Propomo-nos imaginar que somos outros, que podíamos viver num universo em marca de água, dizemos que somos diferentes, afirmamos a pés juntos que queremos mais, defendemos que ir é menos. Na realidade somos frágeis e pequeninos e queremos agarrar com as duas mãos qualquer ligeira perspectiva que nos agite o sangue nas veias.
Neste universo, nesta realidade, somos iguais, aquilo que defendemos ser menos, para nós é o tudo. Desdenhamos quem não nos ama de volta, justificamos que ir é supérfluo, que dispensamos tatuagens no corpo e pequenos-almoços na cama, quando na realidade é isso, e só isso, que nos ocupa a cabeça, as vinte e quatro horas do dia. Batemos no peito, fingimos estar noutro patamar, que essas mundanices não nos afectam, que somos tão mais fortes, quando nem sequer temos a dignidade de assumir que é essa a nossa paixão.
É esse o cheiro, é o leite de coco, o pó talco, o óleo da pele, são esses olhos que enchem os astros, são nesses que nos vamos sempre afundar, nesses e não noutros, esse é o nosso orgulho e a única vergonha é não o conseguirmos como imaginámos.
É por todos esses pormenores que nunca, mas nunca, assumiremos em voz alta, que atiraríamos tudo ao alto por uma ameaça de hesitação. Por isso, desculpamo-nos com a areia nos olhos, quando é precisamente o vento da nossa volatilidade emocional que lá a deposita.
Podemos até não ir. Mas na realidade ninguém acredita que seja por opção própria.
Reconhecer e aceitar isto, é ser maior.
No comments:
Post a Comment