Thursday, May 17, 2012

Nem a propósito

Escreve o Pedro Chagas Freitas:

"É-S-U-M-B-U-R-R-O
Só os burros é que são infelizes. Mais uma vez: só os burros é que são infelizes. Ainda mais uma: só os burros é que são infelizes. Sim: os burros. Os jumentos. Os cérebros de caca. Os calhaus com olhos. Ainda não entendeste porquê? Pois. Já suspeitava. Seu, seu. Seu. 
Cá vai: andaste, desde sempre, a acreditar que a infelicidade, a depressão, a melancolia e essas merdas todas eram sinónimo de inteligência: sinónimo de que eras alguém com cérebro e que, coitadinho, de tanto ver o que os outros não vêem, de tanto observar o que os outros não observam, percebe que a vida não faz sentido e que viver não vale a pena. Era isso, não era? Lias o Fernando Pessoa a queixar-se da vida e da falta de sentido para a existência humana e pensavas: chiça, afinal eu sou um génio, afinal eu também sofro por ver que o mundo faz doer e que viver faz sofrer. Pois bem: és um verdadeiro jumento. Um burro. Um calhau. E dos bem duros. Agora com todas as letras: é-s-u-m-b-u-r-r-o. Um burro. Ainda não entendeste? Pois. Já suspeitava. Seu. 
A genialidade não é escrever livros que fiquem para a história, nem pintar obras-primas, nem inventar curas para doenças, nem resolver problemas que mais ninguém consegue resolver. A genialidade não é fazer facilmente o que para os outros é difícil – muito menos é conseguir fazer o que para os talentos é impossível. Não. Não. Não. Não. A genialidade não é fazer bem, nem inventar bem, nem solucionar bem. A genialidade, essa genialidade, é uma burrice pegada. A genialidade verdadeira – fixa isto como se fosse (e é mesmo) a mais importante lição que algum dia recebeste – é viver bem. A genialidade é saber viver. Isso sim: é genial. E, se não sabes viver, por mais obras-primas que cries e mais invenções que descubras, não passas de um burro, um jumento – e aqueles nomes lindos que já te chamei há pouco. És isso tudo. Não passas de isso tudo se não sabes viver e ser feliz por dentro do viver. E são a mesma coisa: viver implica ser feliz por dentro do viver. Porque viver é ser feliz. O resto é vivar, vivir, vovir, vuvur, vuvir e mais o catano que lhe quiseres chamares. Tudo o que não seja viver com felicidade não é, sequer, viver. Manda as obras-primas para o raio que as parta. E aprende a ser genial como o Fernando que foi pessoa e não como o Fernando que se chamava Pessoa. Ser pessoa custa muito mais do que ser génio. Ser pessoa – e viver como pessoa – é muito mais genial do que qualquer livro ou pensamento que possas criar. Ser pessoa é difícil comó caneco. E tu és asno comó caneco se ainda não o entendeste. Seu. 
Aprende sem perderes nem mais um segundo, nem mais um respirar. Aprende já: não se derrota a matemática. Não se derrota o que só tem de ser, o que nunca vai deixar de ser. Não se derrota o que é – e que, porque ainda não aprendeste o que acabei de te dizer, te impede de te seres o que és. O grande segredo da felicidade não é – como os pseudo-génios da infelicidade defendiam e defendem – não pensar. O grande segredo da felicidade é dis-pensar. Dispensar o que é dispensável: o que nasceu para ser dispensável. Só quem dispensa o que tem de ser dispensável é que é feliz. E só é capaz de dispensar quem sabe pensar. Pensar a sério. Só os génios dispensam. Qualquer burro é capaz de pensar. Mas dispensar está reservado a uma elite de predestinados. A uma elite de felicinados: de alienados de felicidade. A vida é para ser vivida. A vida é, mais do que todas as bujardas que os filósofos tristes (os tristes filósofos) escrevem sobre ela, uma bênção, uma danada de uma felicidade. Uma bênção que te devia deixar aos saltos só por teres o privilégio de aqui estares: a vivê-la, a sê-la, a degustá-la. Estar vivo é o único motivo de que precisas para viver. E não entender isso é de uma burrice que eu nem sequer entendo. Seu, seu, seu. Seu. 
Dispensa o que não tem solução. A matemática é a mais social das ciências: a mais humana das fórmulas filosóficas. A matemática ensina-te que há verdades universais. Ensina-te que há factos objectivos: factos que são e que nada pode fazer com que deixem de ser. E o grande segredo da felicidade é perceber que, se nada podes fazer para mudar alguns factos, nada deves fazer para tentar mudar alguns factos. O grande segredo da felicidade é concentrares-te naquilo que podes mudar. E dispensar perder um milésimo de segundo que seja naquilo que não podes mudar. Sabes que espetar uma faca na pele dói – e por isso não espetas. Então porque é que - mesmo sabendo, tantas vezes, que dizeres ou fazeres ou escolheres um determinado caminho te dói - continuas a dizer e a fazer e a escolher esse determinado caminho? Diz comigo: “eu sou burro”. Outra vez: “eu sou burro. Eu só posso ser burro sempre que penso que não dispenso. E que posso ser feliz se não dispenso aquilo que tenho de dispensar”. De novo: “eu sou burro”. Só mais uma: “eu sou burro. Burro” Seu, seu, seu. Seu. 
Para fechar esta trampa destas palavras (porque tenho muito que viver e ser feliz e não quero perder mais tempo contigo), assimila isto: acreditares que alguém que passou os seus dias infeliz é um génio do entendimento da vida é como acreditares que é um génio das letras alguém que não sabe escrever. Ou que é um génio dos números alguém que não sabe contar. Acreditares que um desgraçado que passou a vida a sofrer é um génio e sabe mesmo ensinar-te o que é viver é estúpido, é palerma, é imbecil. E é sobretudo a prova de que estás, na verdade, ao mesmo nível dele. O que talvez explique o porquê de preferires chamar-lhe génio. Seu burro." 

Obrigada, Pedro. É isso.

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