Está na hora de ir. Porque tenho acordado vazia, vasculhado o meu peito e não encontrado lá nada que me mova. Not anymore. Porque olho ao meu redor e as paredes erguem-se nuas. Sempre a mesma metade da cama por desmanchar.
Isto não sou eu. Não é de todo esta gravidade que me mantém na Terra.
Já não vou empurrar com a barriga as coisas para amanhã, porque amanhã vai soprar o hoje e desarrumar tudo do sítio. E quando lá chegar ninguém será igual, as vozes vão ser outras, muitas delas irão silenciar-se. Não me posso mais mentir, acreditando que tenho o quer que seja por adquirido. Nada. Nem o sol, nem a água, nem o pão na mesa, nem o tecto sobre a cabeça, nem a família, nem o sangue nem, muito menos, a expectativa de vir a amar alguém.
Time is now. Eu sinto. Eu sei. Vou chorar por não te ver crescer, meu amor, meu único amor. Vai doer-me quando nos teus olhos eu for uma estranha que já nem entende a tua língua.
Vou tapar o céu azul, aterrar o rio que envolve a cidade, esconder as pessoas familiares. Vou desfazer-me dos bens, de nada me servem. Vou-me vestir de alma e deixar o corpo a quem o possa dar uso.
De fora, vou colar-me ao vidro que me separa do que ficou para trás, com a serenidade de ter vivido tudo, tão intensamente quanto pude. E ver que nada mudou, que de nada serviria ter ficado. Vou leve por não ter deixado nada por fazer ou dizer. Já não tenho idade para sentir vergonha. Que o tempo não permite. A vida hoje é o que dela reclamamos. Deixamo-la passar ao lado, agarrando-nos às coisas que nela não suportamos. E depois acaba. E depois? E o resto? Em que momento é que gastámos a nossa energia a estimá-lo? E a brisa morna no rosto? E as calças arregaçadas à beira-mar? E as gargalhadas? E os abraços? E os afectos? As interpretações?
Vou. Liberta pelo que a impotência me obrigou.
Não me vou despedir. Vou sair quando ninguém estiver a olhar. Para que haja sempre uma ténue expectativa quando procurarem o meu número num telefone.
Tentei sempre ser mais, ser melhor. Nem sempre lá cheguei. Mas ficou a intenção e o esforço. Às vezes as emoções trocaram-me as voltas. E investi a custo próprio. Umas vezes ganhei. Muitas vezes perdi. No final, mesmo as derrotas são vitórias. E é assim que guardo toda a história no meu coração. Vou sem rancores ou ressentimentos. Vou despida. Com o peito cheio das coisas boas que tive o privilégio de experienciar. Dos sorrisos das pessoas que o tornaram possível.
Chegarei disposta a beber do que a vida tiver para me brindar. Vou sem medos.
Não me vou perder de mim, continuarei a ser a mesma. Numa memória distante de quem a guardar. Vou continuar a apaixonar-me todos os dias. E vou, continuando a acreditar.
Que um dia, eu sei, vai ser para sempre.
Gostei! E, feliz ou infelizmente, também eu podia ser o personagem-narrador desta história.
ReplyDeletePois.. o corpo ainda cá está. A cabeça, cada vez menos.
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