Não sinto nada. Que estranho. Sinto-me dormente. Ausente. Impassível. Intangível. Nada é surpreendente. Já tinha visto isto a acontecer. Tudo à minha frente. A única coisa que resta decidir é como vou agir sobre isto. Não posso ficar passivamente a cair num ciclone de negatividade. Não pode ser. Tenho de me fazer à vida. Já me fui desfazendo de algumas coisas. Há outras que não têm desfazia possível. Sangue e amor, isso não se descarta.
Gosto desta serenidade que recentemente aprendi a apreciar. A tranquilidade com que deixei de correr para qualquer lado à procura de agarrar tudo, como se o [meu] mundo se fosse extinguir, caso contrário. Mas o mundo não acaba, as pessoas não fogem, as oportunidades não duram apenas uma milésima de segundo.
Há tempo para tudo. Para amar, para apreciar, para saber o que queremos procurar e, especialmente, para que as coisas sigam o seu curso natural. Isto só é possível com uma boa dose confiança e com várias intro e extrospecções. Não falo, naturalmente, de experiências esotéricas ou de um universo paralelo. Falo do aqui e do agora, vista de dentro, pelo lado de fora. A pergunta que se tem imposto, sempre “o que é o pior que pode acontecer?” e quando a resposta é semelhante ao que já aconteceu, algo de que se está acostumado a abdicar, então o pior deixa de ser uma ameaça, um assombro. Deixamos de ter medo. Aceitamos. E com essa serenidade abrimos o peito ao que está para vir. Se os nossos olhos sorrirem ao que aí vem, a mudança será sempre positiva. Tem de ser, temos de assim a transformar. O medo da mudança paralisa, estagna. É preciso crescer. Não faço teatros do meu estado de espírito. Enquanto ele estiver elevado, vou alimentá-lo dessa forma, cultivar essa energia positiva. Deixei de ter espaço para a tristeza ou para o medo. Mudei? Fruto de tantas coisas em simultâneo. Confesso que, antes disto, pensei que não conseguiria superar tudo ao mesmo tempo, julguei que as pernas me iriam falhar e que iria tropeçar algures no caminho. Mas com um bocadinho de sorte, e com a muita determinação à qual me forcei, consegui agarrar as minhas fraquezas e atirá-las para o campo das forças. E consegui. Sinto-me outra pessoa. Nada, mas nada, me conseguiu mandar para baixo. Todas as situações difíceis, e muitas que foram, passaram por mim como um tornado e nem um fio de cabelo me conseguiram desmanchar. Estou orgulhosa de mim.
Entre desafios e decisões, houve tempo para o amor, especialmente por mim, depois por aqueles que incondicionalmente me amam. E até por aqueles que, por ocasião ou circunstância, estão longe.
Finalmente cheguei onde queria chegar quando comecei este blog. Tenho todas as minhas reflexões expostas, consigo segurá-las com duas mãos. O que fazer delas? Vou descobrindo, dia a dia. E tenho todo o tempo do mundo para ser eu. Seja a pessoa que todos me vêem, ou aquela que só eu conheço, vista de dentro.
Associar músicas tão familiares, tão contextualizadas em sítios e em pessoas concretas, a outras histórias, riscando as que ficaram para trás, deve ser o exercício mais exigente.
Quero um café meia chávena.
O mundo continua a girar, bebem-se bicas, fuma-se tabaco, bebem-se copos, fala-se, ri-se, sai-se, tudo igual. Nada mudou no Universo. Só nós. Só o nosso íntimo.
(eu te disse que eu era inocente)
A mesma música, outras pessoas. A mesma música, as mesmas sensações fervilhantes. Outras pessoas. Transferir coisas. Mudá-las de sítio. Encontrar outra casa.
(agora, não me toca)
Ocupo muito mais do que uma cadeira. Isso já não chega.
(tudo foi em vão)
Estás a precisar de ir dançar, vou levar-te a dançar, deixas-me?
(deixa-te ir)
Sim, deixo-te levar-me. Leva-me e, por favor, não me devolvas. Não queres que te devolva? Porquê?
(deixa-te ir)
Porque não vou voltar. Porque nem nesta, nem na próxima vida, vou voltar a ser um gato.
As cadeiras, de mãos dadas, saltitam à volta da mesa, a coberta levanta-se e dança à janela, fita os meus olhos e, com um ar jocoso, faz-me um sinal para que não me levante do chão. Eu, no chão, abraço os meus joelhos, para que a dor passe, para que me concentre no alívio, que não chega, que não me toca, que não me visita, a dor, aqui e ali, em todo o corpo, qual corpo, as náuseas e a constante vertigem que me gravitam ao chão. A cabeça a expandir-se do lado de dentro.
As vozes, essas não se calam, murmuram, baixinho, várias coisas em simultâneo, tento segurar uma e persegui-la, só essa, só uma, para entender o que me quer dizer, mas não consigo, não é possível, outras sobrepõem-se, num novelo cada vez mais compacto de ideias.
Grito para me libertar, mas ninguém me ouve, estou isolada entre estas paredes.
Quase que posso tocar numa imagem etérea, que não é real, mas que me surge, translúcida, pairando sobre a minha cabeça. Quanto tento alcançá-la tudo se desfaz.
E finalmente, um silêncio que, também esse, não consigo suportar.
Quando alguém se aproxima, sem aviso, o seu coração dispara em sobressalto. Sempre alerta, de sobreaviso, sempre na expectativa que seja ela que finalmente decida baixar a guarda e entrar pela vida dele adentro. Entrar para ficar.
Pensa amiúde que é ela, que só pode ser ela, só ela o mexe, apenas ela fá-lo querer ser mais e melhor, só ela vestida com a sua resplandecente agudez no olhar, com a sua predominância sobre todas as centenas de metros quadrados que transpõem os seus passos, o domínio por sobre toda a luz do seu sorriso, uma imagem que queria trazer sempre consigo numa algibeira, tal como ao cheiro que não se contem nos limites de uma pele.
Troca-se-lhe o norte, num só instante, fica virado do avesso, direcção que nunca tinha tido lugar muito certo, não para si, o rumo não interessa, para onde não tem importância. O único verbo que terá sempre valor, só pode ser o ir.
De peito descoberto, cabelo alinhado simetricamente nas duas metades da almofada, uma respiração imperceptível, os lábios imaculados, o rosto subtilmente iluminado pelo luar que entrava pela janela entreaberta. À cabeceira, apenas uma cadeira a suportar um volume de histórias marcadas mais ou menos a meio. Os chinelos a interromper a textura lenhosa do soalho. Quatro paredes monótonas, demasiado próximas umas das outras, para o desejo de liberdade que ali dentro se sonhava.
Uma figura que se aproximou, em sombra, do leito que justificava aquele doce descansar. Dois lábios que tocaram os que dormiam, noutro plano, outros que não os distinguiam em que parte da realidade os enquadrar, outros que devolveram o beijo.
Teria sonhado?
O terceiro homem tinha-a feito esquecer os únicos dois outros que a tinham beijado.
Começar de novo, quantas vezes nos predispusemos a fazê-lo? Quantas vezes o fizemos crendo nisso como o último esforço de vida, o último sopro da ressuscitação, como se viesse até a nós o poder de Afrodite e Atena, numa só mão, como se isso fosse só o que é preciso para alterar um resultado conhecido?
Starting over é diferente. Starting over é desistir. Starting over é começar sobre o acabado. Depois de matar o desejo da possibilidade, depois de desconstruir uma imagem conhecida, obrigando a que a certeza do que não vamos conseguir, nunca e de maneira nenhuma, caia sobre nós, com toda a força e o peso que só a certeza pode ter. Starting again é ser fraco. Starting over é sermos mais fortes que cada célula e músculo do nosso corpo. É aceitar a derrota, é despedirmo-nos do que nos destrói um bocadinho cada dia, é assumir que o mal que nos faz é infinitamente maior do ligeiro bem que imaginamos que eventualmente possa nos possa trazer. É crer que as bases que nos deixam pós de esperança nos olhos são infundadas e alimentadas por construções deturpadas da nossa memória. É devolver o passado ao sítio que ele merece e colocar um céu e um mar sobre o ali e o agora. O agora é mais exigente, mais duro, mais implacável. Obriga-nos a sobreviver em lugar de nos deixarmos ir vivendo com sucessivos starting again.
Starting again é fácil. Starting over é outra coisa. É deixarmos de caminhar sobre um chão que já deu uvas.
É acreditarmos que valemos mais do qualquer expectativa. É, no fundo, gostarmos mais de nós do que de qualquer outra coisa.
"...embora todos os homens, todos, te quisessem beijar.
Vais encontrar o teu terceiro homem e esquecer para sempre os dois únicos que te beijaram."
Thursday, May 17, 2012
Já que enfiaste o barrete - apesar disto não ter tido a ver contigo em particular - e decidiste materializar uma mensagem clara para mim, não sei bem porquê, aqui fica a minha. Para ti. Prometo não me alongar.
A auto-estima, que se quer alta porque isso é saudável, pode facilmente resvalar em pretensão e arrogância. Acho bonito - até um bocadinho romântico - pensares em ti próprio como o sol (e sê-lo-ás certamente na vida de muita gente), não te esqueças é que o sol é apenas uma estrela, de dimensão irrelevante no seio do universo.
Conselho para quem chegou à conclusão de que não pode ser um jumento: dar graças a Deus de haver pessoas que reclamam pela tua presença perto delas, por gostarem de ti, por te acarinharem e por te perguntarem "o que vamos fazer logo". "Estás sempre cansado" ou "entediado" ou "desanimado" (seu IDIOTA) não é cobrança, é preocupação.
Ninguém te pede coerência, apenas genuinidade. Não com o que dizes ou escreves, mas contigo mesmo. Não andasses tu sempre perdido no meio dos teus pseudo-sentimento-reflexões. Quando te perguntam o que isto ou aquilo quer dizer, não significa que se esteja a escalpelizar os teus sentimentos à procura de "códigos" em benefício próprio, mas apenas que te querem dar uma mão a te encontrares no emaranhado que é essa cabeça oca.
Ninguém te pede amor, ou paixão, ou fica a ler nas tuas entrelinhas um sinal disso. Apenas te querem ver feliz e apaixonado por ti e pela vida. Que é coisa na qual, obviamente, não estás a trabalhar bem.
E se achas que este magnifico privilegio - que é ter pessoas que verdadeiramente gostam de ti e que procuram a tua companhia - uma pressão ou cobrança, se não consegues perceber a diferença entre uma e outra coisa, burra sou eu de ter perdido tempo contigo.
Só os burros é que são infelizes. Mais uma vez: só os burros é que são infelizes. Ainda mais uma: só os burros é que são infelizes. Sim: os burros. Os jumentos. Os cérebros de caca. Os calhaus com olhos. Ainda não entendeste porquê? Pois. Já suspeitava. Seu, seu. Seu.
Cá vai: andaste, desde sempre, a acreditar que a infelicidade, a depressão, a melancolia e essas merdas todas eram sinónimo de inteligência: sinónimo de que eras alguém com cérebro e que, coitadinho, de tanto ver o que os outros não vêem, de tanto observar o que os outros não observam, percebe que a vida não faz sentido e que viver não vale a pena. Era isso, não era? Lias o Fernando Pessoa a queixar-se da vida e da falta de sentido para a existência humana e pensavas: chiça, afinal eu sou um génio, afinal eu também sofro por ver que o mundo faz doer e que viver faz sofrer. Pois bem: és um verdadeiro jumento. Um burro. Um calhau. E dos bem duros. Agora com todas as letras: é-s-u-m-b-u-r-r-o. Um burro. Ainda não entendeste? Pois. Já suspeitava. Seu.
A genialidade não é escrever livros que fiquem para a história, nem pintar obras-primas, nem inventar curas para doenças, nem resolver problemas que mais ninguém consegue resolver. A genialidade não é fazer facilmente o que para os outros é difícil – muito menos é conseguir fazer o que para os talentos é impossível. Não. Não. Não. Não. A genialidade não é fazer bem, nem inventar bem, nem solucionar bem. A genialidade, essa genialidade, é uma burrice pegada. A genialidade verdadeira – fixa isto como se fosse (e é mesmo) a mais importante lição que algum dia recebeste – é viver bem. A genialidade é saber viver. Isso sim: é genial. E, se não sabes viver, por mais obras-primas que cries e mais invenções que descubras, não passas de um burro, um jumento – e aqueles nomes lindos que já te chamei há pouco. És isso tudo. Não passas de isso tudo se não sabes viver e ser feliz por dentro do viver. E são a mesma coisa: viver implica ser feliz por dentro do viver. Porque viver é ser feliz. O resto é vivar, vivir, vovir, vuvur, vuvir e mais o catano que lhe quiseres chamares. Tudo o que não seja viver com felicidade não é, sequer, viver. Manda as obras-primas para o raio que as parta. E aprende a ser genial como o Fernando que foi pessoa e não como o Fernando que se chamava Pessoa. Ser pessoa custa muito mais do que ser génio. Ser pessoa – e viver como pessoa – é muito mais genial do que qualquer livro ou pensamento que possas criar. Ser pessoa é difícil comó caneco. E tu és asno comó caneco se ainda não o entendeste. Seu.
Aprende sem perderes nem mais um segundo, nem mais um respirar. Aprende já: não se derrota a matemática. Não se derrota o que só tem de ser, o que nunca vai deixar de ser. Não se derrota o que é – e que, porque ainda não aprendeste o que acabei de te dizer, te impede de te seres o que és. O grande segredo da felicidade não é – como os pseudo-génios da infelicidade defendiam e defendem – não pensar. O grande segredo da felicidade é dis-pensar. Dispensar o que é dispensável: o que nasceu para ser dispensável. Só quem dispensa o que tem de ser dispensável é que é feliz. E só é capaz de dispensar quem sabe pensar. Pensar a sério. Só os génios dispensam. Qualquer burro é capaz de pensar. Mas dispensar está reservado a uma elite de predestinados. A uma elite de felicinados: de alienados de felicidade. A vida é para ser vivida. A vida é, mais do que todas as bujardas que os filósofos tristes (os tristes filósofos) escrevem sobre ela, uma bênção, uma danada de uma felicidade. Uma bênção que te devia deixar aos saltos só por teres o privilégio de aqui estares: a vivê-la, a sê-la, a degustá-la. Estar vivo é o único motivo de que precisas para viver. E não entender isso é de uma burrice que eu nem sequer entendo. Seu, seu, seu. Seu.
Dispensa o que não tem solução. A matemática é a mais social das ciências: a mais humana das fórmulas filosóficas. A matemática ensina-te que há verdades universais. Ensina-te que há factos objectivos: factos que são e que nada pode fazer com que deixem de ser. E o grande segredo da felicidade é perceber que, se nada podes fazer para mudar alguns factos, nada deves fazer para tentar mudar alguns factos. O grande segredo da felicidade é concentrares-te naquilo que podes mudar. E dispensar perder um milésimo de segundo que seja naquilo que não podes mudar. Sabes que espetar uma faca na pele dói – e por isso não espetas. Então porque é que - mesmo sabendo, tantas vezes, que dizeres ou fazeres ou escolheres um determinado caminho te dói - continuas a dizer e a fazer e a escolher esse determinado caminho? Diz comigo: “eu sou burro”. Outra vez: “eu sou burro. Eu só posso ser burro sempre que penso que não dispenso. E que posso ser feliz se não dispenso aquilo que tenho de dispensar”. De novo: “eu sou burro”. Só mais uma: “eu sou burro. Burro” Seu, seu, seu. Seu.
Para fechar esta trampa destas palavras (porque tenho muito que viver e ser feliz e não quero perder mais tempo contigo), assimila isto: acreditares que alguém que passou os seus dias infeliz é um génio do entendimento da vida é como acreditares que é um génio das letras alguém que não sabe escrever. Ou que é um génio dos números alguém que não sabe contar. Acreditares que um desgraçado que passou a vida a sofrer é um génio e sabe mesmo ensinar-te o que é viver é estúpido, é palerma, é imbecil. E é sobretudo a prova de que estás, na verdade, ao mesmo nível dele. O que talvez explique o porquê de preferires chamar-lhe génio. Seu burro."
Não me falem de amor, estou cansada de ouvir, falar, escrever, procurar, respirar e de querer amor. O amor deixa-me exausta, especialmente quando não está lá.
Esqueçam o amor, esqueçam o que é, como faz doer, e do bem que sabe essa dor. Esqueçam essa comichão que vos faz arrancar a pele e, mesmo em sangue, alivia. Parem de desejar que vos troquem a água, o pão, a cama, o sangue por uma gota de amor que se dilui em cinco minutos num gin tónico. Deixem de o procurar, ele não está "ao virar da esquina" (que absurdo isso é), ele não está "mesmo à frente dos nossos olhos", nem atrás da porta, nem do outro lado da janela, nem debaixo da cama e muito menos dentro dela. Irrita-me essa incompetência sentimental que desespera pessoas a "procurar o amor", essa ignorância que os faz acreditar que o vão encontrar "quando menos estiverem à espera." Quem pensa assim, não merece o amor, não é digno de o sentir, ainda menos de ser o objecto desse sentimento. Despedia-os a todos desse cargo, retirava-lhe à séria a capacidade emocional, e aí iam ver o que era bom para a tosse. Agora choras com vontade, agora que não consegues sentir.
Sentir é uma opção, uma pré disposição, uma abertura, um sorrir da alma, um piscar de olho à vida, um atirar-se num mar bravo sem prancha, um saltar de penhasco sem pára-quedas, um andar descalço na rua, um dançar sem roupa à janela, um sorrir quando perceber nos observam, um dar a mão a quem nos procura, um chupar um limão azedo sem pestanejar. É tudo isso e mais. O amor está dentro de nós. Somos nós que puxamos o amor quando altruistamente o resolvermos dar, o amor é dar, dar, dar. Raramente receber. Mas dar na mesma. Não o procurem, por amor de deus, se não está dentro de vocês, se não está na pele, na linfa, no sangue, no estômago, nos pulmões, nos músculos, no esqueleto, na cabeça e no peito, em todos os momentos.
Vão ser frustrados para o raio que vos parta que eu não tenho comiseração nenhuma por quem não ama. Não tenho pachorra para essa conversa da treta. Não me macem mais com isto.
You get what you give.
Façam o favor de ir aprender esta lição e, já que aqui é claramente inútil, apliquem-na na próxima encarnação. Voltamos a falar nessa altura, quando todos formos gatos.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis.
É o MEC que diz, e sou eu que assino por baixo. As coisas más, sejam sentidas, ou fruto de leituras fracas, ficam incrustadas na pele em forma mágoa. E não se consegue despir a pele. Vai-se acumulando dela várias camadas, umas em cima das outras. Pode-se relativizar, fazer o exercício de tentar "esquecer", aceitar o pedido de desculpas, compreender o que o justificou, whatever, mas não há volta atrás. Fica lá. Para um dia vir ao de cima, saltando, como uma tampa mal fechada.
Não há nada como o vazio deste tipo de decepção.
Ponham lá para dentro o que bem entenderem, este vazio é irreenchível.
Deixem o egoísmo, o hedonismo, o sensoralismo fácil e a gula de lado, só por um bocadinho, e usem a massa cinzenta que Darwin vos deu antes de dizer ou fazer merda. Pode saber bem atingir quem se tem muita vontade, ou quem está mesmo ali à mão como saco de areia, mas depois vai ser tarde.
Somos tão iguais que mete medo. Às vezes, a maior parte delas, comunicamos em línguas diferentes. Dialectos que aprendemos nas nossas tão antagónicas origens.
I'd like to show you my world. For you to see how I feel.
Assusta-me que não tenhamos nada para descobrir um do outro. Que por me ver ao espelho, em cada vez que te olho, que já saiba o que fizeste, o que queres dizer e aquilo que realmente os teus lábios te permitem.
I wonder, if I ever let you down. Did you keep on moving.
Preocupa-me que não te irrites, que não te salte a tampa de vez em quando. Invisto com pequenas provocações que te podiam exaltar, mas sempre encontras um caminho para contornar o assunto, e com um sorriso, sub-repticiamente mudas o tema ou terminas o anterior com uma qualquer correcta politiquice.
Silence is not the way. We need to talk about it.
É redundante querer saber mais de ti. Não vejo como, agora que já sei quase tudo. Mas há expressões que ainda não sei inteiramente decifrar. Tens esse ar de menino bem comportado – descobri que só por grande ingenuidade poderia eu pensar que seria igual em todas as circunstâncias - que raramente consegue esconder coisas tão moldáveis como a dúvida, a confusão, a emoção.
You better slow down. Don't you dance so fast. Time is short. This music won't last.
Porque raios disfarçamos nós a emoção? Deve ser dos espectáculos mais avassaladores admirar a emoção nos olhos e gestos de outra pessoa, ainda mais se provocada por nós.
Don't stop moving, you must keep on going. Don't you stop believing, you should go on dreaming.
Mas a terminar, e enquanto te acompanhava ao teu carro, do nada, contaste-me um segredo. Sem consequências, mas antigo e perdurante.
Keep me where the light is.
Sem to pedir. Abriste assim uma porta da tua casa e convidaste-me a entrar. No meio da minha estupefacção, não te consegui devolver a gentileza. Nem podia, os meus segredos serão cremados comigo.
Está na hora de ir. Porque tenho acordado vazia, vasculhado o meu peito e não encontrado lá nada que me mova. Not anymore. Porque olho ao meu redor e as paredes erguem-se nuas. Sempre a mesma metade da cama por desmanchar.
Isto não sou eu. Não é de todo esta gravidade que me mantém na Terra.
Já não vou empurrar com a barriga as coisas para amanhã, porque amanhã vai soprar o hoje e desarrumar tudo do sítio. E quando lá chegar ninguém será igual, as vozes vão ser outras, muitas delas irão silenciar-se. Não me posso mais mentir, acreditando que tenho o quer que seja por adquirido. Nada. Nem o sol, nem a água, nem o pão na mesa, nem o tecto sobre a cabeça, nem a família, nem o sangue nem, muito menos, a expectativa de vir a amar alguém.
Time is now. Eu sinto. Eu sei. Vou chorar por não te ver crescer, meu amor, meu único amor. Vai doer-me quando nos teus olhos eu for uma estranha que já nem entende a tua língua.
Vou tapar o céu azul, aterrar o rio que envolve a cidade, esconder as pessoas familiares. Vou desfazer-me dos bens, de nada me servem. Vou-me vestir de alma e deixar o corpo a quem o possa dar uso.
De fora, vou colar-me ao vidro que me separa do que ficou para trás, com a serenidade de ter vivido tudo, tão intensamente quanto pude. E ver que nada mudou, que de nada serviria ter ficado. Vou leve por não ter deixado nada por fazer ou dizer. Já não tenho idade para sentir vergonha. Que o tempo não permite. A vida hoje é o que dela reclamamos. Deixamo-la passar ao lado, agarrando-nos às coisas que nela não suportamos. E depois acaba. E depois? E o resto? Em que momento é que gastámos a nossa energia a estimá-lo? E a brisa morna no rosto? E as calças arregaçadas à beira-mar? E as gargalhadas? E os abraços? E os afectos? As interpretações?
Vou. Liberta pelo que a impotência me obrigou.
Não me vou despedir. Vou sair quando ninguém estiver a olhar. Para que haja sempre uma ténue expectativa quando procurarem o meu número num telefone.
Tentei sempre ser mais, ser melhor. Nem sempre lá cheguei. Mas ficou a intenção e o esforço. Às vezes as emoções trocaram-me as voltas. E investi a custo próprio. Umas vezes ganhei. Muitas vezes perdi. No final, mesmo as derrotas são vitórias. E é assim que guardo toda a história no meu coração. Vou sem rancores ou ressentimentos. Vou despida. Com o peito cheio das coisas boas que tive o privilégio de experienciar. Dos sorrisos das pessoas que o tornaram possível.
Chegarei disposta a beber do que a vida tiver para me brindar. Vou sem medos.
Não me vou perder de mim, continuarei a ser a mesma. Numa memória distante de quem a guardar. Vou continuar a apaixonar-me todos os dias. E vou, continuando a acreditar.
Propomo-nos imaginar que somos outros, que podíamos viver num universo em marca de água, dizemos que somos diferentes, afirmamos a pés juntos que queremos mais, defendemos que ir é menos. Na realidade somos frágeis e pequeninos e queremos agarrar com as duas mãos qualquer ligeira perspectiva que nos agite o sangue nas veias.
Neste universo, nesta realidade, somos iguais, aquilo que defendemos ser menos, para nós é o tudo. Desdenhamos quem não nos ama de volta, justificamos que ir é supérfluo, que dispensamos tatuagens no corpo e pequenos-almoços na cama, quando na realidade é isso, e só isso, que nos ocupa a cabeça, as vinte e quatro horas do dia. Batemos no peito, fingimos estar noutro patamar, que essas mundanices não nos afectam, que somos tão mais fortes, quando nem sequer temos a dignidade de assumir que é essa a nossa paixão.
É esse o cheiro, é o leite de coco, o pó talco, o óleo da pele, são esses olhos que enchem os astros, são nesses que nos vamos sempre afundar, nesses e não noutros, esse é o nosso orgulho e a única vergonha é não o conseguirmos como imaginámos.
É por todos esses pormenores que nunca, mas nunca, assumiremos em voz alta, que atiraríamos tudo ao alto por uma ameaça de hesitação. Por isso, desculpamo-nos com a areia nos olhos, quando é precisamente o vento da nossa volatilidade emocional que lá a deposita.
Podemos até não ir. Mas na realidade ninguém acredita que seja por opção própria.
Emocionalmente incapacitado. O que significa? Ser incapaz de amar? Ou ser incapaz de acreditar?
Acreditar até ao último momento, ao momento em que finalmente se chega ao destino. Aí tudo regride. Questiona-se tudo. Já não se quer o que se conseguiu, a custo. Porquê? Porque não se está preparado? Porque se perdeu capacidades? Porque se acredita com muita força que se contraiu uma doença crónica que impede de sentir emoções?
Não.
Não. É uma mentira.
Simplesmente ainda não se encontrou a pessoa certa. Nesse momento, não há medos, não há impossibilidades, incapacidades, problemas e merdinhas que impeçam a pessoa de avançar, antes pelo contrário.
Enganem-se o que quiserem, esta é a mais pura das verdades.
Friday, May 4, 2012
Há sempre um momento na vida em que conscientemente temos de tomar uma decisão. A decisão. E não vai ser fácil.
Temos de ir. Pior. Temos de partir. E é nessa altura em que temos de separar quem queremos levar connosco de quem teremos de deixar para trás.
Travel light. Como escolher? Como decidir sobre quem nos fará mais falta e quem só sentiremos um bocadinho de saudades? Como impedir que as nossas emoções traiam os sentimentos puros?
Se tivermos sorte, será uma ou a outra categoria de pessoas que nos ajudará nessa tarefa. Mas, a palavra final, seja baseada numa ponderação verificável, ou no mais básico dos instintos, será nossa.
Há coisas de que nunca mas nunca abdicarei. Há outras que já o fui aprendendo a fazer ao longo do tempo.
Medo. Paralisia. O silêncio. E se errar? E se tomar uma má decisão? Daquelas que não têm volta?
Olhos enchem-se de lágrimas. Os meus. Outros de indiferença. De estranheza. Como os trocaria pelo ódio e pela raiva. Qualquer coisa que ainda enquadrasse o amor.
Por muita família ou amigos que haja, estamos sempre sós nos piores momentos. Especialmente numa sala cheia. Ou num abraço de grupo. Somos nós e só nós. A nossa consciência. A nossa culpa. A nossa tristeza. Toda essa dor será a nossa fiel companheira durante o período que for preciso. E sabemos, um dia depois do outro, que ainda precisamos de mais um. E nesse, vamos precisar de mais outro. E sabemos que cedo não vai aliviar. Sabemos que piora antes de melhorar. Sabemos que chegará um momento em que o nosso peito vai rebentar de tanto latejar. Queremos álcool, comprimidos, saídas fáceis para algo que não escolhemos. Para uma espécie de adição sentimental. E depois um espelho que nos lembra que não é possível.
Queremos sair na próxima saída, onde está o botão?
Não. Não há botões nem coletes salva vida.
E se me amarem como eu quero acreditar que sim, vão-me dizer que é isto que vai acontecer. Não me poupem da verdade, que eu também não a pouparei de mim.
Ir é apenas uma forma de não parar. Mexer, procurar, esticar o pescoço para cada sítio improvável, na busca da promessa na qual nos obrigam a acreditar, tantas foram as vezes que a nos impingiram “quando menos esperares”, pois tomem lá de volta as vossas frases feitas, que de chavões estão as pessoas solitárias cheias.
Vamos, porque temos de ser movidos, temos de sentir essa urgência de sair à procura da irracionalidade que se sacia com unicamente um olhar.. vamos, porque não ir é deitar a toalha ao chão ao amor, ou pior, à sua pequenina possibilidade. Vamos porque queremos sentir, muito, tudo, ou pelo menos qualquer coisa. Qualquer coisa que não doa, qualquer coisa alcançável, que estamos cansados de lutas perdidas e da determinação com que levamos, voluntária e sistematicamente, a cabeça contra muros de gelo. Vamos porque acreditamos que o amor é uma conta probabilística e encontrar isso, e recebê-lo de volta, é uma lotaria que se ganha para a vida.
Vamos porque é a maneira mais rápida de se substituírem afectos.
Vamos, nem que seja para voltarmos. Vamos, nem que seja para retornarmos aos mesmos sítios, para concluirmos que continuamos agarrados aos mesmos vícios, às mesmas conversas, aos mesmos sorrisos, aos mesmos cheiros. Vamos, porque não ir é “colocar-se a jeito” de um dia que se queira, não se consiga de todo partir.
Não sei de onde surge este vício de escrever. De forçar palavras numa tela, misturá-las com algum sentido, e um nadinha de estilo, e em tentar que digam algo para além delas próprias. Que me digam algo sobre mim, algo que eu ainda não saiba ou que eu não consigo bem entender.
Muitas vezes, de tanto escrever, acho que se me esgotam as linhas e os sentimentos que tento que desenhem numa recta, que vão ter a algum sítio de útil, ou pelo menos para fora da minha cabeça.
Sei que posso aparentar algum - muito - pretensiosismo.
Enquanto isso arde qualquer coisa ao lume, qualquer coisa que me obriguei a cozinhar para mim e a qual não tenho a mínima intenção de comer. Não sozinha. Reconheçamos crédito à religião pela sublimidade da partilha do pão e do vinho.
Metade das vezes acho que sou. Mas na outra metade delas, venho a comprovar que não. Estou ainda no limbo da descoberta. A pender, todavia, para a minha mortalidade. Tenho de ceder à vulgaridade da expectativa e do quanto ela se pode transformar na petulância do sexto sentido.
Mais uma vez falta-me o vinho. Apesar de pobre, há uma certa magnanimidade num cálice solitário de vinho à beira de um teclado.
Posto isto, vou resignar-me à luxúria da pretensão do ser humano. Não sou mais nem melhor que ninguém.