Wednesday, January 4, 2012

Antes do amanhecer

Há muitos anos atrás assustava-me o escuro, poder apenas compreender uma pequena parte do que se havia lá fora, vislumbrar vultos aos quais a minha imaginação dava vida e traços de horror. O sol continua lá em cima, dizia-me o meu pai, só que está a iluminar outras partes do planeta. Não conseguia entender, no meu egocentrismo de criança, o abandono ao qual a noite me deixava, sabendo o sol, de antemão, a falta que me fazia para ultrapassar essa dama sombria. E com essa ausência, o primeiro sentimento de rejeição. Esse baque seco e violento no peito, frio cortante no estômago, esse tremor de mãos, essa coberta imensa a que chamamos desamparo.
Ainda hoje, anos e anos e anos depois, fere-me a noite. Essas horas frias e solitárias onde não somos ninguém. Não somos de ninguém. Onde cada sombra nos recorda da imparidade da nossa existência.
E espero. Pacientemente. Que se erga a luz da manhã. E me faça pertencer a algo a que realmente não pertenço.

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