Wednesday, January 4, 2012

Na primeira pessoa

E dando alguma continuidade ao meu último escrito, vou escrever sobre a solidão. Escrevê-la na primeira pessoa. Com o mesmo peso com que a carrego.
Não a posso ver, não lhe posso tocar, afugentar ou banir. Não a posso sequer argumentar. É uma conversa muda, que decorre vezes e vezes sem fim, na minha cabeça. Não a consigo identificar ou dar forma. Não conheço a sua origem ou destino. As suas consequências. 
Mas está lá. Incómoda. Desconfortável. Gigante e pretensiosa, como uma pessoa ignorante, que não conhece nada para além dos seus limites. Nem pretende conhecer. Egoísta. Apodera-se de mim em todos lugares da minha casa. Acompanha-me em todas as viagens, está lá quando eu sorrio, ainda mais, quando choro. Morbidamente silenciosa. Espalhando-se por todos os lados, ocupando cada cadeira, cada lugar do sofá, os pratos à mesa. O copo vazio. A auréola na mesa que fica depois. 
Não há nada de heróico ou glorioso na solidão. Pelo contrário. Uma constante recordatória de várias derrotas acumuladas. O vazio imenso de sentimentos. Sons antigos dos quais as paredes, de quando em quando ecoam. Memórias já pouco distintas, às quais acrescento mais uma vírgula, aquela que gostaria que tivesse intercalado essa frase antiga.
O peito aberto à chuva, ao frio e ao fogo, sem o bocado de pele que, em tempos, lhe coube. O coração solto, inerte, obsoleto, debaixo de pontapés em brincadeiras inconsequentes dos miúdos. Mas as inconsequências têm um preço. Transformam-se em músicas que já não se conseguem ouvir. Em hematomas que não desaparecem. Que doem quando se toca. Tanto, que já não sei sentir uma carícia .
Atrás de mim, sobre o meu ombro, a solidão a ditar-me estas linhas. Envolvendo-me num inverno profundo, naqueles em que nem o calor aquece.  A solidão cresce. Conquista o seu espaço, cria as suas rotinas, sem pedir autorização. A solidão, no meu espelho, na minha cama. Em cada quadro pendurado na parede. 
Esta presença sufocante que só existe porque eu respiro, esta sombra de rejeitados, este reflexo distorcido, este ruído ensurdecedor. Esta ligeireza nos actos. A indiferença das decisões. A fragilidade do existir. A futilidade das palavras.
Solidão. Em todo o lado. Se me abandonasses, nem saberia como te preencher.

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