A vida é tão simples. Tão directa. Tão transparente.
Passeio numa tarde de inverno na praia, descalça, consigo ver claramente os meus pés pálidos sob a água salgada. Distorcidos, ora dentro e fora dela. Mas consigo vê-los.
Então porque é tão difícil entendê-la? Porque nos custam as decisões? A irreversibilidade com que imaginamos as consequências? As respostas estão sempre diante nós, podemos passar anos a fugir delas.. mas eventualmente retornarão a nós. Como uma fotografia que encerramos numa caixa na cave e a qual julgamos ter deixado de existir. Mas um dia abriremos essa caixa, e essa memória regressará.
Quantas vezes nos retraímos e quantas vezes por um bom motivo? Temos medo.
Uma criança tem medo do pássaro que pica restos de comida no chão. Não o conhece, ele é diferente. E o pássaro voa, com mais medo ainda, e nem lhe deu tempo de perder o medo.
Medo do que pode ser. Medo do que possa não acontecer. De amar e não ser correspondido. Medo que doa, ou que não doa o suficiente. Porque antes de qualquer coisa já temos decidido tudo o que pode ser, tudo o que pode não ser. O que gostávamos que fosse. Mas a vida não é assim. É diferente. Faz-nos fintas, troca-nos as voltas e decide o que efectivamente será. Consequências? Amar. Errar. Muito. Quanto mais melhor. Cair e chorar. Deixar sangrar. E voltar a amar. Da mesma maneira. Mais ainda. Porquê? Porque o amor não se gasta, não se esgota em nós. Damos tudo o que temos. Da próxima vez daremos mais ainda. Ainda que voltemos a perder. Mesmo que acreditemos que não sobrou nada de bom para partilhar. Mas mesmo que fujamos e nos escondamos dele, o amor encontra-nos novamente. E não nos dá saída. Confunde-nos e desequilibra-nos. Recoloca-nos na corda bamba. E é esse frisson que é o amor. Uma dança perigosa numa linha fina demais para a embriaguez que provoca. A liberdade vem com a entrega desprendida e desinteressada. Com cada amor, descobrimos mais de nós próprios. Por isso, quais são os contra de nos apaixonarmos? Termos dado tudo? Temos mais para dar. Termos perdido? Ganhámos mais. Doer muito? Dói mais não sentir. Saudades? Temos ao menos o que saudar.
Podemos desistir do amor. Mas felizmente, o amor não desiste de nós.
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