Thursday, January 26, 2012

Pensamentos que não são para ler

Olho para as minhas fotografias e não me reconheço. Aquela não sou eu. Sou apenas o que tento ser para os outros. É certamente como as pessoas me vêem. E há um exercício que me assalta o pensamento. E se eu desaparecer? Se eu deixar de existir? 
Nada. 
A terra continua a girar, as pessoas vão continuar a sair de manhã, a correr freneticamente para o trânsito, já fora do tempo combinado para alguma coisa, há sempre uma hora marcada, mecanicamente a beberem os seus cafés, a recusarem calorias, ou a ingeri-las compulsivamente que já ninguém tem saúde emocional, faz parte, o café e o comprimido. Estimulantes, a forçarem a concentração, a imitarem a felicidade, a ocultarem as reflexões que isso é coisa de gente deprimida, esgotada e doente e não se pode incomodar os outros com a tristeza, esse bicho epidémico a que todos temos aversão, que as pessoas têm de conseguir ter conversas de ocasião, discursos comerciais, atender telefones, ser pressionadas a diluir a sua individualidade, a darem tudo o que têm e um bocadinho mais, porque tudo não chega.
Se eu morrer amanhã, o crime vai continuar, a crise vai persistir a aniquilar a espontaneidade dos seres humanos. Se eu desaparecer, vai continuar a fazer frio sem chover. Amores vão ser encetados, outros vão-se desapaixonar. 
Gostava de saber as vidas que eu toquei. Será que consegui inspirar alguém? Terei sido o suficiente para deixar uma emoção confortante no peito de alguém?
E o amor? Ninguém deve morrer sem ter sido perdida e profundamente amado. Será que a minha falta seria sentida? Para além da secretária vazia no escritório? Será que eu fui mais do que isso?
Se eu morrer à noite, só seria encontrada no dia seguinte, pela hora do almoço. Se morrer durante o fim de semana, só dariam por mim na segunda-feira seguinte, quando precisassem de uma daquelas coisas que faço para desenrascar os colegas.
Acredito que a vida e a morte não significam nada. Os que vão ficando, entre uma coisa e outra, apenas perdem tempo a tentar ganhá-lo. Só a vida pode dar importância à morte. É a única luta em que entramos a pés juntos para perder. 
Vistas as coisas, tive experiências muito boas, outras más. Ri muito, chorei mais. Perdi-me tantas vezes. Fui-me encontrando nos outros. Quase tive uma vida antagónica da minha. Apaixonei-me. Uma vez. Enganei-me em todas as outras. Fiz as escolhas que pude. Quando não pude, foram as escolhas a fazer a minha vida. Com o tempo, fui-me esquecendo de algumas coisas importantes. Daqueles pormenores que gostava de imortalizar no meu pensamento. Porque entre a imortalidade e o vazio, há um grau de incerteza que prefiro acautelar.
Quais são os pormenores que irão guardar de mim? As coisas pequeninas.. Não me prendam numa moldura empoeirada, esquecida por detrás dos bibelots, do cinzeiro e da caixa de rebuçados em cima de num louceiro sem uso.
Se eu morrer, libertem-me. Abram a janela, deixem a luz do sol entrar. Inspirem o cheiro da primavera e do asfalto amornado. Deixem-me partir.
Se eu morrer, amanhã ou no dia a seguir, fisicamente ou apenas no coração de alguém, não chorem por mim. Se eu fui alguém, sorriam ao lembrar-se de mim.

Wednesday, January 25, 2012

Ainda hoje me surpreendo com a genialidade das pessoas das quais acreditava já conhecer tudo. Estou muito grata por tê-las a orientar o meu caminho. Impressiona-me a simplicidade com que as pessoas geniais falam de coisas importantes como se, porventura, fosse fácil. Se prestarmos atenção, vemos nos seus olhos que não o é. Falam da vida usando palavras simples, sem figuras de estilo, sem jogos de semântica. As coisas são o que são. Efectivamente. E porque falam de sentimentos. Sem pretensiosismos. Sem falsas modéstias. Sem condescendências. Falam com toda a legitimidade que têm. E têm-na. Porque usam nas palavras a sabedoria que ganharam com a experiência que lhes saiu da pele. E partilham-na, podendo eu fazer o uso que dela entender. E bem sei que a maioria das vezes, não o faço como devia. Ou como podia. Desculpa-me por isso. Mas também quero lá chegar.
Quanto mais cresço, vendo-te acompanhar-me no percurso, com as mãos de prevenção às minhas quedas, mais quero ser como tu. Interferindo o mínimo possível. Apoiando-me com quantas forças tens. Não as vais ter por muito tempo. Sei que essa escolha, muitas vezes te faz lutar contigo próprio. Sabes que te admiro? Que és das minhas pessoas preferidas em todo o mundo? Gosto genuinamente de ti. Não pela condição que a nossa relação impõe. Porque gosto da pessoa que foste sendo. Em que te tornaste. 
Se não tiver outro sítio, outro espaço, outra oportunidade para o dizer, quero deixá-lo bem claro. Amo-te. Muito. Tanto... É um amor que me preenche, que me alimenta. É um amor desinteressado e incondicional. Um amor maior que eu. Que tu. A tua disposição, a tua saúde, o teu bem-estar, a tua felicidade, são os meus. Não consigo imaginar que pudéssemos ser diferentes. Tu e eu. Tantas vezes o desejei. Foste tantas vezes duro comigo. Implacável. Porque achavas que tinhas de ser assim. Odiei-te tanto. E amei-te. E voltei a odiar-te. No fim, amo-te sempre. Para sempre. O que quer que faças. Para onde quer que vás. O que quer que digas. Quanto quer que me magoes. Vou amar-te para sempre. Fizeste-me quem sou. Mostraste-me o mundo. Ensinaste-me a ser sensível, ainda que me gritasses para não o ser. Porque o és mais que eu. Contigo percebi que sensível não é quem chora. É aquele que contem as lágrimas para não fragilizar quem dele depende. Custou-me tanto que, por mim, não pudesses chorar.
Ofereceste-me a música, a literatura, a beleza, a natureza, as cidades, o mundo. A exigência. A ambição. A liberdade. Querias tanto a minha liberdade. E hoje, por tua causa, não me consigo prender. Porque me deste fome de mundo e de vida e de gente. Ensinaste-me que eu sou mais, sempre mais do que vejo. E que posso tudo. Forçaste-me a andar. Pelos meus pés, através dos teus olhos. Deste-me tudo. Tudo. Tudo. Não preciso de mais. Só de ti. Sempre aqui comigo. Prometes? Jura-me a pés juntos que te vou ter sempre.  Faças o que fizeres. Pois não existo num universo onde tu não estejas. Eu sou tu. 
Pai.

Monday, January 23, 2012

Homem Bicho. Mulher Princesa.

Tenho vindo a observar algumas histórias, umas alheias, outras nem tanto, que me levaram a rascunhar as próximas linhas. Onde eu passar a falar na primeira pessoa do plural, é meramente porque me incluo no género e não, necessariamente, nas ilações. Perdoem-me as excepções, que devida justiça tem de lhes ser feita! Talvez outro dia. Hoje não me apetece pensar muito. Nem dar muito que pensar.

As mulheres são seres superiores, dotados de capacidades extra sensoriais não tangíveis pelo Homem. As mulheres têm a capacidade extraordinária de amar, odiar, cobiçar e desdenhar um só homem, ao mesmo tempo. Os homens não. Ou amam, ou não sentem nada. Ou acham graça, ou piada nenhuma. E para eles, esta distinção é relativamente simples. Para as mulheres, antes de chegarem a qualquer uma das conclusões, há toda uma cenarização prospectiva a ser empreendida. Os defeitos, as qualidades. O tempo que demora a mudar o que não gostamos neles. As suas acções, as reacções. Os objectivos profissionais a curto, médio e longo prazos. A família. A transponabilidade do amor pela mãe. A referência do pai. O sucesso do irmão. O número de filhos que quer ter e a sua compatibilidade com o nosso relógio biológico e com a quantidade de silhueta de que estamos dispostas a abdicar. A pinta dos amigos e as várias formas de o afastar deles. Depois há as mãos, os olhos, os lábios, o beijo e, com um bocado de sorte, o rabo. 
Todas juramos a pés juntos que os nossos melhores amigos são os homens. As mulheres são umas invejosas com as quais nós, que representamos toda e qualquer antítese a isto, não nos conseguimos relacionar. Pois somos demasiado inocentes. Queremos ser tratadas por eles como "buddies" e "beer pals". O que, depois, não conseguimos conceber é que todos os homens que conhecemos, amigos ou nem por isso, não estão perdidamente apaixonados por nós. Afirmações como "amiga é homem para mim" ou "és um miúda engraçada" são declarações de guerra. Sobre estas propomo-nos, sem grandes ponderações, a fazer a vida negra a um homem, até ao fim. E a nossa vingança não conhece limites. Ainda assim, os homens raramente odeiam porque, distraídos no seu pragmatismo, não conseguem encontrar motivos suficientemente relevantes para se darem a esse trabalho. Nós conseguimos odiar à mínima coisinha, sem fundamento nenhum. 

Os homens são coerentes, dizem o que sentem, ou não sentem, e adoptam à risca um comportamento em conformidade. Nós não. Detestamos a coerência, a congruência, correspondência, concordância, nexo, contexto e tudo o que tenha a ver com sentido prático ou orientação. Nunca dizemos o que sentimos e quase nunca sentimos aquilo que estamos a dizer. Porque achamos que cabe ao homem fazer a sua aritmética. Damos dicas e mais dicas, sempre contraditórias, e não percebemos porque é que raios, ainda assim, não chegam lá. Por exemplo, como é que se atrevem a ir-se embora quando nós mandamos? 

Por estas e por outras achamos os homens uns totós, ignorantes, insensíveis, malandros, aproveitadores, sacanas, mentirosos. Nem os queremos ver à frente. E até fazemos tréguas, com a loira irritante e gira, de pernas compridas, que odiamos lá no escritório, para falar mal deles. 

Só há uma maneira dos homens agirem de modo acertado com as mulheres. Sintam, nos vossos corações e intelecto o que faz sentido para conquistarem a mulher que vocês amam e que vocês até já começam a conhecer.. e façam exactamente o contrário.
Raios partam as mulheres.

Saturday, January 21, 2012

Can I forgive you? Can I ever put you in that place where I lay down my guard entirely for you again? Can I actually feel, beyond all reasonable doubt, that I can find a place in my heart to turn around to see you as the man I used to love? I don’t even know if there's anything to forgive, besides life and what it does to people. Life changes our hearts. Life makes us say and do things that we've never thought to say or do. Life puts a constant test to ourselves. But it stands a greater challenge to love.
We often make promises in the heat of passion that we don’t live up to keep. And we don’t forgive unfulfilled promises, especially the ones on which we can’t see any effort taken.
Perhaps I should step aside, just for a little while, only to put our years together under perspective. You were there for so many milestones. You’ve helped me write my story. You’ve changed it permanently, as I change yours.
I can’t promise you anything I might fail to keep. Only that I won’t give up easily. There’s an ironic force on the universe that keeps me from walking away. Even after watching you, so many times, too many times, walking away from me. I know you love me, I do, probably almost as much as I do you. But there’s a horror movie going, time and time and again, over my head in which I end up alone, lying on the cold floor, holding my knees, weeping my heart off out of pain, hate, fear and resentment of having you leaving me so easily, so lightly. I’ve hated you so much for that. For not loving me enough, for not fighting for me harder, for not preventing my tears, for not protecting me from all the world’s harm that hurted me so. But I guess you’ve hurted me more. Because you’ve promised me never to let anything water my eyes. So, can I sincerely, and with all my heart, forgive you? Do you want to be forgiven?
I really don’t know. But I’ll keep on trying. At least for as long as I can’t let you go.
Hoje acordei sem vontade acordar. Ontem recordei-me de assuntos dolorosos que tinha arrumado numa gaveta fechada à chave, julgava eu, e hoje ainda estou a pagar essa factura. Precisava de um empréstimo, porque é mais cara do que a liquidez que tenho. De manhã, abri os olhos, acendi a luz e aconteceu algo que nunca, mas nunca, me acontece. Não saltei com energia para fora de cama para abraçar as manhãs, que tanto adoro. Tinha sobre o meu corpo um peso anormal. Deixei-me estar. Mas não passou. O telemóvel tinha várias mensagens. Pessoas que me solicitaram, durante a noite, de formas diferentes. Não me apetecia falar com nenhuma delas. 
A custo levantei-me e fiz o que tinha de fazer. Maquinalmente, tratei da roupa, a loiça dos dois dias anteriores. O banho que não tinha vontade. O cabelo que dá demasiado trabalho. Olhei-me no espelho e vi traços no rosto que se foram instalando quando eu não estava a ver. Levantei o cabelo dos ombros e imaginei-me sem ele. Cheguei a agarrar a tesoura. Mas depois faltou-me a coragem.
Peguei no telefone e procurei uma amiga de longa data. Perguntou-me como estava o meu tio, e com a pergunta, um murro no estômago. O meu tio já não está cá, disse-lhe eu o mais isenta que pude. O silêncio do outro lado. Querida, não sabia, desculpa. Pensei para mim, eu também não. Tento não saber, não me lembrar. Alguém me confirmou que ele já não está entre nós, mas acho impossível de acreditar. Acho abominável  a audácia da vida, do destino, de Deus, do que quer que seja que deposita os seus pozinhos negros sobre pessoas cheias de vida e as condena, sem justificação à inexistência. Eu nem acreditava em Deus. Mas acho que vou passar a acreditar só para passar a odiá-lo durante o resto dos meus dias. Não o perdoo. Mas que merda anda ele a fazer? Nos últimos tempos levou-me a minha ama, o marido dela, a minha colega de faculdade. E agora o meu tio. Ando eu a tentar privar-me dos impulsos, a pautar-me por valores, aqueles que também a igreja vende, a verdade, a solidariedade, a verdade, a justiça, o perdão, que não consigo porque sou imperfeita. Não consigo sempre fazer o que está certo. Mas há pessoas que o conseguem sem esforço. E foram essas pessoas que tu levaste. Não o admito! Não aceito. E por isso podes mandar-me para o inferno que eu não quero saber. Também não quero a imortalidade ao lado de um ser  arbitrário e caprichoso. Não aceito os teus desígnios. Só conheço as linhas tortas onde escreves. E já erraste demais.
Pode parecer, mas não me desviei do assunto inicial. Tudo isto é a morte. Continuem as pessoas a existir ou não, ainda não aprendi, depois de 32 anos a tentar, a deixá-las partir. Preciso de todas elas para continuar a ser quem sou. Eu não sou eu, sou um somatório trabalhado das várias pessoas que amo. Cada bocadinho da minha personalidade é construído sobre isso. 
Porquê que as pessoas morrem de amor? Porque, juntamente com essas "mortes", vão sendo despojados, bit by bit, das várias peças que as constituem. Até ao limite em que deixam de ser o que são e se entregam ao vazio.

Friday, January 20, 2012

“Porque é que te irrita tanto a conversa do anel?”
Porque um anel não é um cilindro que enfeita o dedo. Não é uma jóia que concorre em preço e em brilho com outras. Não é algo que mostro de mão esticada, histérica às amigas em conversas fúteis, que não tenho, sobre vestidos de noiva, quintas, brindes, convites, fotógrafo e bandas.
Para mim um anel, O anel, é um símbolo. Um gesto. É um piscar de olho que alguém tinha que me ter dado para que ambos soubéssemos que éramos um do outro. Só, um do outro. É uma carícia na cara, um beijo na testa, um abraço longo. É um significado. Eu sou dele e ele é meu. Porque eu sou a mulher privilegiada com quem ele escolheu passar o resto dos seus dias. Eu vou ser a mãe, dos filhos, e um pouco a dele também. Vou ser os lábios que tiram temperaturas nas testas, que mudam fraldas, que fervem biberões. E ainda vou ser mulher. A mesma que vai desejar o mesmo homem todas as noites. Que vai pedir com jeitinho algumas bricolages, mesmo aquelas pequeninas que eu conseguia fazer. E as difíceis que apenas ele consegue fazer. E não criticar quando não correrem bem. Vou ser a mulher que apoia as decisões dele, mesmo que não concorde plenamente, porque tem de haver unanimidade. E ele vai ser o pai. O pai pode-se perder nos caminhos, pode teimar em não pedir indicações, pode irritar-se no trânsito, pode até ter a última palavra. E eu vou deixar, porque vou continuar a ser a mulher. Dele. Só dele e dos nossos filhos.
Vou acalmar o temperamento com um beijo na testa, um copo de vinho e duas cadeiras ao por do sol. Porque vamos conseguir superar a enfermidade da rotina, e roubar tempo só para os dois.
Porque me irritam as conversas sobre anéis? Porque munida de todas essas convicções, segura de ter sido escolhida como essa mulher, fiz o pedido. Não o casamento, mas o de futuro comum, viesse ele como viesse. E o pai não aceitou. “Não estás preparada para uma coisa dessas. Não me pressiones, tira isso da cabeça, nunca me vou casar, nem contigo, nem com ninguém. E é bom que este assunto morra aqui.”
Porque eu não tenho o anel. E já nem o quero. Porque um anel, O anel, seria um piscar de olhos do homem que nunca os chegou a abrir para mim.
Portanto, se não te importas, não quero falar. Não quero contaminar a tua felicidade com a falta da minha.
Hoje estou só a fazer tempo de chegar a casa. Tirar o sorriso descartável que usei o dia todo e, finalmente,   chorar.

Obrigada, MEC. Era mesmo isso.

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'

Thursday, January 19, 2012

Uma questão de números

Hoje cresci mais um bocadinho. Talvez apenas meio milímetro, um comprimento que não se vê.
Acordei, fora de horas, levantei os estores da janela, deixei o sol dourar a parede branca do meu quarto e, sobre ela, vi uma série de imagens desorganizadas, um conjunto de frases, excertos de conversas, retalhos de acontecimentos passados que, sob a minha fixação atenta, se reorganizaram num padrão que subitamente fez sentido.
Não foi preciso muito, apenas distância na dose certa. Retirar o excesso de ansiedade e uns pozinhos de envolvimento. O mais curioso é que temos sempre a resposta às nossas perguntas, podemos é não conseguir encontra-la de imediato por não ser aquela na qual queremos acreditar. Mas as mensagens estão lá todas, nos mais pequenos detalhes das reacções do próprio corpo. Um sorriso. Um esgar. Um franzir de testa, levantar de sobrolho, uma comichão na cabeça, um calor no peito, um tique nervoso, uma urgência de qualquer coisa. E, ainda assim, viramos pedras à procura das nossas respostas. Não da verdade, mas das respostas que precisamos de ter. As mentiras. Os nossos auto-logros privados.
Colocamo-nos atrás de um fila, sem saber porquê. Sem conhecer o produto. Mas quando a procura é grande, seja a oferta a que for, isentamo-nos dessa matemática interna e aplicamos de cruz essa lei elementar da economia. Mais tarde, vamos buscar o resultado das contas. 
O mais difícil é deixar a natureza seguir o seu curso. Mesmo tendo a capacidade de o mudar. 
Passo atrás. Observar. Fazer nada. E cruzar os dedos.

Wednesday, January 18, 2012

Sou uma pessoa intuitiva. Toda a gente que me conhece já o percebeu, de uma maneira ou de outra. Não consigo evitar. Tenho sensações que me avassalam sem eu sequer fazer determinadas perguntas. E vejo um bocadinho mais. Desde que eu não esteja emocionalmente envolvida, consigo perceber como determinadas coisas vão acontecer. Não me perguntem como, nem porquê.
Por isso me é tão difícil observar, de fora, determinadas situações sobre as quais tenho opiniões, pouco ou nada fundamentadas em factos concretos, mas apenas em sentimentos (o “feeling” não pode ser traduzido ipsis verbis). Não me posso manifestar ou intervir, não tenho esse direito. Tenho de me manter distante, embora atenta, impotente a acompanhar os erros, os enganos, as decepções, as más escolhas dos outros sem me intrometer demasiado. Para que não seja mal interpretada. E ultimamente até considero ter-me envolvido demasiado em histórias alheias. Gostava de me enganar. Mas não acontece.
As pessoas sobre as quais eu consigo ver um bocadinho mais além, são pessoas que me são queridas de variadas maneiras. São pessoas que eu quero para mim. Por isso são especiais, são mais do que o resto, maiores, mais especiais, têm peculiaridades que as torna únicas, ricas e cheias de sentimentos bons. Pessoas que, sem sombra de dúvidas, eu amo.
Às vezes, questiono-me, porque é que esses pequenos deuses, se esquecem, tantas vezes recorrentemente, da sua grandiosidade. E se contentam com menos. Ludibriam-se com meio palminho de cara, algumas frases feitas, um pedido de atenção, palavras pela metade, intenções não concretizadas.
Porque há uma necessidade excessivamente grande por amor, venha ele de onde vier, mesmo que não seja amor que se vá receber, apenas uma lavagem de auto-estima.
Fico furiosa, irritada. Impotente. Não posso fazer nada.
Acompanhar o processo e ajudar a curar feridas.
Venham de lá mais cinco.

Tuesday, January 17, 2012

Perguntas

O que é que se pode dizer quando já se conversou tudo?
Como explicar qualquer coisa que não faz sentido? Como racionalizar um pensamento abstracto? Como circunscrever um formigueiro no peito?
Como pedir-te que venhas sem ter de o dizer? Como estar sempre perto de ti sem dar nas vistas? Como acompanhar-te incondicionalmente sem me denunciar? Como evitar um pensamento? Como travar um sorriso? Como combater uma emoção? Como explicar o que eu não quero dar a entender?
Como subir a essa montanha sem rasgar a pele? Como te perguntar sem querer a resposta?
Como ter um final feliz sem encetar o que quer que seja?
Como mudar tudo, deixando tudo tal como está?
Como cometer um erro conhecido, com resultados prováveis, sem querer aplicar o que com ele aprendi?
Como te abraçar sem medo? Como eclipsar os minutos que unem a tua ausência à tua presença?
Como fingir a indiferença?

Gosto da minha vida

Gosto da liberdade solitária com que construo e rearranjo as minhas rotinas. Gosto de ter um espaço só para mim onde não há horas marcadas. Gosto dos cigarros tardios à janela, a música que não tem prazo para começar ou acabar.
Gosto do silêncio que me deixa pensar e do teclado onde o posso escrever.
Dos cafés, das merendas, dos petiscos, das bebidas, das velas, dos cheiros a horas impróprias. Das companhias que me aprouverem.
Gosto particularmente das amizades improváveis e das suas infinitas disponibilidades. Poder procurá-las quando não tenho vontade de jantar sozinha. E elas aceitarem sem reservas. Gosto de conversas longas sobre tudo e nada, sorrisos, expressões cúmplices, companheirismo. Gosto da partilha.
Gosto das imperfeições da minha vida, perfeitas para mim.
Gosto de me deitar, cansada de noite, sabendo que tenho menos horas das que gostaria para dormir, e adormecer de sorriso nos lábios. De fechar os olhos e, com eles, o dia pleno que ficou para trás.
Não mudava nada. Talvez um pormenor ou outro. Mas depois a minha vida deixava de ser imperfeita, e que graça é que teria?

Saturday, January 14, 2012

Entrou naquele sítio improvável numa tarde de inverno, recomendado por um amigo. Estava um nevoeiro frio e claro, como se quase a desfazer-se pelo sol que, àquela hora, já procurava o seu horizonte.
Foi recebida por um senhor velho, pouco simpático, que a fez esperar dezenas de minutos até chamar a pessoa que lhe iria resolver o problema. Assim que o fez, o rapaz em questão, deslocou-se do seu escritório transparente e dirigiu-se a ela, de mão esticada e sorriso tímido.
Feitas as queixas, o rapaz levou o seu aparelho informático para uma sala própria, igualmente envidraçada, onde permaneceu, inteiramente dedicado à sua tarefa, durante uma hora, sem dar quaisquer explicações à dona que, inquieta e curiosa, fazia várias vezes o perímetro do espaço exterior procurando, uma e outra vez, espreitar o que com  tanto afinco, o técnico estudava no seu aparelho. Enfadada com a espera, sentou-se num banco solitário, ajeitando-lhe a posição de modo a poder observar, fixamente, o procedimento. 
Após algum tempo, mais do que ela teria preferido, o técnico ergueu os olhos e encontrou os da rapariga. Meio sem jeito, coçando a cabeça, introduzindo as mãos nos bolsos, saiu da sala, caminhou em direcção a ela e, removendo uma mão do bolso, esticou-a para ela sem quase levantar os olhos, num gesto que pedia que ela o acompanhasse.
A porta fechou-se e, sentados frente a frente, o rapaz explicou-lhe todos os problemas que encontrou, dissertou sobre as possíveis causas, analisou, em termos de custos e benefícios, as alternativas do reparo. A conversa foi longa, muitas perguntas e respostas intercaladas de ambas as partes, algumas graças e sorrisos, num tema que ambos consideraram ser despropositado para as horas de conversa que não conseguiam evitar. A jovem, mais serena, escutava com doçura as explicações sem o ouvir, logo desde os primeiros minutos. Pensava para si, como iria ser o primeiro beijo, corando disfarçadamente, gostava do seu olhar meigo, a voz gentil, e transportava-os para uma noite, após ambos os dias de trabalho em que deitariam lado a lado, entrelaçando os dedos, a contar os pormenores do tempo que tinham passado ausentes um ao outro, acariciando os cabelos do outro. Imaginava onde iam viver, que casa iriam escolher para serem felizes os dois, um quintal, várias plantas, flores viçosas, uma sala morna, lareira à frente da qual se aconchegarem, a cozinha onde lhe prepararia pequenos agrados, quais seriam os seus pratos favoritos, escutava-o ao longe e só pensava em segurar-lhe a  mão, roubar para si aquele rapaz de jeito doce que, levemente, lhe aquecia o peito e lhe embevecia a atenção. 
Quando já não havia absolutamente mais nada que um pudesse dizer ao outro sobre o tema supérfluo que os tinha juntado, apertaram as mãos. As mãos demoravam-se, resistiam ao afastamento inevitável. O sorriso que os olhos da rapariga deixaram escapar disse-lhe em silêncio, escolhi-te para mim. 
Ao sair daquele espaço, ela estava feliz, resplandecente. Ainda sabendo que não mais o voltaria a ver.

Friday, January 13, 2012

Posso chorar? Só um bocadinho. Sem fazer ruído. Sem incomodar ninguém. Preciso muito.
Porque a emoção que sinto é demasiado intensa e o corpo não a consegue conter. Tenho de a por cá para fora, para que as lágrimas não me sufoquem a alma. 
Tenho memórias. De tempos diferentes, da vida quando era fácil e despreocupada. Dos amigos ali sempre a mão. De gente que se ama e que já não está cá. Mas que ainda se ama. E gente que faz falta. Existem pormenores do dia que as trazem de volta, como uma brisa quente e doce, que nos faz inspirar e fechar os olhos e nos transporta para outro lugar. De repente estamos naquele sítio morno onde tudo é perfeito e todas as pessoas queridas estão em nosso redor. 
Um ruído de um carro, de folhas secas a serem pisadas, a voz de uma criança, ou o som de um telefone, instantaneamente resgatam-nos dessa viagem e, de repente, estamos no mesmo sítio de novo, na mesma realidade de que nos tínhamos conseguido afastar, e a gente que se ama não está. Só a imensa memória de um sorriso, uma voz, não se esquece a voz ou o cheiro, a ausência intransponível. A saudade que dói. A impotência de, por muito que doa, não a conseguir trazer de volta, nem sequer para a ver uma última vez. Gostava tanto de ter podido ter acariciado o seu rosto para que não se atenue da minha lembrança. Quero agarrar-me a essas pessoas. Estou longe de estar preparada para as deixar partir.
Fazem-me falta. Fazem-me falta. Fazem-me falta.

Thursday, January 12, 2012

Don't feel like dancing

Não me apetece dançar hoje. Lá em cima um manto de nuvens que me ensombram, que raiva não poder controlar estes fenómenos atmosféricos, preciso de calor, energia, de LUZ, para criar os meus próprios pontos escuros. Assim não me refúgio no azul no céu e em tudo aquilo que, desconhecendo, sei que ele encima.
Preciso do azul que, fitando-o, mesmo de olhos fechados, me faça recordar o cheiro a água salgada e o incómodo dos grãos de areia a maçar o corpo. E hoje o azul foi substituído por um cinzento dormente, melancólico, que distende os vinte e quatro músculos faciais de que preciso para rir.
Tenho uma sensação estranha de que me falta algo. Não aquilo que já estou cansada de saber, mas falta-me mais. Parece que se quebrou algo que me fazia falta. Está vazio cá dentro.
E não consigo que o azul lá de cima me dê uma dica sobre o que isso possa ser. Tenho uma ideia, mas tento afastá-la, porque a minha cabeça, às vezes, ludibria o coração e faz-me crer que quero algo de que, na realidade, não necessito. Ou será o coração que engana a cabeça?
Não devia ter tanto tempo para pensar. Como dizia o Outro Senhor, “pensar é estar doente dos olhos”.

Wednesday, January 11, 2012

Esta noite

Quero pedir-te que venhas esta noite. Porque hoje tenho vontade de ti. Não precisas trazer nada, não quero flores, chocolates, vinho, roupas para o dia seguinte, declarações falsas de saudades ou promessas de próximos encontros. Não venhas preparado, com discursos ou possíveis temas de conversas. Não precisas de me contar como foi o teu dia ou como prevês que venha a ser o próximo. As tuas preocupações, posso ouvi-las se fizeres questão, mas não te irei maçar com as minhas, porque não é disso que se trata. Não hoje.
Há coisas que gostarias de saber sobre mim e há outras que eu gostaria de conhecer sobre ti. Mas sejamos realistas. Não alimentemos falsos pressupostos, nem criemos esse precedente.
Diz-me apenas que vens, às horas que vieres, às horas que puderes, àquelas que a vontade te deixar esperar. Eu vou estar aqui. Não quero nada, não te peço absolutamente mais nada. Não quero um dia ou um horário na tua agenda, não quero almoços na praia ao domingo, nem sessões de cinema nocturnas. Preciso apenas que estejas aqui. Vem. A pé, de carro, de transportes públicos ou de boleia, mas vem a voar.
Com este meu desejo de te ver, não te prometo, igualmente, de todo nada. Nem que fiques durante a noite, nem que te faça o pequeno-almoço. Aqui não há lugar a constrangimentos ou inseguranças. 
Talvez um dia. Não esta noite. 

Tuesday, January 10, 2012

O meu tempo

Amanhã, penso eu empurrando as obrigações com a barriga, vou àquele sítio chato, onde tenho de desbravar caminho, entre tantas pessoas ferozes que querem o mesmo que eu, talvez com um bocadinho mais de convicção, vou procurar o que preciso, resolver o assunto, riscar essa linha da "to do" list, avançar para a próxima, coisa que já só poderei fazer no dia a seguir. Porque não tenho tempo, nunca tenho, que as minhas horas custam dinheiro a alguém, nem para visitar a amiga de guerras tão antigas, ver o filho dela, e a segunda criança que nasceu há pouco tempo e para a qual nunca tive tempo (já passaram seis meses). Salta o próximo item gritando pela minha atenção, outra amiga, quase tão antiga, está grávida, e que luta tão violenta  dirigiu ela contra as probabilidades, preciso lá ir, celebrar essa vitória, tilintar os copos, dar um gole num qualquer líquido não alcoólico, porque ela não pode, e eu solidarizo-me. Eu nunca tenho tempo para as coisas difíceis, deixo-as penduradas, os que o têm, vão fazendo as coisas acontecer, pudera, a minha vida é muito mais complexa, dou atenção apenas às coisas que não a merecem, e para as importantes, tenho mais do que fazer. 
E depois, lá está, há a ida obrigatória às finanças, os sacanas erram sempre para o lado que lhes convém, fazer a devida reclamação, acompanhá-la, enviar emails de indignação para tudo o que mexe, cruzar os dedos, esperar que a intervenção divina, que já desisti da governamental, ponha uma cunha a meu favor. O que nunca acontece, e como diria a outra, tantas horas gastas para nada. Ao menos fiz o que a minha consciência, aquela que os meus pais plantaram quando eu não estava a ver, me obrigou. 
Ainda tenho "aquela" consulta médica, que é chata e que não me apetece, e falando nisso, a outra que ando a adiar há que tempos, também não-de ser nada, e já agora uns quantos sinais que tenho mesmo, mas mesmo a sério, que ir ver antes do verão, já ando a adiá-los há umas dezenas de estações. 
Ao fim de semana não tenho absolutamente nenhum tempo livre, tenho o meu pai, e as suas esoterices informáticas, a minha mãe, num ou noutro extremo da sua bipolaridade, a minha mana que precisa de conversar com gente crescida e o seu filho, que é o meu reactor nuclear privado. Depois tenho a carra, os seus consertos, os respectivos desarranjos, as revisões não programadas, as inspecções, os soluços, os tremores, os barulhos, as dores de cabeça. 
E ao final do dia, por amor de deus, não me peçam nada, tenho encontro marcado comigo mesma. Fazer as compras, conduzir, apitar, sinalizar, esperar em filas, irritar-me, manobrar, estacionar e todos os outros verbos nos quais invisto para me levarem ao meu repouso. Arrumar os frios, os outros não são prioritários, fechar as janelas, tremer de frio, ligar todas as fontes de calor disponíveis, libertar das roupas pesadas, meter-me debaixo da água quente e esquecer-me do mundo por uns instantes. Improvisar um jantar, deixar a loiça para o próximo dia, que agora não me apetece. Num dia bom, faço até as unhas, com todo o seu aparato, limá-las, tirar cúticulas, acetonar o verniz antigo, abrir as janelas para não intoxicar, morrer de frio, desenhar o formato dos dedos com um verniz implacável, remover o excesso, deixar que seque. Estender-me no sofá enquanto isso não acontece. Lembrar-me que preciso de música, de mãos esticadas procurar os botões, cuidado para não estragar nada, porque se estragar, tenho de começar pelo princípio. E normalmente, assim que a música se levanta, dá-me vontade dum cigarro, e são raras as vezes que o verniz não fica colado ao isqueiro.
O tempo para mim não chegue, porque não é meu. Alguém, algum dia, sem o meu consentimento, ter-me-á forçado a assinar um compromisso de honra que me obriga, a partir do momento em que sou oficialmente adulta, a fazer tudo, menos aquilo que me dá prazer. 
Hoje mandei tudo ao ar e decidi arranjar tempo para escrever.

Silêncio

Hoje estou assim assim. Não é meio da semana, mas pelo menos também já não é o princípio. Estou a trabalhar com mais ou menos vontade. Não tenho muita, mas também já tive menos. Está sol, mas há aqui uma espécie de nuvem a fazer sombra à minha luz. Falta qualquer coisa. Planos. A motivação para fazer algo  de completamente diferente. Estou sem ideias. Sem vontade. De ficar ou de ir. De falar.
Não vamos falar. Vamos apenas ficar em silêncio, os dois. Podemos abrir uma garrafa, ir até ao alpendre e ficar a ver o por do sol. Ver as cores esbaterem-se no céu e a transformarem-se umas nas outras. O som dos pássaros a atenuar-se. O burburinho da água, muito ao longe. As árvores escurecerem. A humidade a eriçar os meus cabelos. O nível de vinho, lentamente, a reduzir-se. A tua respiração a acalmar-me. A massa de ar frio a envermelhecer os nossos rostos pálidos. 
Em silêncio os dois. Sem pressas e sem constrangimentos. Também não queres falar. Não o façamos por achar que só assim será suficiente. A tua companhia basta-me. Poder dar-te a mão, quando sentir a falta dela. Deitar a cabeça no teu ombro quando o cansaço chegar. Aconchegar-me no teu casaco, quando o meu for pouco. Poder olhar para ti, e saber-te ali. 
Vamos ficar em silêncio. Contigo. Basta-me.

Monday, January 9, 2012

Take your time

Porque não podes te pressionar a fazer algo que não tens vontade. Porque o momento ainda não chegou, porque a ideia não cresceu dentro de ti, porque não te sentes preparado, porque ainda não vês o propósito disso tudo, e porque as razões não te motivam. Porque não são as certas. 
Porque há um lugar e um tempo para a vida acontecer na tua cabeça, há um sítio onde tu vais pensar só em ti, no que queres, no que gostas, no que te faz feliz. Certo? Abre os braços, ganha o teu espaço, aquele que ninguém deve ocupar. As tuas decisões. As que confirmam que tu és tu e não aquilo que tu achaste que podias/querias/aceitarias ser. Não as forces. O dia é só mais um dia, que sucede ao que passou. Ninguém te obriga a que amanhã seja igual. Quem és tu? Sabes? Pouco ou nada pode ter a ver com o que fazes. Tu estás nos pormenores que não reparas. No que pensas antes de adormecer, na forma com que olhas para as pessoas, no tom com que revelas cada estado de espírito, no perfume que usas, nos amigos que te acompanham, nas expressões que te caracterizam, na tua gargalhada contagiante. Não há urgência nenhuma em chegares lá. O importante é o modo como te pões a caminho. A determinação com que já assumes aquilo que não queres. O amor que tens de dar a ti. Antes do que a qualquer pessoa. O carinho e a benevolência com que deves encarar o espelho. O orgulho com que te admiras. A paixão que se vê do outro lado. A beleza que vem de ti e que deves aceitar. 
Os melhores sabores, são os mais difíceis ao primeiro contacto. Tens de lhos dar tempo. Degustá-los. Aprimorar o teu paladar. Deixá-lo amadurecer, sem pressas. Reconhecê-lo quando o encontrares. Quando isso acontecer, nada te vai saber tão bem, como esse doce prazer do amor próprio. Só aí poderás, sem rede, voar.

Crescer

Isso irrita-me. Sobremaneira. Até considero ser, na maior parte dos meus dias, uma pessoa serena, tranquila, de paz com a vida. Mas há limites para qualquer paciência. Será que não entendes mesmo o ridículo das tuas acções? A pequenez com que tentas, infrutuosamente, alcançar os teus objectivos? 
Essas alterações de humor, a indiferença com que decides intencionalmente castigar as pessoas, especialmente aquelas que se comprometeram a ficar incondicionalmente ao teu lado, causam perplexidade e estupefacção. É mesmo verdadeira a ingenuidade com que consideras que ninguém está a reparar, especialmente nós que já vivemos um bom bocado, que estás desesperadamente a tentar chamar a atenção? Não é assim. Assim, não, meu doce. A forma mais simples e objectiva de o conseguires é dizê-lo com a mesma frontalidade com que o estás a sentir. "Preciso de um carinho, de um mimo, que cuidem de mim." Achas que é fraqueza? Eu acho que é força, de assumir o que se sente, o que se quer, o que se precisa e de ir atrás disso. Ninguém, acredita, ninguém, o fará por ti.
A vergonha? O constrangimento? De quê? De viver com o coração? De sentir? Acharia vergonhoso sim, não fazer.
Isso faz-me recordar uma conversa, a propósito de uma outra história, em que não entendias porque as pessoas dão piropos e tecem elogios inconsequentemente, ou seja, se não estão apaixonadas. E pior, porque o fazem a mais do que uma pessoa. Porquê? Porque as coisas bonitas são para por cá para fora, os sentimentos bons são para se partilhar no momento, porque não há motivo de os guardar só para nós se podemos, com essa pequena afirmação, fazer alguém sorrir. Deixar coisas por dizer? Porquê? Porque as palavras custam dinheiro? Porque as guardamos para "aquela" pessoa, que pode ou não existir, e que pode ou não ser  tão especial quanto a que pusemos, em seu lugar, no topo do pedestal? Porque até ter a certeza se a pessoa "merece" ou não ser acarinhada, o melhor é não a fazer sentir bem? Bah. Apaixono-me todos os dias, por coisas pequeninas, por palavras, por gestos, por cheiros, por olhares, por amigos, por desconhecidos, por pessoas atraentes, por corações gigantes e é um crime eu não o ter dito no preciso momento em que o estava a sentir. Porque o momento passa. E o sentimento, expressado, fica. 
Por favor, pára de te estragares com essas atitudes. Saí de ti própria. Tiveste a tua oportunidade. Rejeitaste-la. Em consciência. Agora queres o quê? Ser apaparicada até à morte, que alguém abdique da sua auto-estima e individualidade para alimentar a tua? Não. Não é assim.
Vai crescer. Vai aprender. Longe. E se possível, à custa de ninguém.

Sunday, January 8, 2012

Água transparente

A vida é tão simples. Tão directa. Tão transparente. 
Passeio numa tarde de inverno na praia, descalça, consigo ver claramente os meus pés pálidos sob a água salgada. Distorcidos, ora dentro e fora dela. Mas consigo vê-los.
Então porque é tão difícil entendê-la? Porque nos custam as decisões? A irreversibilidade com que imaginamos as consequências? As respostas estão sempre diante nós, podemos passar anos a fugir delas.. mas eventualmente retornarão a nós. Como uma fotografia que encerramos numa caixa na cave e a qual julgamos ter deixado de existir. Mas um dia abriremos essa caixa, e essa memória regressará.
Quantas vezes nos retraímos e quantas vezes por um bom motivo? Temos medo. 
Uma criança tem medo do pássaro que pica restos de comida no chão. Não o conhece, ele é diferente. E o pássaro voa, com mais medo ainda, e nem lhe deu tempo de perder o medo.
Medo do que pode ser. Medo do que possa não acontecer. De amar e não ser correspondido. Medo que doa, ou que não doa o suficiente. Porque antes de qualquer coisa já temos decidido tudo o que pode ser, tudo o que pode não ser. O que gostávamos que fosse. Mas a vida não é assim. É diferente. Faz-nos fintas, troca-nos as voltas e decide o que efectivamente será. Consequências? Amar. Errar. Muito. Quanto mais melhor. Cair e chorar. Deixar sangrar. E voltar a amar. Da mesma maneira. Mais ainda. Porquê? Porque o amor não se gasta, não se esgota em nós. Damos tudo o que temos. Da próxima vez daremos mais ainda. Ainda que voltemos a perder. Mesmo que acreditemos que não sobrou nada de bom para partilhar. Mas mesmo que fujamos e nos escondamos dele, o amor encontra-nos novamente. E não nos dá saída. Confunde-nos e desequilibra-nos. Recoloca-nos na corda bamba. E é esse frisson que é o amor. Uma dança perigosa numa linha fina demais para a embriaguez que provoca. A liberdade vem com a entrega desprendida e desinteressada. Com cada amor, descobrimos mais de nós próprios. Por isso, quais são os contra de nos apaixonarmos? Termos dado tudo? Temos mais para dar. Termos perdido? Ganhámos mais. Doer muito? Dói mais não sentir. Saudades? Temos ao menos o que saudar.
Podemos desistir do amor. Mas felizmente, o amor não desiste de nós.

Saturday, January 7, 2012

Finais e começos

Todas as sextas-feiras são um recomeço, o primeiro dia da minha vida. Sem querer, sem saber, sem me aperceber, fui adoptado num seio familiar de um conjunto de três mulheres ímpares. É curiosa a improbabilidade da vida. O modo que ela teve de me fazer sorrir quando conseguia apenas chorar. Um choro seco e abafado do qual me vou esquecendo. Um bocadinho mais amanhã do que hoje.
São todas muito diferentes, e cada uma consegue proporcionar-me sentimentos e emoções distintos.

Uma delas ensinou-me o desprendimento com que eu tenho de me encarar; que a vida é para se viver sem grandes complicações e que não se condenam os ímpetos da carne. A festa tem de existir sempre dentro de mim e a noite é o local e o tempo de a partilhar.
A segunda amizade não é totalmente desprendida. Há qualquer coisa na sua expressão que me atrai e tenho uma curiosidade inquietante de a beijar, de a fazer minha. Nem que apenas só por uma noite. Passamos o tempo a trocar piropos, lisonjeios e vontades reprimidas. Ela não sabe o que quer. Aparentemente, nada de mim. Mas a minha falta de atenção é sentida em reacções contraditórias e desesperadas para voltar a recuperar o controlo. O poder que acredita ter sobre mim. Às vezes deixo-a crer que sim. Na maior parte das vezes sou repelido pela sua insegurança e infantilidade. Mas fez-me falta acreditar que estava apaixonado e que podia estar em linha recta para sentir algo de magnífico. E ela estava ali tão acessível.. 
A terceira faz-me pensar e falar. Abrimos todo o jogo um com o outro e falamos de afectos como se não doessem. Mas doem. E mesmo assim, usamos o nosso tempo a escalpelizados, a purgar-nos um ao outro das cores escuras com que nos vestimos, de vez em quando. É uma terapia empática que funciona e que nutrimos com carinho.
Gosto de fazer o exercício de tentar antecipar os homens por quem estas minhas companheiras se sentem atraídas.
Na última noite observei-as, no expoente doloso da minha sobriedade. E ela, após vários episódios de ausência - não física - espiritual - cheguei a questionar-me por onde andaria a brilhar a luz que já lhe conheço - ela estava lá, atenta, de olhos bem abertos, usando o seu sorriso interior - já percebo quando este sorriso vem ou não da alma - libertando os seus movimentos, leves e esguios à música. Percebi exactamente o momento em que ela o viu. Por entre vultos transpirados, expressões vidradas e danças auto-frenéticas, avistou-o, sorridente, exibindo a sua confiança pela pose, firmemente suportando uma bebida, menos pesada do que parecia. Mas foi o seu olhar doce e fugidio, e a mistura de sensações que características tão contraditórias lhe suscitaram, que a magnetizou. Nesses minutos, que mais demoraram horas, não conseguiu fixar-se em mais nada. Ele não presta, disse-lhe, eu sei, porque eu já não prestei muito. Sensibilizou-me o desapontamento com perdeu o brilho dos olhos, teria ela expectativas naquele estranho? Tens a certeza, inquiria-me, que raiva, revoltava-se, mas discretamente, voltava a procurar o olhar do estranho. Fi-la atravessar-se no seu caminho, o mar de gente que libertava fumo, álcool e transpiração, que apertava, e empurrava e pisava, e dançava todo ao mesmo ritmo, empurraram-na para ele. As suas costas no peito dele. Observei os movimentos dele, eu já o conhecia. Ela espreitava-o por sobre o seu ombro direito, o mesmo ombro do qual ele procurou sentir o cheiro, desviando, com dois dedos, os cabelos dela, respirando o pedaço de pele que o seu cabelo descobriu. As suas mãos tocaram-se. Ela fechou os olhos e quis deixar-se levar. Mas a música voltou a soar, as pessoas reapareceram e a oportunidade perdeu-se.
Ao abandonarmos aquele sítio, tivemos uma conversa afásica, sem palavras e que demorou o tempo dela dar o último golo no seu copo semi vazio. 
O que eu ouvi foi, eu não quero saber que ele não preste, não quero deitar fora esta sensação, este calor doce da silhueta dele a centímetros da minha, quero morder o beijo dele, sincronizar os dois peitos, ser absorvida nos seus olhos, ser desenhada pelas suas mãos, quero mergulhar no seu corpo, sentir o seu cabelo entre os meus dedos, deixar que a minha pele se pronuncie sobre a dele. Quero isto que estou a sentir, quero esta paixão, viver esta noite, a imensa possibilidade de tudo o que pode ser, mesmo sabendo que não será nada mais para além desta noite. Durante todo o tempo que me for dado para o descobrir.
Engoliu um trago da cerveja já morta, e quando vestiu a última manga do casaco, desistiu daquela imensa possibilidade.
Foi apenas mais uma noite. Em que tudo nasceu e morreu em poucas horas. Até que chegue a próxima noite. E com ela, inúmeras oportunidades de nos apaixonarmos.

Friday, January 6, 2012

Em queda livre

Chego à beira de um precipício. É noite, está escuro. Uma neblina branca adensa-se sob a minha visão. Nada me faz antever a altura a que estou do solo.. o que quer que esteja lá em baixo. Lanço uma pedra. Liberto-a das minhas mãos. Ela paira diante de mim, como que a desdenhar do que eu procuro descobrir. Vagueia, e desce, lentamente, como uma pena que a gravidade não consegue combater. Abano a cabeça, olho para os meus pés e sorrio. Subitamente entendo a situação em que me encontro.
Há uma emoção que se intensifica dentro de mim. Cresce e cresce e ganha importância. Porque tenho um pensamento fixo na cabeça. Uma voz que me diz mais do que qualquer outra. Um tremor nas pernas quando ele se aproxima.  Um rubor nas faces quando o sinto olhar-me. Um desejo imenso que o tempo voe, desde o último minuto em que estive com ele, até ao milésimo de segundo anterior àquele em que o vou voltar a ver. O peito agita-se e não sei o que fazer das minhas mãos. 
Será que tenho essa coragem? A um passo. O salto para o desconhecido. Não. Volto para trás. Estaciono, imóvel, desvio o cabelo dos meus olhos e sinto um arrepio que percorre a minha pele. Olho para o meu ombro direito. E nele desliza a sua mão, percorrendo o comprimento do meu braço, quedando-se na minha mão.. e lá permanece, firme. Os seus dedos enrolam-se nos meus e dirigem-se novamente ao precipício. Os seus olhos sorriem-me e pedem-me para respirar fundo.
 
"Sustem a respiração, vamos lançar-nos em queda livre!"

Thursday, January 5, 2012

Escárnio e maus fígados

Não é assim. É errado. Foi um erro. Teu. Eu que me enganei. Não aceito que alguém me desconsidere assim. Ninguém. Não te reconheço esse direito. Não te admito. Eu sou mais do que isso. Muito maior. Quero flores. Aromas quentes e sabores doces. Um vinho morno e velas acesas. Palavras lisonjeiras. Cortejos. Passadeira vermelha ou o teu casaco no chão, porque o chão que tu pisas não é digno dos meus pés. O teu olhar é inofensivo. E os teus gestos, poupa-os, não me afectam. São ridículos. Insignificantes. Supérfluos, vazios. És demasiado fútil e cheio de ti próprio. A tua presença nem sequer me chega a incomodar. A tua ausência não é notada. A tua voz é monótona. O teu discurso insolente. Estás habituado a mulheres fáceis e lineares. Coisas rápidas de fazer e desfazer. Eu não sou isso. Sou muito mais. Não tens uma pequenina noção de mim porque o teu raciocínio é demasiado elementar para entender uma mulher como eu. Não te iludas. Já me esqueci. Nem ficou marca, nem sequer uma linha, um traço esbatido.
E só para fechar este assunto. Não és tu que me escolhes. Sou eu que decido não te escolher.

Wednesday, January 4, 2012

Na primeira pessoa

E dando alguma continuidade ao meu último escrito, vou escrever sobre a solidão. Escrevê-la na primeira pessoa. Com o mesmo peso com que a carrego.
Não a posso ver, não lhe posso tocar, afugentar ou banir. Não a posso sequer argumentar. É uma conversa muda, que decorre vezes e vezes sem fim, na minha cabeça. Não a consigo identificar ou dar forma. Não conheço a sua origem ou destino. As suas consequências. 
Mas está lá. Incómoda. Desconfortável. Gigante e pretensiosa, como uma pessoa ignorante, que não conhece nada para além dos seus limites. Nem pretende conhecer. Egoísta. Apodera-se de mim em todos lugares da minha casa. Acompanha-me em todas as viagens, está lá quando eu sorrio, ainda mais, quando choro. Morbidamente silenciosa. Espalhando-se por todos os lados, ocupando cada cadeira, cada lugar do sofá, os pratos à mesa. O copo vazio. A auréola na mesa que fica depois. 
Não há nada de heróico ou glorioso na solidão. Pelo contrário. Uma constante recordatória de várias derrotas acumuladas. O vazio imenso de sentimentos. Sons antigos dos quais as paredes, de quando em quando ecoam. Memórias já pouco distintas, às quais acrescento mais uma vírgula, aquela que gostaria que tivesse intercalado essa frase antiga.
O peito aberto à chuva, ao frio e ao fogo, sem o bocado de pele que, em tempos, lhe coube. O coração solto, inerte, obsoleto, debaixo de pontapés em brincadeiras inconsequentes dos miúdos. Mas as inconsequências têm um preço. Transformam-se em músicas que já não se conseguem ouvir. Em hematomas que não desaparecem. Que doem quando se toca. Tanto, que já não sei sentir uma carícia .
Atrás de mim, sobre o meu ombro, a solidão a ditar-me estas linhas. Envolvendo-me num inverno profundo, naqueles em que nem o calor aquece.  A solidão cresce. Conquista o seu espaço, cria as suas rotinas, sem pedir autorização. A solidão, no meu espelho, na minha cama. Em cada quadro pendurado na parede. 
Esta presença sufocante que só existe porque eu respiro, esta sombra de rejeitados, este reflexo distorcido, este ruído ensurdecedor. Esta ligeireza nos actos. A indiferença das decisões. A fragilidade do existir. A futilidade das palavras.
Solidão. Em todo o lado. Se me abandonasses, nem saberia como te preencher.

Antes do amanhecer

Há muitos anos atrás assustava-me o escuro, poder apenas compreender uma pequena parte do que se havia lá fora, vislumbrar vultos aos quais a minha imaginação dava vida e traços de horror. O sol continua lá em cima, dizia-me o meu pai, só que está a iluminar outras partes do planeta. Não conseguia entender, no meu egocentrismo de criança, o abandono ao qual a noite me deixava, sabendo o sol, de antemão, a falta que me fazia para ultrapassar essa dama sombria. E com essa ausência, o primeiro sentimento de rejeição. Esse baque seco e violento no peito, frio cortante no estômago, esse tremor de mãos, essa coberta imensa a que chamamos desamparo.
Ainda hoje, anos e anos e anos depois, fere-me a noite. Essas horas frias e solitárias onde não somos ninguém. Não somos de ninguém. Onde cada sombra nos recorda da imparidade da nossa existência.
E espero. Pacientemente. Que se erga a luz da manhã. E me faça pertencer a algo a que realmente não pertenço.