festas no cabelo ondulado, beijo no rosto, inspira bem forte, coragem dentro do estômago, aproxima os lábios do seu ouvido, e sussurra-lhe bem de perto, e bem baixinho - paciência, querido, ela um dia será tua.

Monday, August 23, 2010

Perguntas


O tempo passou e passou e passou, para onde foram os meus anos? Onde deixei eu a pele lisa, a energia avassaladora, a vontade de acontecer, todo o tempo do mundo para ser adulta e tomar decisões?
Onde ficou a menina dos olhos bonitos que se escondia atrás do rubor das faces?
Onde estão os meus planos de há quinze anos atrás? Quando quebrei o castelo de cristal onde já devia morar, envolta em rebentos que competiriam pelo meu afecto? Onde está o meu príncipe e o seu cavalo? Em que lágrimas apaguei eu a paixão? Quem tem a chave da minha caixinha de sonhos? Onde está a minha imagem no espelho e por quem a substituíram? Em que mares brilham os reflexos do verão? Quem se aroma com a minha essência de baunilha?
Onde ecoa o hard rock e em que noites quentes ele toca? Que foi feito da minha rua, e das pessoas que lá se encontravam depois do jantar? Quem dialoga comigo, horas e horas a fio, ignorando o aviso do relógio?
Que foi feito do brilhozinho naqueles olhos que me arrancavam do sofá, pleno escuro e frio lá fora?
Quem vive as aventuras, os deixa rolar, os flirts, o frio no estômago, o beijo roubado, o sabor a sal e mel?

Onde estás tu, eu?

Thursday, May 13, 2010

Azul

Azul, flutuo à deriva, sem sítio para chegar, sem horas marcadas no horizonte, a minha pele, semi molhada e seca à cadência lenta, sussurrada, das ondas, não se decidindo que parte da linha de água ocupar, dar o corpo à deriva, usar, gastar e perder o tempo, que o tempo ninguém o tem.
Fecho os olhos e vejo as marcas de luz, ao longe, num sítio que não existe, o som abafado na água, ora vai, ora vem, o sal a queimar bocadinhos do rosto, o sol a salgar os lábios, o cabelo, revolto, alinhado, sedoso, dançando a água, ora tocando, ora afastando-se dos meus ombros.

O azul, são os olhos castanhos, quando fecho os meus. O azul, na música que essa voz embala, para te aproximar mais um milímetro, escutar a tua respiração, um movimento que paralisa a terra, todos devem guardar este momento, esse pequeno milagre que deus nos ofereceu, essa cor que te faz gente do mundo.
Azul, dizes-me baixinho, soprando um lugar bonito onde marco já o próximo encontro, vejo-te lá, sinto-te lá, sem ninguém saber, esqueço-me nesse lugar imenso que é a origem e o destino de tudo, esse azul que me ensinaste, esse azul para onde te resgato.
Azul és tu, dir-te-ei nos olhos.

Wednesday, May 5, 2010

Quero demorar-me mais pouco. Quero permanecer neste espaço onde estás tu. Quero imergir nesta tua presença que enche e transborda. Quero esta saudade que fere e ampara. Quero um sítio só nosso. Quero morrer e nascer. E fazê-lo várias vezes para te ver pela primeira vez todos os dias. Quero um dia, e não uma hora, só para mim. Quero fazer novas memórias contigo e cristalizá-las numa música lenta que mais ninguém conhece.
Quero. Um dia.

Friday, April 23, 2010

Posto isto, tiro o tempo só para mim. Ninguém me chama, ninguém me reconhece, ninguém me procura, ninguém me quer.


Abro a porta do canto, faço-me entrar no quarto estranho, fecho-a atrás de mim. Costas com porta, cabeça pendida, a certificar-me de que não se volta a abrir. Arranco as botas pesadas do dia para onde não as possa ver, para não me recordarem os passos que dei. Sucessivos avanços e recuos, no caminho até ao duche. Permaneço em frente à cortina. Não sei explicar esta preguiça em entrar. Não quero roubar à pele o sal que o ar marinho lhe deu, o sal que as lágrimas esqueceram no meu rosto. Não quero empalidecer a cor que fui ganhando com o tempo. E deixo-me vencer. Largo as roupas que, supostamente, dirão qualquer coisa a meu respeito. Venço-me à violência com que a água desaba sobre mim, imóvel, inconsciente. O corpo cede à temperatura morna que não aquece, conforta. Lentamente, sinto os músculos desistirem da força que a minha alma lhes pede, dia após dia. Mas a água traz a serenidade que deixa escapar as memórias. Seco-me, sem vontade. O espelho chama-me à atenção. Tenho medo de o ouvir. Fala-me nas linhas que se juntaram aos meus olhos, e na outra a lembrar sorrisos antigos. Sem fazer nenhum esforço, sei precisar o episódio em que mas desenharam. É somente mais uma história para não contar, só mais um adeus.

Puxo um cigarro que me ajude a pensar. E não. Não encontro um sentido em tudo isto.

Tuesday, April 20, 2010

Morte

Hoje é um dia triste. Hoje é um dia cinzento e está sol lá fora, azul lá em cima, brilho na imensidão de mar à minha frente. E ainda assim cinzento, à minha volta, cinzento cá dentro.


Eu pressentia essa dama escura a pairar sobre a minha exiguidade cá em baixo, a espalhar o pó da inevitabilidade nos meus olhos. E eu escondi-me na improbabilidade, empurrei com a barriga o problema para longe de mim, como se dar amor fosse uma tarefa com prazo. Mas não sou eu que marco o prazo, o prazo marca-me a mim, e concretiza-o sem aviso.

E agora perdi essa velhinha que me ensopava o pão no leite com café, que me levava em mão com ela ao peixe e me oferecia salames de chocolate e Sumol de laranja. Perdi-a sem lutar por ela. Fechei os olhos, ela fechou os olhos, recolhi a mão, ela estendeu-me a mão, calei o amor, ela afagava o meu cabelo. E agora, não há retorno.

Tuesday, April 6, 2010

Cadeirão Negro II

E dou por mim aqui sentada, despida da postura de senhora-menina que imponho aos outros, emoções à vista de todos, sem gota de estrutura para esconder uma única lágrima, em frente a um estranho. No sofá, ajeito as almofadas para que se façam às minhas costas doridas, tentando disfarçar o mau jeito, as mãos nervosas, enrolo uma perna na outra para não ocupar espaço, sinto o rubor subir ao rosto, o meu olhar esquivo por não conseguir enfrentar o dele…
O estranho inquire-me, sabendo de antemão as respostas, as verdadeiras e as que pronuncio. Olha-me e invade os meus pensamentos como quem desaperta um botão, como se os trouxesse estampados no casaco.
Muitas coisas ainda tenho para dizer, não sei como, mas sei que a seu tempo ele mas fará purgá-las, como se purga o veneno de um sangue doente. E eu estou doente da alma porque não sei amar assim-assim, e ridicularizo-me com esta constatação.
E agora esta música que me interrompe e me atrapalha a reflexão. Faz-me lembrar porque já não me consigo entregar. Porque há um espaço, físico ou metafísico, onde duas pessoas pertencem e se unem numa terceira. Fora dos limites desse espaço, o mundo é pequeno e insignificante, frívolo.
E seguindo o mesmo raciocínio, volto ao estranho. Ao estranho que já me conhece, que já sabe quem eu sou e ao que venho. E porque é a esse lugar que se desejo voltar, nem sei especular porquê. Porque ele olha-me e vê onde não estou, porque aproxima o seu cadeirão do meu, querendo observar-me melhor, querendo escutar as minhas palavras, dar-me existência, significado. Porque todos os seus gestos são genuínos e isso sensibiliza-me até às lágrimas. Porque ver a transparência húmida nos seus olhos pela dor agarrada às minhas memórias, me impele para o seu colo. Desejo que os outros dias corram para que eu possa retornar àquele cadeirão onde eu sou gigante e pequena. Quero que o tempo se dilua na distância entre um dia e o outro, só para escutar aquelas palavras, cadenciadas e serenas, concretizadas num movimento de mãos, aguçadas pela expressão semicerrada de quem foca um objecto longínquo. Essa voz que não julga, uma voz que cola uma palavra à outra e a última ao meu ouvido, como se a sussurrasses tão perto de mim que pudesses escutar o meu coração bater nervoso. Desfias a minha última memória da anterior e chegas ao princípio sem que eu dê conta.
Vou esgotar este pensamento num papel de vento.

Monday, March 8, 2010

Tenho saudades tuas, foi isto que vim aqui fazer. Tenho saudades de ti, tenho saudades de mim, quando contigo. Faltam-me os disparates, as loucuras, conversas tolas, sinonimizar cada palavra até à exaustão, até deixar de fazer sentido, gargalhadas solitárias ao monitor, credo, esta palavra existe, coisas que não me lembrava, coisas que tu ias buscar para me animar, horas ao telefone sobre atender o telefone, conversas infinitas sobre absolutamente nada, cigarros e cigarros que não me deixavas fumar, chás que, no final, deixaste de preparar-me, deitar-me no sofá do qual não me deixavas mover, as botas para longe, o cobertor, eu gelada, que me arremessavas como um menino endiabrado, as séries, o riso, a leve narração da pedagogia, aprende isto, tens de ouvir aquilo, bebe esta letra, o que guardar, a música ensina a vida. Os meus cigarros, deixei-os na tua mesa, deitaste-los fora? A minha pulseira, encontraste-a? Os meus lugares, aquele sofá, aquela cadeira na cozinha, o canto esquerdo da vidraça da varanda, a minha serenidade, o meu respeito. O meu chá, a minha conversa, os meus, teus, olhos, quero-os para mim, o meu nome pela tua voz, quero o meu nome, a música que sopra o meu nome, uma coisa minha em ti, nas tuas palavras, a confessar que eu existo, que me conheces, que sou qualquer coisa o teu corpo emite, que o teu cérebro familiariza, remoto nome trocado.. onde me guardaste?

Tenho coisas para te contar, tenho histórias, amarguras, aventuras que te levariam às lágrimas, perguntas para te fazer, conselhos para te pedir, opiniões que só tu acertas, as críticas que me conhecem, quero o que foi, quero o que era, falta-me esse bocado, faltam-me as borboletas no estômago, irritar-me no teu, mau, feitio, o mau humor, os esquemas, as cenas. Preciso chorar, fazes-me chorar também, preciso esquecer-me de mim, rir-me de mim, amar-me, odiar-me, falta-me a subtileza de te olhar.

Faltas-me tu. Faltas-me tu. Faltas-me tu.

Tuesday, March 2, 2010

Ela acerca dele

E ele, desencorajando e provocando-a, não sou melhor que o mais que tens, sou imperfeito e falível.

Ela, suspirando, raiva, angústia, cansaço, cobrindo os olhos com duas palmas, alisando os caracóis sobre a nuca, inquieta, irritada, olhando o tecto, depois a varanda, despeitada, e depois o tecto, contestando com a cabeça, e depois virando o seu corpo para ele, e finalmente fitando-lhe os olhos furiosamente.

Ela gosta de como ele trata bem um estranho na rua, lhe cede um cigarro (o seu último), um sorriso e agradece, um aperto de mão e um, amigo até à próxima, encarnando o pobre diabo, gosta de como lhe beija a testa por não saber bem onde lhe pode (de como ela quer) tocar, os pulos de alegria, criança, numa surpresa inesperada, na determinação com que quer (e acredita) ajudar o mundo, de como sofre com a descensão de quem lhe fez (muito) mal, da forma como se apaixona (não por ela) pelas pessoas, no bom que vê nelas, no amor que lhe dá e que obriga a ser retribuído a outros, gosta que ele ache graça em apertá-la, os músculos ligeiros sob a roupa larga demais, diz-lhe ele, gosta que a eduque com música, com as palavras, com os sabores e o que deve guardar deles. Gostava que gostasse dela.

Gosta, mas não assim, confessa ele. Chora, mas só por dentro, veste o casaco, pensando, a lua cheia já não me trará a este lugar.

Saturday, February 27, 2010

Coisas Antigas II

Queria amar como tu, minha querida. Vejo o teu amor crescer, um dia depois do outro. Uma nova janela, uma nova paixão, a tua entrega, o teu carinho. Todos se apaixonam por ti. Pelo teu
incomensurável amor. A transformação onde tocas, por onde o teu sopro alcança.

Tens olhos de mãe, és mãe, de quatro, de todos. Sossegar no teu colo é perder as inquietações mundanas. És maior, és tão grande, tão forte, tão segura de ti. Eu, miúda à tua frente, encolho-me e olho para cima, com vontade de chorar, só porque percebeste a minha angústia. E os teus enormes olhos redondos, magnânimos, aproximam-se e investigam a origem da minha tristeza e reclamam a minha força interior. Será que a tenho?

Eu pequenina, sem certezas, cabeça no ar, sem saber para onde caminhar, inerte e fugaz como uma manhã de inverno que procura a luz do sol. Onde andas?

És grande, és linda, morna e serena como o espelho do mar, como o pôr do sol vagaroso em dia de verão. És a personificação do amor.
Sinto-me correr para ti cada vez que deploro, cada vez que me magoo, que me assoma o rompante de desistir de tudo e insultar-me com as piores cruezas que me sobrevierem. Quantas vezes quero ser outra pessoa, não pensar, não sentir, não optar. Não precisar ser gente.
Queria amar como tu amas. Olhas uma alma cheia de luz e dizes-lhe, só com o teu sentimento, que a vais acompanhar, ajudar, amparar e amar até ganhar asas. E rendem-se a ti.
Queria ser assim. Apaixonar-me pelas pessoas da minha vida. Pelas pessoas da minha não vida. Pelas pessoas de outra vida.
Queria amar o meu amor. Os amores da minha raça, as pessoas queridas em meu redor. Sou pequenina e verde, criança que ainda não cresceu. Sinto inveja, rancor, ciúme. Lamento.
A todos.

Coisas Antigas I

És tão linda que nem pareces real. Tens música nos movimentos e mel na voz. Dá vontade de te escutar, olhando-te, os sorrisos como vírgulas nas frases sem os quais não conseguias falar. És tão ponderada, não deixas nenhuma contigência ao acaso, consideras todas as possibilidades. Os teus conselhos, tal chave na fechadura, abrem portas, assentam em perfeita harmonia nas indecisões.
Sabes tanto, ou então, queres sabê-lo. Fazer-te feliz é encontrar, cara a cara, a própria felicidade. Tudo pelo som de uma gargalhada tua. Se conhecesses o efeito da coreografia dos teus movimentos, perpetuarias cada gesto teu. E o teu perfume, de rosas e morangos, inunda a sala não deixando espaço ao que não é belo.
E eu, diante ti, tão vulgar, tão cheia de imperfeições, de silêncios nas palavras, que as mal consigo balbuciar contigo. Eu, de mãos secas, unhas descuidadas, cabelos desgrenhados, olhar cabisbaixo, como me posso dirigir a ti? Seria quase pecado macular a tua perfeição com a minha rude presença. Gostava de crescer e poder, um dia, ser bela como tu. Plena de amor. Carícias como consentimento. Beleza genuína com vida própria. Irreproduzivel e rebelde, como o vento. Impossivel de capturar. Todos os dias nascem flores. Que águas te regaram, questiono-me, que sentimentos te cultivaram?

Tuesday, February 16, 2010


Não sei o que fazer dela. Rodeia-me, como um suspiro que não fala, um toque gelado, desapiedado. Ela observa-nos, como que a dizer que da sua vontade depende a minha última paixão, os olhos que pela última vez verão o meu sorriso, a quem dar o último abraço, que último nome chamar, que venha dar-me a mão, o último amparo. De quem me conseguirei despedir. Pedir perdão à vida que não gerei, por minha culpa, a continuidade de que não tive tempo, a batalha desleal, inútil travar. Guardar o último fôlego.

Pedir perdão a quem fica. Recusar as lágrimas. Devolver o amor, como uma compra enganada, um investimento perdido. Abençoar-te e desejar que a vida continue, para além de mim.

Imaginar que te lembrarás. Os meus olhos, os meus gestos, que se possam desenhar na tua memória, nas histórias que irás contar.

Continua a olhar para as estrelas sem mim, talvez me encontres.