Wednesday, May 16, 2012

A propósito de uma lamentação ao telefone

Não me falem de amor, estou cansada de ouvir, falar, escrever, procurar, respirar e de querer amor. O amor deixa-me exausta, especialmente quando não está lá. 
Esqueçam o amor, esqueçam o que é, como faz doer, e do bem que sabe essa dor. Esqueçam essa comichão que vos faz arrancar a pele e, mesmo em sangue, alivia. Parem de desejar que vos troquem a água, o pão, a cama, o sangue por uma gota de amor que se dilui em cinco minutos num gin tónico. Deixem de o procurar, ele não está "ao virar da esquina" (que absurdo isso é), ele não está "mesmo à frente dos nossos olhos", nem atrás da porta, nem do outro lado da janela, nem debaixo da cama e muito menos dentro dela. Irrita-me essa incompetência sentimental que desespera pessoas a "procurar o amor", essa ignorância que os faz acreditar que o vão encontrar "quando menos estiverem à espera." Quem pensa assim, não merece o amor, não é digno de o sentir, ainda menos de ser o objecto desse sentimento. Despedia-os a todos desse cargo, retirava-lhe à séria a capacidade emocional, e aí iam ver o que era bom para a tosse. Agora choras com vontade, agora que não consegues sentir. 
Sentir é uma opção, uma pré disposição, uma abertura, um sorrir da alma, um piscar de olho à vida, um atirar-se num mar bravo sem prancha, um saltar de penhasco sem pára-quedas, um andar descalço na rua, um dançar sem roupa à janela, um sorrir quando perceber nos observam, um dar a mão a quem nos procura, um chupar um limão azedo sem pestanejar. É tudo isso e mais. O amor está dentro de nós. Somos nós que puxamos o amor quando altruistamente o resolvermos dar, o amor é dar, dar, dar. Raramente receber. Mas dar na mesma. Não o procurem, por amor de deus, se não está dentro de vocês, se não está na pele, na linfa, no sangue, no estômago, nos pulmões, nos músculos, no esqueleto, na cabeça e no peito, em todos os momentos. 
Vão ser frustrados para o raio que vos parta que eu não tenho comiseração nenhuma por quem não ama. Não tenho pachorra para essa conversa da treta. Não me macem mais com isto.
You get what you give.

Façam o favor de ir aprender esta lição e, já que aqui é claramente inútil, apliquem-na na próxima encarnação. Voltamos a falar nessa altura, quando todos formos gatos.


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