Wednesday, December 8, 2010
um beijo e até amanhã
Thursday, October 21, 2010
Há dias que sabe bem
Há dias assim. E depois, há os outros.
Menina
Wednesday, October 13, 2010
Desencontros
E ela, enquanto alisava a sua pele com os dedos, e desenhava círculos nas maçãs do seu rosto divagava, a que saberiam os seus lábios? Imaginava-se enrolada nos seus braços, segura pelo seu peito.
Evitava o seu olhar dele, irredutível, não sabia como não ficar sem ar, como não paralisar àquele confronto de espelho de água, não devia ser permitido olhar assim. Não devia haver uma voz tão grave e serena que lhe estremecesse as pernas. E o seu cheiro, embriagava, as moléculas do seu aroma quente, de doce e álcool, magnetizavam a sua pele à dele.
Fugir, disfarçar, que ele não me quer assim, ele não me conhece assim. Queria dizer-lhe outra coisa, gosto de ti, eu estou aqui e vou cuidar de ti, tratar-te como um rei, quero-te muito, vou perder a cabeça e dizer que te amo, que o amor não conhece vergonha, mas vou dizer-te baixinho ao ouvido, não contes a ninguém, vou olhar-te, assim de longe, horas e horas e horas, a minha vida e a próxima.
Mas não, ele não sabe nem vai saber, ele não a vê e não a ouve.
O amor só existe a dois, diz-lhe ele, o amor reside apenas nela, não há mais ninguém - e qualquer coisa se parte enquanto o escuta - não vai haver mais ninguém - e o peito gela e os olhos vacilam, dá-lhe um abraço, festas no cabelo ondulado, beijo no rosto, inspira bem forte, coragem dentro do estômago, aproxima os lábios do seu ouvido, e sussurra-lhe bem de perto, e bem baixinho - paciência, querido, ela um dia será tua.
Monday, August 23, 2010
Perguntas
O tempo passou e passou e passou, para onde foram os meus anos? Onde deixei eu a pele lisa, a energia avassaladora, a vontade de acontecer, todo o tempo do mundo para ser adulta e tomar decisões?
Onde ficou a menina dos olhos bonitos que se escondia atrás do rubor das faces?
Onde estão os meus planos de há quinze anos atrás? Quando quebrei o castelo de cristal onde já devia morar, envolta em rebentos que competiriam pelo meu afecto? Onde está o meu príncipe e o seu cavalo? Em que lágrimas apaguei eu a paixão? Quem tem a chave da minha caixinha de sonhos? Onde está a minha imagem no espelho e por quem a substituíram? Em que mares brilham os reflexos do verão? Quem se aroma com a minha essência de baunilha?
Onde ecoa o hard rock e em que noites quentes ele toca? Que foi feito da minha rua, e das pessoas que lá se encontravam depois do jantar? Quem dialoga comigo, horas e horas a fio, ignorando o aviso do relógio?
Que foi feito do brilhozinho naqueles olhos que me arrancavam do sofá, pleno escuro e frio lá fora?
Quem vive as aventuras, os deixa rolar, os flirts, o frio no estômago, o beijo roubado, o sabor a sal e mel?
Onde estás tu, eu?
Thursday, May 13, 2010
Azul
Fecho os olhos e vejo as marcas de luz, ao longe, num sítio que não existe, o som abafado na água, ora vai, ora vem, o sal a queimar bocadinhos do rosto, o sol a salgar os lábios, o cabelo, revolto, alinhado, sedoso, dançando a água, ora tocando, ora afastando-se dos meus ombros.
O azul, são os olhos castanhos, quando fecho os meus. O azul, na música que essa voz embala, para te aproximar mais um milímetro, escutar a tua respiração, um movimento que paralisa a terra, todos devem guardar este momento, esse pequeno milagre que deus nos ofereceu, essa cor que te faz gente do mundo.
Azul, dizes-me baixinho, soprando um lugar bonito onde marco já o próximo encontro, vejo-te lá, sinto-te lá, sem ninguém saber, esqueço-me nesse lugar imenso que é a origem e o destino de tudo, esse azul que me ensinaste, esse azul para onde te resgato.
Azul és tu, dir-te-ei nos olhos.
Wednesday, May 5, 2010
Quero. Um dia.
Friday, April 23, 2010
Abro a porta do canto, faço-me entrar no quarto estranho, fecho-a atrás de mim. Costas com porta, cabeça pendida, a certificar-me de que não se volta a abrir. Arranco as botas pesadas do dia para onde não as possa ver, para não me recordarem os passos que dei. Sucessivos avanços e recuos, no caminho até ao duche. Permaneço em frente à cortina. Não sei explicar esta preguiça em entrar. Não quero roubar à pele o sal que o ar marinho lhe deu, o sal que as lágrimas esqueceram no meu rosto. Não quero empalidecer a cor que fui ganhando com o tempo. E deixo-me vencer. Largo as roupas que, supostamente, dirão qualquer coisa a meu respeito. Venço-me à violência com que a água desaba sobre mim, imóvel, inconsciente. O corpo cede à temperatura morna que não aquece, conforta. Lentamente, sinto os músculos desistirem da força que a minha alma lhes pede, dia após dia. Mas a água traz a serenidade que deixa escapar as memórias. Seco-me, sem vontade. O espelho chama-me à atenção. Tenho medo de o ouvir. Fala-me nas linhas que se juntaram aos meus olhos, e na outra a lembrar sorrisos antigos. Sem fazer nenhum esforço, sei precisar o episódio em que mas desenharam. É somente mais uma história para não contar, só mais um adeus.
Puxo um cigarro que me ajude a pensar. E não. Não encontro um sentido em tudo isto.
Tuesday, April 20, 2010
Morte
Eu pressentia essa dama escura a pairar sobre a minha exiguidade cá em baixo, a espalhar o pó da inevitabilidade nos meus olhos. E eu escondi-me na improbabilidade, empurrei com a barriga o problema para longe de mim, como se dar amor fosse uma tarefa com prazo. Mas não sou eu que marco o prazo, o prazo marca-me a mim, e concretiza-o sem aviso.
E agora perdi essa velhinha que me ensopava o pão no leite com café, que me levava em mão com ela ao peixe e me oferecia salames de chocolate e Sumol de laranja. Perdi-a sem lutar por ela. Fechei os olhos, ela fechou os olhos, recolhi a mão, ela estendeu-me a mão, calei o amor, ela afagava o meu cabelo. E agora, não há retorno.
Tuesday, April 6, 2010
Cadeirão Negro II
Monday, March 8, 2010
Tuesday, March 2, 2010
Ela acerca dele

E ele, desencorajando e provocando-a, não sou melhor que o mais que tens, sou imperfeito e falível.
Ela, suspirando, raiva, angústia, cansaço, cobrindo os olhos com duas palmas, alisando os caracóis sobre a nuca, inquieta, irritada, olhando o tecto, depois a varanda, despeitada, e depois o tecto, contestando com a cabeça, e depois virando o seu corpo para ele, e finalmente fitando-lhe os olhos furiosamente.
Ela gosta de como ele trata bem um estranho na rua, lhe cede um cigarro (o seu último), um sorriso e agradece, um aperto de mão e um, amigo até à próxima, encarnando o pobre diabo, gosta de como lhe beija a testa por não saber bem onde lhe pode (de como ela quer) tocar, os pulos de alegria, criança, numa surpresa inesperada, na determinação com que quer (e acredita) ajudar o mundo, de como sofre com a descensão de quem lhe fez (muito) mal, da forma como se apaixona (não por ela) pelas pessoas, no bom que vê nelas, no amor que lhe dá e que obriga a ser retribuído a outros, gosta que ele ache graça em apertá-la, os músculos ligeiros sob a roupa larga demais, diz-lhe ele, gosta que a eduque com música, com as palavras, com os sabores e o que deve guardar deles. Gostava que gostasse dela.
Gosta, mas não assim, confessa ele. Chora, mas só por dentro, veste o casaco, pensando, a lua cheia já não me trará a este lugar.
Saturday, February 27, 2010
Coisas Antigas II

Coisas Antigas I

Tuesday, February 16, 2010

Não sei o que fazer dela. Rodeia-me, como um suspiro que não fala, um toque gelado, desapiedado. Ela observa-nos, como que a dizer que da sua vontade depende a minha última paixão, os olhos que pela última vez verão o meu sorriso, a quem dar o último abraço, que último nome chamar, que venha dar-me a mão, o último amparo. De quem me conseguirei despedir. Pedir perdão à vida que não gerei, por minha culpa, a continuidade de que não tive tempo, a batalha desleal, inútil travar. Guardar o último fôlego.
Pedir perdão a quem fica. Recusar as lágrimas. Devolver o amor, como uma compra enganada, um investimento perdido. Abençoar-te e desejar que a vida continue, para além de mim.
Imaginar que te lembrarás. Os meus olhos, os meus gestos, que se possam desenhar na tua memória, nas histórias que irás contar.
Continua a olhar para as estrelas sem mim, talvez me encontres.



