Tuesday, May 22, 2012

As paredes têm voz


As cadeiras, de mãos dadas, saltitam à volta da mesa, a coberta levanta-se e dança à janela, fita os meus olhos e, com um ar jocoso, faz-me um sinal para que não me levante do chão. Eu, no chão, abraço os meus joelhos, para que a dor passe, para que me concentre no alívio, que não chega, que não me toca, que não me visita, a dor, aqui e ali, em todo o corpo, qual corpo, as náuseas e a constante vertigem que me gravitam ao chão. A cabeça a expandir-se do lado de dentro.

As vozes, essas não se calam, murmuram, baixinho, várias coisas em simultâneo, tento segurar uma e persegui-la, só essa, só uma, para entender o que me quer dizer, mas não consigo, não é possível, outras sobrepõem-se, num novelo cada vez mais compacto de ideias.

Grito para me libertar, mas ninguém me ouve, estou isolada entre estas paredes.

Quase que posso tocar numa imagem etérea, que não é real, mas que me surge, translúcida, pairando sobre a minha cabeça. Quanto tento alcançá-la tudo se desfaz. 
E finalmente, um silêncio que, também esse, não consigo suportar. 


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